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Fim de grid girls e garotas do pódio encerra era das mulheres decorativas?

AFP PHOTO / ANDREJ ISAKOVIC
Grid girls se protegem da chuva em Monte Carlo Imagem: AFP PHOTO / ANDREJ ISAKOVIC

Daniela Carasco

da Universa, em São Paulo

12/03/2018 04h00

No dia 25 de março, uma mudança será notada durante o GP da Austrália. Na pista, em meio aos carros, pilotos e equipe técnica, não haverá mais o famoso desfile de “grid girls” em posse de seus guarda-sóis. Uma mudança parecida acontecerá nas próximas edições do Tour de France. Na hora de subir ao pódio, os ciclistas campeões não receberão mais o clássico beijinho na bochecha de uma modelo sorridente, as conhecidas “podium girls”.

Essas não foram as primeiras iniciativas do tipo. Em 2016, o australiano Tour Down Under trocou as garotas do pódio por jovens ciclistas. "Nós queremos, sim, incentivar as meninas, mas para que sejam atletas, mecânicas e empresárias", declarou o ministro dos esportes da Austrália na época. No ano passado, a Vuelta a Espana também anunciou o fim da contratação de modelos para este fim. Seria esse o começo do fim da era das mulheres decorativas?

Para organizadores da Fórmula 1, mantê-las “não é mais condizente com as normas da sociedade moderna” (leia-se: aumento de discussões sobre empoderamento feminino e críticas relacionadas à objetificação das mulheres). 

Arquivo pessoal
Natasha Santos, que trabalha há dez anos como grid girl e promotora no Salão do Automóvel Imagem: Arquivo pessoal
Elas não gostaram!

A decisão desagradou modelos, que se rebelaram nas redes sociais. “Achei tão desnecessário. É um jeito de embelezar o espaço”, diz Natasha Santos, 32, que trabalha há dez como grid girl e modelo do salão do automóvel, em entrevista à Universa. “Me incomoda um pouco quando me reduzem ao estereótipo do rostinho bonito, não somos só isso.”

Ter 1,70m de altura e pesar, no máximo, 68kg é, porém, o que as mantém na pista. O dia de prova começa cedo, às 4h. “Às 5h, já estamos de delineador. A orientação é que seja uma maquiagem ‘de bonita’. Seguimos então para o autódromo. Até às 16h, a gente levanta a placa da largada ou fica segurando o guarda-sol ao lado do carro. Entramos mudas, sorrimos para as fotos e saímos calada”, conta. Quantos homens exercem o mesmo papel? “Nenhum”, garante.

Um dia de trabalho como esse lhe rende, em média, um cachê de R$ 450. Perdê-lo, aliás, é seu maior lamento. “Tirar essa função da gente, é tirar um dia de trabalho”, diz Natasha, que é formada em marketing, mas não se vê atuando em um escritório. “O salário que eu ganharia no mês, ganho em duas semanas fazendo evento. Também não gosto de rotina. Por isso, me incomoda essa decisão.”

Adriane Zagari dona da agência HZ Eventos, que agencia as meninas, concorda com Natasha. “Acho o trabalho das grid girls tão bonito”, diz ela, que já trabalhou como modelo até engravidar do primeiro filho. “O que eu ia fazer da minha vida? Não podia mais modelar”, diz, se referindo à mudança física. “Tive, então, a ideia de abrir uma agência, porque sempre amei esse mundo.” Adriane se formou em Direito, estudou gastronomia, em Paris, e inglês, em Boston.

“A objetificação está começando a pegar mal”

Frear a objetificação feminina, que reduz as mulheres à condição de objeto sexual, é uma das lutas do movimento feminista. Em tempos de empoderamento, o que se busca é o reconhecimento de qualidades e capacidades femininas fora do âmbito da beleza.

“Esse reducionismo está começando a pegar mal, está virando politicamente incorreto”, comemora a psicanalista Joana de Vilhena Novaes, professora da Universidade Veigas de Almeida e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio.

“Eu só quero pagar minhas contas”, diz Natasha, que se admira a escalada de Adriane Galisteu. Aos 19 anos, ela assumiu o posto de grid girl e chamou a atenção de Ayrton Senna, com quem viveu um romance durante um ano. O acontecimento lhe rendeu visibilidade e espaço na TV.

Joana reconhece que o fim dessas funções possa desagradar quem as assumia, mas vê a mudança com bons olhos. “Todo movimento precisa ser radical para conseguir de alguma maneira ser metabolizado, incorporado. Quem fazia daquilo uma atividade profissional vai se ressentir, mas certamente deve ter outra potencialidade. E quer saber? Eu diria, inclusive, para que não se preocupem. A beleza ainda é um capital erótico ‘fantástico’ no Brasil.”

Vem mais mudança por aí?

Adriane Zagari acredita que a iniciativa não deve se estender ao Salão do Automóvel. “Não dá nem para pensar no salão sem as meninas”, declara. Ela e Natasha garantem que a ideia da mulher troféu, espécie de recompensa para quem comprar um automóvel de última geração, ficou no passado, assim como o assédio. A executiva diz nunca ter recebido denúncias por parte das modelos e orienta que, caso ocorra alguma "investida", "se comportem com delicadeza e chamem um segurança".

E emenda: “Tenho notado que cada vez mais os clientes não querem só uma mulher bonita. Antes de serem escolhidas, as promotoras fazem prova, precisam entender de mecânica, do produto que está sendo exposto”, diz. Na contramão das mudanças, porém, o tal desfile que elege a musa do salão no último dia de evento continua acontecendo.

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