menu
Topo

Sexo

Tantra: ela se curou e hoje cuida de quem tem travas no amor e no sexo

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

João Luiz Vieira

Colaboração para UOL

03/03/2018 04h00

A paulista Kelly Aleka sofreu vários abusos sexuais ao longo dos seus 30 anos, da infância à fase adulta. Depois de experimentar substâncias ilícitas e álcool, descobriu a Ayahuasca e Umbanda, e começou a virar o jogo. Mas ela conta que foi como médium da religião que recebeu as instruções que precisava para a guinada mais radical. Sua pombagira lhe revelou que ela precisaria experimentar a massagem tântrica para se curar dos traumas. Três anos depois, ela atende indivíduos com travas emocionais na zona norte de São Paulo. Não trabalha, porém, sozinha. Maria Padilha das Almas e a Índia Jandira, ambas desencarnadas, permanecem com ela na sala. Leia a entrevista:

UOL: Qual sua formação?

Kelly Aleka: Fiz faculdade de RH (Recursos Humanos), mas sou, efetivamente, terapeuta tântrica, precisamente terapeuta de sexualidade sagrada. Também faço regressão, reiki tradicional e sou maga do fogo. Mas meu foco é, de fato, na sexualidade. Descobri o tantra para me curar.

UOL: Como assim?

Por conta de abusos, de relações mal resolvidas. Não posso falar de um abuso específico. Sofri alguns em diversas fases da vida. Na infância, na adolescência e na fase adulta. A maioria teve o toque, o abuso físico. Por isso fui buscar minha cura. Provocou em mim vários traumas.

UOL: Os abusos mais traumáticos foram na infância?

Sim e não. Foram o que me causaram mais dor em minha fase adulta, mas o que tenho mais lembrança foram os que aconteceram depois.

UOL: Lembra quantos anos tinha quando sofreu abuso na infância?
Não lembro.

UOL: Foi alguém da família?
Sim. Sempre é, né?

UOL: Chegou a denunciar esse parente?
Não, não denunciei ninguém. Quando criança, não tinha entendimento. Quando adolescente, tive medo do meu pai. Tinha medo de que ele fizesse algo com as pessoas, ia querer discutir, e acabaria sendo agredido. Ele iria atrás das pessoas. Preferi ficar quieta. Na fase adulta, tive medo da sociedade. Achava que sofreria mais abuso das pessoas, que iriam dizer que a culpa era minha.

UOL: Não contou para ninguém?
Não. Guardei tudo. Na verdade, passei a maior parte dos meus 30 anos colocando na minha cabeça a ideia de que nunca fui abusada.

UOL: Como colocou para fora esses traumas?
Não havia colocado até conhecer o Tantra [yoga tântrico ou tantrismo é uma filosofia comportamental de características desrepressoras, que, essencialmente, objetiva o desenvolvimento integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental e espiritual]. Até fui casada. Por quatro anos, dos 21 aos 26 anos, mas nunca comentei nada que havia vivido com meu ex-marido.

UOL: Não contou nem para ele?
Nem com ele tive essa intimidade. Tinha uma sexualidade reprimida. Tinha libido forte, mas desequilibrada. Tinha picos: ou queria muito fazer sexo ou nem queria olhar para ele. Tudo culpa das coisas que não pus para fora. Conheci o Tantra depois da difícil fase do divórcio. Foi quando comecei a sair muito, usei droga. Droga de rave, sabe? LSD, bala, doce. E bebia bastante. Antes do Tantra, conheci a Ayahuasca [é o nome quíchua, de origem inca, que se refere a uma bebida sacramental produzida a partir da junção de duas plantas nativas da floresta amazônica].

UOL: E como chegou a religião na sua vida?
Fui evangélica, por um período muito curto, de um ano. Fui para a Bola de Neve. Tentei o espiritismo também, mas foi o Daime que mudou minha vida. Lá me perguntavam se era aquilo que queria da minha vida. Sentia muita dor física, e eles me diziam que eu a estava provocando. Aí acordei muito rápido. Parei de usar droga e mudei a vida. Isso faz só três anos. Depois do chá conheci a Umbanda. Sozinha, sempre em busca desesperada. Conheci o templo Flecha Dourada [que fica em Santana, bairro de São Paulo], e fui me curando espiritualmente, como médium. Sabia que havia algo errado. 

