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Carreira e finanças

"Não adianta treinar mulheres para a liderança, se as empresas não mudarem"

Arquivo pessoal
Renata Moraes quer aumentar a presença de mulheres nas lideranças das empresas brasileiras Imagem: Arquivo pessoal

Helena Bertho

do UOL

05/03/2018 04h00

Aos 28 anos, ocupando um cargo de gerência em uma ONG dedicada a formar novos líderes para o mercado, Renata Moraes, 32, começou a perceber que passava por alguns desafios profissionais que só existiam por ser mulher. "Eu era cobrada de um modo diferente dos meus colegas. Esperavam que eu fosse fofa, solícita, amiga das pessoas. Com os outros não era assim", lembra.

Ao mesmo tempo, começou a notar que entre os líderes formados pela ONG Estudar, onde trabalhava, uma minoria era de mulheres. "Comecei a perceber que, em geral, os processos de formação de líderes não formam mulheres. Pelo contrário, ao longo da jornada, elas são expelidas".

Ela, então, decidiu empreender e investir na formação de mulheres para a liderança, com o objetivo de ver mais mulheres nos cargos mais altos das empresas. Surgiu, assim, a Impulso Beta, fundada em 2015.

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No início, seu foco era todo na formação das líderes, mas, dentro das empresas, elas ainda penavam para crescer. "Depois de um tempo, ficou claro que não era um problema de liderança. Não adianta formar mulher para ser CEO se todos os processos da empresa não enxergam as mulheres".  A Impulso Beta passou então a oferecer serviços para as empresas, desde diagnóstico, até treinamentos para diminuir a desigualdade.

Em três anos de atuação, a instituição já atendeu mais de 700 mulheres e empresas como Delloite e Bank of America. Renata contou ao UOL o que pode perceber nesse período como sendo os maiores entraves para o aumento da presença das mulheres na liderança das empresas brasileiras.

Quais os principais entraves corporativos ao crescimento feminino?

Renata conta que seu diagnóstico nas empresas muda de acordo com o setor. Mas, independente da área de atuação, alguns dos entraves à presença de mulheres surgem em todas as companhias e precisam mudar:

1. A seleção é masculinizada: os processos de seleção de novos funcionários são baseados em modelos masculinos e valorizam características consideradas masculinas. Renata dá o exemplo de que homens são mais socializados para se impor, dar a palavra final, e isso acaba sendo bem mais valorizado em dinâmicas de grupo do que as mulheres que conseguem o que querem através da negociação e diálogo.

2. A divulgação e indicação: quando uma empresa é dominada por homens, a divulgação de vagas e indicação de candidatos costuma ser feita pelos homens, entre seus conhecidos homens, diminuindo as chances de que mulheres se candidatem.

3. Afinidade de quem seleciona: a gente tende a achar que quem parece com a gente é bom. Então, quanto menor a diversidade, menor é a chance de que ela aumente.

4. Não divulgar o salário com a vaga: essa prática tão comumo ajuda a manter mulheres ganhando menos do que homens. Funciona assim: a empresa pode pagar entre 5 e 8 mil para uma vaga. O contratante pergunta aos candidatos quanto ganham no emprego anterior, para determinar que oferta fazer. A mulher, provavelmente, ganha menos, e vai dizer um valor mais baixo do que o homem diria. Com isso, receberá uma oferta menor.

5. A crença de que hora extra é igual a resultado: muitas empresas esperam que os funcionários trabalhem muitas horas. Isso acaba penalizando mais as mulheres, já que elas ainda acabam sendo as responsáveis pelos cuidados da casa e dos filhos. Mesmo que seja muito produtiva nas horas de trabalho, mulheres são julgadas por sair cedo para buscar o filho na escola, por exemplo.

6. A maternidade é malvista: Renata ouve muito que mulheres são categorizadas como mães e, automaticamente, deixam de ser vistas como ambiciosas ou com potencial para crescimento. Ela cita a pesquisa da Fundação Getúlio Vargas que diz que 48% das mulheres que têm filhos ficam desempregadas em até um ano depois da licença maternidade.

7. Cobrança: Renata acredita que é comum que se julgue e cobre as mulheres de maneira mais dura que os homens na empresa. Além do desempenho, são exigidas das funcionárias atitudes como simpatia e bom humor. Além disso, existe uma pressão em relação à aparência. Mesmo em empresas flexíveis, se espera que as mulheres tenham unhas feitas e se maquiem, demandando um esforço que não é cobrado dos homens. 

O que as mulheres podem fazer para se tornarem líderes?

É comum ouvir por aí que a mulher que quer crescer profissionalmente deve adotar uma postura mais "masculina". Renata discorda. "Cada uma deve entender sua essência e o que busca, sem ficar presa em modelos. No treinamento, a gente só leva o entendimento de que o perfil da mulher, seja ele qual for, gera reações nos outros e como lidar com isso. Como posso ser quem eu sou, assumir meu estilo de liderança e estar preparada para a resistência que vou ter?", pergunta.

Além disso, ela acredita que existe uma defasagem de confiança, que leva mulheres a tentarem menos oportunidades, negociarem menos e aceitarem condições profissionais abaixo do que poderiam.

Para mulheres que trabalham em empresas predominantemente masculinas, Renata sugere participar de esforços para mudar o ambiente. Propor palestras e materiais sobre desigualdade de gênero e machismo pode ser um começo.

Além disso, tentar uma postura de ser firmar como profissional. "Não ouvir desaforo, não deixar passar. Mas não ser conflitiva sozinha e, sim, de forma institucional. Se você baixar a cabeça para injustiças, não será respeitada".

Mas Renata acredita que nem sempre isso é possível e algumas empresas não estão ainda dispostas a mudar. "Se não fazem questão de ter diversidade, talvez seja hora de começar a distribuir currículo. Quando todas nós começarmos a fazer isso, as empresas vão perceber que ou mudam ou vão perder talentos".