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#SóMulherSabe: "Alisei o cabelo aos 7 e fiquei careca aos 9"

Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

13/03/2018 04h00

Na tentativa de se encaixar nos padrões de beleza impostos à mulher, a poeta Luz Ribeiro, 30 anos, não aceitava o cabelo crespo. "Durante muito tempo acreditei que ele era feio, fiz meu primeiro alisamento aos sete anos". Nesse depoimento, ela conta as críticas que recebeu, as mudanças que fez no cabelo e como mantém a autoestima.

Todos os dias me olho no espelho para reafirmar como sou bonita.

"Desde os três anos sofro por ter o cabelo crespo. Durante muito tempo, acreditei que ele era feio porque as pessoas diziam isso. Na escola, era alvo de comentários cruéis e de ‘brincadeiras’ maldosas. Meus colegas jogavam areia no meu cabelo e me zoavam, porque a areia não saía, mesmo eu sacudindo a cabeça. Minha família me instruía a ser forte.

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Como eu não sabia revidar as ofensas, me calava e chorava quando chegava em casa. Teve um dia que eu entrei no banheiro e agradeci a Deus por todas as coisas que eu gostava em mim, mas pedi a ele que mudasse meu cabelo e o deixasse bonito. Minha mãe viu minha oração e ficou emocionada, disse que eu era linda daquele jeito. Ela trabalhava muito na minha autoestima. 

Eu tinha sete anos quando fiz o meu primeiro alisamento com henê, uma pasta preta alisante. Minha mãe aplicou o produto, tirou e depois esquentou uma chapinha no fogão e passou no meu cabelo. Algumas pessoas acharam artificial e me perguntaram se eu tinha alisado. Fiquei com vergonha e disse que não.

Meu cabelo caiu e tive de raspar a cabeça

Aos nove anos, fiz permanente afro, o procedimento deu errado e meu cabelo começou a cair muito. Fiquei com buracos e falhas enormes. Minha mãe tentava disfarçar fazendo penteados, mas não funcionou. Ela teve de raspar minha cabeça toda. Fiquei traumatizada. Eu deixei de ser a menina com o cabelo feio para me tornar um menino.

Os garotos faziam brincadeiras que tiravam toda a minha feminilidade, eles não enxergavam mais nada feminino em mim. Para um garoto ser careca não havia nenhum problema, ninguém o zoava, mas para uma garota sim. Foi um grande rompimento da minha autoestima.

Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Ao longo de 15 anos, tive todos os tipos de cabelos. Alguns na tentativa de ser aceita e fazer parte de algo, outros para me encontrar. O cabelo crespo da mulher não é aceito pela sociedade. Eu já alisei, fiz progressiva, usei trança, já tive black, usei cacheado, já fui careca, já descolori, já pintei. Chegou um momento que eu não consegui mais reconhecer quem eu era.

A mulher é infinitamente mais cobrada do que o homem em relação à beleza. Nossa busca por aceitação é quase inalcançável.

Já fui vítima de racismo por causa do cabelo

O preconceito contra o meu cabelo também já esteve ligado ao racismo. Teve uma vez que eu estava no metrô, subindo a escada rolante, quando uma moça do outro lado-- de pele branca e cabelo liso--, olhou para mim rindo e disse: ‘Preta, fala pra mim, fala o que você sente por mim’.

Sempre sofri calada, mas, nesse dia, fiquei com tanta raiva que criei coragem e a confrontei. Gritava com ela dizendo que eu não tinha inveja e que eu não queria nada dela. Ela ficou assustada e me pediu desculpas. O mais louco é que as pessoas ao redor não tinham visto a ação racista dela e ficou parecendo que eu estava brigando à toa.

Os problemas de autoestima que acumulei desde a infância impactaram a minha vida amorosa e me tornei uma mulher insegura. Ninguém queria namorar a pretinha do cabelo duro. Namorei um rapaz que não me valorizava por causa da minha aparência. Ele criticava meu peso e meu corpo.

Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Teve um dia que fomos ao cinema e na saída pegamos uma garoa. Meu cabelo ficou armado. Percebi que ele estava envergonhado de ficar ao meu lado, mas não entendia o motivo. Na semana seguinte, saímos de novo e ele sugeriu de eu levar um guarda-chuva. Falei que não precisava, mas ele disse: ‘Depois chove e seu cabelo vai ficar que nem na semana passada’. Fiquei triste, porque eu não me importava como ele era por fora. Namoramos por quase dois anos. Tive medo de não achar outra pessoa.

O homem tem muito mais liberdade de ter a aparência do jeito que quiser, sem ser tão criticado e julgado.

Aos 22 anos, assumi o meu cabelo crespo depois que fui ao sarau da Cooperifa e vi mulheres com cabelos iguais ao meu e achei bonito. Eu me libertei. Faço terapia e todos os dias me olho no espelho para reafirmar como sou bonita. Meu cabelo crespo é um símbolo de resistência contra essa sociedade que impõe à mulher um padrão de beleza eurocêntrico”.

E você, identificou-se com o depoimento e o vídeo? Também tem uma história parecida? Conte pra gente... Use a hashtag #SóMulherSabe em suas redes sociais e compartilhe uma história ou comentário sobre a luta da mulher para se sentir bonita.

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