Política

Por que o afrontamento de mulheres representa perigo ao sistema?

Márcia Foletto/Agência O Globo
Marielle Franco, a vereadora assassinada do Rio Imagem: Márcia Foletto/Agência O Globo

Talyta Vespa

Colaboração para Universa

16/03/2018 11h40

O assassinato brutal da vereadora Marielle Franco na noite de quarta-feira (14) no Rio de Janeiro não foi só uma consequência da violência que toma conta da cidade, segundo a doutoranda em História Claudielle Pavão.

A carioca, que atualmente é coordenadora da escola onde foi morta a menina Duda, em março do ano passado, acredita que o contexto da morte de Marielle é mais abrangente: “Ela era uma mulher, negra, favelada, politizada, feminista e lésbica que denunciou a truculência por parte da polícia carioca em Acari, na zona norte do Rio. E foi morta com nove tiros, sendo quatro na cabeça, uma semana depois do Dia Internacional da Mulher”.

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Pelas redes sociais, Marielle bravejou no início da semana: “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana, dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior. Compartilhem essa imagem nas suas linhas do tempo e na capa do perfil!"

Contudo, para Claudielle, o que a vereadora denunciou sempre aconteceu. “Pela internet, vi pessoas dizendo que ela foi assassinada por ter denunciado. Só que o que ela denunciou não é novidade. O genocídio do povo negro sempre aconteceu, Marielle só foi porta-voz dessa barbárie”, explicou.

Sete anos atrás, outra mulher que inflou o peito para punir o suposto quarto poder do País, as milícias, também foi brutalmente assassinada. A juíza Patrícia Acioli foi vítima de uma emboscada em agosto de 2011 -- ela foi responsável pela prisão de 60 policiais ligados a milícias e grupos de extermínio em seus últimos dez anos de vida.

Sete agentes da Polícia Militar do Rio de Janeiro foram acusados de cometer o crime.

“Tanto a morte da juíza Patrícia Acioli quando o assassinato de Marielle têm ligações diretas com o machismo e a opressão, já que foram tratadas com um silenciamento violento. Ambas eram mulheres em espaços de poder -- que a gente sabe que historicamente são ocupados por homens. Patrícia sabia que ia incomodar ao levar adiante uma série de processos com acusações graves a policiais. Assim como Marielle, favelada da Maré, reivindicou seu espaço ao ocupar uma cadeira na Câmara dos Vereadores, um ambiente branco e culturalmente elitista. Mulheres insurgentes fazendo barulho, denúncias, por um bem coletivo é desesperador para os grandes”, explicou Claudielle.

Segundo a especialista, a voz da mulher na hora de combater o crime é pesada. Não há tentativa de suborno, a retaliação já é a violência.

“As mulheres são menosprezadas o tempo todo. Quando a mulher é negra, então, isso aumenta significativamente. Mulheres negras são consideradas subalternas. Uma preta, homossexual e favelada desmascarar o sistema na cara dura foi difícil de eles engolirem”, concluiu.

Agressões em suas diversas formas

A morte de Marielle gerou comoção em todo o País, assim como a agressão contra uma professora que participava de uma manifestação na Câmara de São Paulo. Ambos os crimes aconteceram na quarta-feira (14).

A professora agredida por um GCM (Guarda Civil Metropolitano) na Câmara Municipal de São Paulo é Luciana Xavier, de 42 anos. Ela participava de um ato contrário à reforma da Previdência de servidores municipais, projeto do prefeito João Doria que visa aumentar a alíquota básica de 11% para 14% -- o que, na prática, significa diminuição do salário.

O texto foi aprovado pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e os manifestantes se revoltaram. Luciana tentou entrar na Câmara e foi golpeada por um cassetete. “Eles quebraram meu nariz”, disse.

A historiadora e professora do Instituto Federal de São Paulo, Juliana Serzedello, acredita que a agressão é o resultado do projeto político que visa a acabar com a educação no País.

“O problema da educação não é o fracasso, é o sucesso de um projeto. Nosso ensino é fracassado porque há um objetivo claro que é evitar que a educação se desenvolva”, explicou Juliana, que relacionou a violência contra as mulheres nas manifestações à ideia de passividade que ainda ronda a sociedade.

“As mulheres apanham mais porque, delas, não se espera enfrentamento. Mulheres que afrontam assustam e, por isso, eles sentem necessidade de repreender. Ninguém reconhece na mulher a legitimidade do espaço de luta”.

Já Claudielle garante que essa relação vai além: segundo ela, é mais fácil precarizar a educação quando o ensino é comandado majoritariamente por mulheres: “A gente vê que o número de professores homens que compõem as universidades é muito maior do que o número de mulheres. E quando chegamos à rede pública, para o ensino básico, o número de mulheres é bem superior ao de homens”, explicou.

De acordo com o censo de 2012, de 2 milhões de docentes da educação básica brasileira, 411 mil deles são homens, e 1,6 milhão, mulheres -- ou seja, para cada 4 mulheres, há um professor do sexo masculino.

Marielle, Patrícia e Luciana são símbolos de enfrentamento e luta, ações que ainda são essencialmente necessárias para a sobrevivência da mulher na sociedade brasileira.

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