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#SóMulherSabe: "Perdi a virgindade sendo estuprada"

Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Bárbara Therrie

Colaboração com Universa

15/03/2018 04h00

Vítima de dois estupros na pré-adolescência, a redatora publicitária Fernanda Gava, 26, demorou muito tempo para entender que não era culpada pelo que havia acontecido. Ela foi abusada pela primeira vez aos 11 anos, quando o rapaz a forçou a fazer sexo anal para não tirar a virgindade dela. Na segunda vez, aos 14, ela estava em casa com um colega quando disse que não queria transar. “Ele segurou meus braços e me penetrou. Perdi minha virgindade sendo estuprada, num ato frio, seco e sem amor. Nesse relato, Fernanda conta sua história.

Como ele tinha medo de tirar minha virgindade, penetrou no meu ânus. Fiquei sem reação, só consegui falar para que não queria, mas ele forçou e só parou quando gozou.

“Eu tinha 11 anos quando sofri o primeiro estupro, durante a minha primeira menstruação. Eu estava no clube com um colega da natação. A gente ficava de vez em quando. Ele tinha 16 anos. Naquele dia, ele me perguntou se eu era virgem, eu respondi que sim e falei que queria continuar virgem. Ele tirou a minha calcinha e sugeriu fazer por trás, mas eu não entendi o que aquilo significava. Eu me senti pressionada e constrangida. Como ele tinha medo de tirar a minha virgindade, penetrou no meu ânus. Fiquei sem reação, só consegui falar para ele que não queria, mas ele me forçou e só parou quando gozou.

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Imagem: Keiny Andrade/UOL

Ele me deixou ali sozinha e foi embora, como se nada tivesse acontecido. Fui invadida por uma mistura de raiva, desespero e medo de não poder contar para ninguém, porque eu tinha fama de vagabunda por ficar com os meninos. Sabia que não acreditariam em mim.

Eu me senti um lixo

Fui para casa, peguei uma faca e comecei a me cortar no antebraço e na perna, à medida que ia lembrando de tudo. Eu chorava de ódio. Eu me senti um lixo. Foi uma época bastante difícil porque eu já tinha um problema de autoestima muito grande por me achar feia e burra. O menino contou para os amigos dele o que tinha feito comigo e eu virei piada na escola e no clube. Até hoje eu consigo sentir a dor daquele momento. 

Fiquei muito tempo sem vê-lo. Nos reencontramos oito anos depois, num barzinho. Eu estava de costas, ele chegou no meu cangote e perguntou: ‘Oi, lembra de mim?’ Eu olhei para trás e respondi que não. Ele disse: ‘Aquele dia no clube’. Quando ouvi aquilo, fiquei em estado de choque. Sem dizer nada, fui para casa sem acreditar que tudo o que eu havia lutado para superar tinha voltado à tona. Tive vontade de morrer.

Falei que não queria, mas ele segurou meus braços e me penetrou

Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

O segundo estupro aconteceu quando eu tinha 14 anos e o menino, 15. Eu gostava dele. Ele era um dos poucos caras que falava que eu era bonita e interessante. Um dia, eu estava sozinha em casa e chamei ele para ir lá. Foi rolando um clima, eu achei que eu estava pronta para ter minha primeira relação sexual, mas na hora percebi que não.

Eu falei para ele que estava insegura, que não estava preparada e que não queria transar. Ele disse que só iria colocar a cabecinha. Eu insisti para ele não fazer aquilo, mas ele segurou meus braços e me penetrou. Fiquei paralisada. Meu corpo estava ali, mas minha cabeça foi parar em outro lugar. Perdi minha virgindade sendo estuprada, num ato frio, seco e sem amor. 

Quando ele saiu, eu fui tomar banho, me senti suja. Não parava de chorar. Fiquei umas quatro horas andando na rua, sozinha. Naquela época, eu não tinha ideia de que poderia denunciá-lo, porque a percepção que eu tinha de estupro --assim como a maioria das pessoas-- era das cenas de filmes, onde o cara batia na menina, rasgava a roupa dela, ela gritava. Só anos depois eu entendi que eu fui estuprada duas vezes. Aqueles homens tinham invadido o meu corpo sem o meu consentimento.

Entrei num processo de negação e me tornei uma mulher ansiosa e insegura. Tinha pesadelos com pessoas me segurando, tapando a minha boca, me impedindo de gritar e de me movimentar. Os anos seguintes foram difíceis, passei a beber e ficava com todo mundo. Eu achava que aquele era o tipo de vida que eu merecia. 

Conheci o feminismo e me descobri lésbica

Um tempo depois eu conheci o feminismo, que me ajudou a compreender muitas coisas. Aprendi sobre autoestima e entendi que o que eu tinha passado não era normal. Que o meu corpo é meu e ninguém pode tocar nele sem que eu queira. Aos poucos, fui sarando as minhas feridas.

Aprendi sobre autoestima e que o que tinha passado não era normal. Que meu corpo é meu e ninguém pode tocar nele sem que eu queira. 

Durante a terapia, passei por um processo de autoconhecimento e me descobri lésbica. Eu me senti muito mais eu depois que saí do armário. Há um ano estou namorando a Keka e estou muito feliz. Ela é o amor da minha vida. Nesse relacionamento, eu encontrei diálogo, respeito, carinho, compreensão e cumplicidade.

A lição que eu aprendi e o conselho que eu deixo para as mulheres que sofrem qualquer tipo de violência sexual é: procurem ajuda, não se calem, denunciem, não vivam em negação e se perdoem, porque nós não somos culpadas, nós somos as vítimas”.

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