UOL: Procurou terapia nesse meio tempo?
Até cheguei a fazer terapia, mas nem para ele falei nada dos abusos. Não achava que o que vivi influenciou meu corpo.

UOL: Quer punir alguém?
Sei quem são todos, não convivo mais com eles, mas não quero que eles sejam punidos. Na Umbanda, comecei o processo de autoconhecimento, e o processo de cura, que inclui perdoar essas pessoas. Não podia ter essa raiva por eles, porque iria se transformar em mais problemas para mim.

UOL: Você disse que os guias lhe informaram sobre o Tantra...
Recebi da espiritualidade, da minha pombagira, a orientação para procurar o Tantra. Tenho contato com eles, os guias, por meio do meu mental. E ela foi clara: procurar o Tantra para curar meus traumas.

UOL: Como assim?
Maria Padilha das Almas fala comigo no meu mental. Não escuto uma voz. É como se fosse um outro pensamento, que não o meu. Daí ela me deu essa instrução, e fui procurar um lugar legal. Queria fazer  terapia e não apenas ter um orgasmo, que era a imagem que eu tinha do Tantra: a de que iria para lá para gozar. Até fazer a primeira massagem. Com um homem.

UOL: Foi peculiar por ser um terapeuta com sexo genital diferente do seu?
Para mim, não. Não vejo o sexo. A questão é o terapeuta. Se ele está focado na cura, não importa o sexo. Fiz cinco sessões com ele e já entrei no curso. Na primeira sessão, não saí muito bem, não entendi o problema. Fiquei mexida.

UOL: De que maneira há ligação com a religião?
Na massagem tântrica utilizo ferramentas ligadas à espiritualidade. Faço respirações para que a pessoa entre em um estado de consciência alterado. Muitas vezes, ela nem percebe. Depois entra a Umbanda. Não trabalho só. Trabalho com a índia Jandira e minha pombagira, Maria Padilha das Almas. Eu não incorporo. Elas ficam do meu lado. E elas fazem o trabalho sem precisar do meu corpo em si, embora eu aja com ele.

UOL: Falam com você?
Se for preciso. Geralmente trabalhamos, as três, em silêncio. Elas vão passando orientações caso haja necessidade. Por exemplo, se tal pessoa precisa trabalhar autoestima, e aí eu sigo a orientação. Depende do cliente. A pombagira fala mais. Ela fala para mim. Muitas vezes, antes de o cliente chegar, já fico sabendo o que preciso saber.

UOL: Você fala para o cliente que há três espíritos trabalhando ali?
Não, só se a pessoa tiver entendimento disso. Quem tem conhecimento se sente mais confortável. Daí, antes da sessão, peço que o indivíduo se conecte com os guias dele. O processo eu conduzo, não preciso dizer como ou com quem. É como se alguém fosse se operar e perguntasse ao médico qual bisturi ele está usando.

UOL: As pessoas ficam tímidas em tirar a roupa?
Sim. Na primeira sessão, deixo o cliente ficar com a roupa íntima. Depois, ele fica tão à vontade que tira toda a roupa.

UOL: É problema homem ter ereção?
Não, é normal. É o que acontece. É muito raro não ter ereção. Em alguns momentos, cai, em outros, levanta. Faz parte do processo. Estamos subindo a energia sexual dele.

UOL: O que mais lhe impressionou dos retornos?
Muitos dizem que a massagem mudou a vida, e muita gente encontra as pessoas certas para se relacionar. E por que isso acontece? A energia estava bloqueada. Você atrai os iguais. Se está doente, encontra outro doente. Se curado, automaticamente, atrai os curados, mil vezes melhores.

UOL: Sexo também tem a ver com curiosidade. Vai diminuindo a libido com o tempo?
A gente vai evoluindo, mas, quanto mais cedo a gente descobrir a forma melhor de se relacionar, melhor. O sexo pode ser redescoberto. As pessoas estão muito doentes, mas muito poucas sabem. Essas doenças têm a ver com o tabu com que fomos criados, a de que, por exemplo, sexo não é sagrado.