Diversidade

Casamento sem sexo e harém masculino: como era ser gay na idade Média

Reprodução/TV Globo
Pietro (Ricardo Monastero) e Heráclito (Marcos Oliveira), em cena da novela "Deus Salve o Rei" Imagem: Reprodução/TV Globo

Léo Marques

Colaboração para Universa

13/03/2018 04h00

Primeira novela medieval da Globo, “Deus Salve o Rei” se passa no ano de 1300. Na trama das 19h, o tio da rainha Lucrécia, Heráclito (Marcos Oliveira), tem um relacionamento amoroso com o professor de harpa, Pietro (Ricardo Monastero).

No folhetim, a orientação sexual dos dois tem sido aceita. Mas será que, durante a Idade Média europeia (de 476 a 1500 d.C.), era tão tranquilo assim ser gay?

Sem orientação sexual

Segundo a historiadora Paula Vermeersch, professora e doutora da Unesp (Universidade Estadual Paulista), no período da Idade Média, não havia os conceitos de heterossexualidade e homossexualidade que existem hoje, criados apenas na era Vitoriana, da Inglaterra do século 19.

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“Antes, muitas pessoas não viam a própria sexualidade confinada a apenas uma opção”, diz Paula.

Vida fácil para os reis

Monarcas como o inglês Ricardo 1º, conhecido como Coração de Leão (1157 - 1199), eram frequentemente flagrados em aventuras gays. Há relatos de que, antes de assumir o trono, ele mantinha um relacionamento com o rei francês Felipe 2º.

Mesmo na Península Ibérica (região hoje formada por Portugal e Espanha), dominada pelos mouros a partir de 711 até 1492, havia uma grande tolerância a respeito da sexualidade.

Embora o Alcorão (livro sagrado do islamismo) condene práticas homossexuais, os homens não cristãos que praticavam a sodomia (atos sexuais que não visavam à reprodução) abertamente eram conhecidos como a elite intelectual e política da época.

Historiadores apontam que reis que dominaram a região, como Abderramão 3º, Aláqueme 2º, Hisham 2º e al-Mutamid, mantinham até mesmo haréns masculinos.

Para o historiador espanhol Miguel Cabañas Agrela, a realeza era a menos importunada nesse sentido. “Nenhum tribunal ousaria comprometer um rei por questões referentes à sua vida privada. Não faltavam fofocas, mas as acusações eram feitas na esfera privada”, conta em seu livro “Reyes Sodomitas”.

Podia casar, mas não transar

Chamada de “adelfopoiesis” (em grego, “fazer irmãos”), essa cerimônia religiosa era considerada mais uma “fraternidade” do que um casamento. Realizada pela Igreja Católica até o século 14, consistia em unir dois homens para criar uma convivência, permitindo a eles não só o direito de compartilhar o lar, como também à herança e o sepultamento em um mesmo túmulo.

Teoricamente, não era permitido ato sexual, mas muitos historiadores afirmam que essa celebração foi muito usada para encobrir relacionamentos homossexuais.

Perseguidos dentro e fora da Igreja

Na mesma época, não faltaram histórias picantes dentro da Santa Sé. Uma delas diz que o papa João 12º (pontificado entre 955 d.C. e 964 d.C.) chegou a ser afastado de suas funções por causa de orgias bissexuais.

Outros papas, como Bento 9º (três papados, entre 1032 e 1048) e Paulo 2º (pontífice entre 1464 e 1471 d.C.) também são conhecidos por polêmicos relacionamentos que mantiveram com outros homens.

Porém, para longe do Vaticano e em busca de mais controle da sociedade, a Igreja passou a perseguir os homossexuais com mais rigor a partir do Terceiro Concílio de Latrão, em 1179.

Padres que praticassem a sodomia deveriam ser depostos de seus cargos e aprisionados em mosteiros, enquanto os civis seriam excomungados.

“As necessidades do corpo precisavam ser disciplinadas, e a Igreja contava regularmente com o braço armado dos governantes de cada reino para isso”, conta Paula.

A idade pesava na condenação

A partir do século 13, em muitos reinos da Europa, existiam três níveis para criminalizar os que se relacionavam com parceiros do mesmo sexo.

Os acusados com menos de 15 anos ficavam reclusos por três meses. Acima dos 15, eram presos e pagavam multa. Se não pagassem, eram açoitados, tinham suas genitálias amarradas e, depois de serem obrigados a desfilar pelados pela aldeia, terminavam expulsos.

Quando maior de 33 anos, o indivíduo era julgado sem direito à defesa e, caso condenado, tinha seus bens confiscados e era queimado em uma fogueira.

A culpa era do pecado

A Peste Negra, doença que se alastrou pela Europa entre os anos 1346 e 1353 e matou mais de um terço da população do continente, tornou a perseguição aos grupos considerados pecadores ainda pior.

O pecado humano passou a ser apontado como a causa da doença e de diversas outras catástrofes, como fomes e guerras. Isso levou à perseguição de minorias como os judeus, pagãos e homossexuais.

Medidas ainda mais severas foram aplicadas, como a que ocorreu na cidade italiana de Florença, em 1432. Ali, criou-se a figura dos agentes noturnos, que buscavam supervisionar os cerca de 40 mil habitantes da cidade e coletar todo tipo de prova para incriminar as minorias.

O resultado foi a prisão de 17 mil pessoas, das quais 3.000 foram sentenciadas por sodomia às mais diversas penalidades, sendo a morte e o confisco de bens as mais temidas.

Fontes: Paula Vermeersch, professora doutora de história da arte e da arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista. Livros: “Born to Be Gay – História da Homossexualidade”, de William Naphy; “Sexo, Desvio e Danação: As Minorias na Idade Média”, de Jeffrey Richards; “O Amor Entre Iguais”, de Humberto Rodrigues; “Reis Sodomitas”, de Miguel Cabañas Agrela; “Efebos y Homosexualidad en el Medievo Ibérico”, de Daniel Eisenberg.

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