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Mães e filhos

No banheiro e na rua; veja partos que não puderam esperar até a maternidade

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL

01/03/2018 04h00

Quem faz o parto é a mãe: não é o médico, a parteira, a enfermeira ou a doula --todos são apenas coadjuvantes, auxiliam a atriz principal do espetáculo, a mulher. Porém, há casos em que o pai acaba roubando um pouquinho a cena, mesmo sem querer.

São os chamados partos desassistidos acidentais, em que tudo foge dos planos da família e a criança resolve nascer em casa, sem a presença de um profissional habilitado, ou no carro, a caminho do hospital.

Confira os depoimentos de três pais que passaram por essa emocionante experiência.

“Só tive tempo de encostar o carro”

Arquivo Pessoal
Thiago com a mulher e os filhos Benjamin e Noah (à direita); este nasceu no meio da rua Imagem: Arquivo Pessoal
“O trabalho de parto do nosso primeiro filho durou 11 horas. Já o do segundo foi rápido a ponto de ele nascer no carro, a caminho do hospital. A bolsa estourou às 6h30, mas, como minha mulher não sentia contrações, liguei para o médico, que orientou a sair de casa por volta das 9h30. Porém, às 7h, ela teve uma contração forte e me disse que o bebê iria nascer logo.

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Foi tudo muito rápido: eu, ela e minha sogra entramos no carro e saímos. Em meio ao trânsito, Amanda disse: ‘Noah vai nascer agora!’. Só tive tempo de encostar o carro e me ajoelhar no asfalto, em frente a ela. Sob uma temperatura de 6 graus, liguei para nossa doula, no viva voz do celular. Ela me orientou a como ajudar, mas tudo é muito natural, o corpo sabe o que tem de fazer. 

Sabia que precisava manter a calma e não deixar o bebê cair. Foi o que fiz, além de verificar se nada estava obstruindo boca e nariz. Noah demorou um pouco para começar a respirar, e minha sogra ficou aflita. Até sugeriu dar um tapa no bumbum, mas a doula desaconselhou. Instantes depois, ele tomou fôlego e foi emocionante. 

Com nosso filho já no colo da mãe, seguimos para o hospital. Jamais imaginei passar por essa situação.”

Thiago Ferro, 39, comunicador e vereador, casado com Amanda Ferro, 37, pais de Noah, 3, e Benjamin, 6. A família mora em Curitiba (PR).

“Fiquei desesperado, mas me contive”

Ana Kobashi/Divulgação
André, com a mulher, Andréa, e a filha deles, Catarina; a menina nasceu no banheiro de casa Imagem: Ana Kobashi/Divulgação

"Queríamos parto hospitalar, com doula em casa até a hora do expulsivo. Mas não foi assim. Ela estava distante e acabou parando no condomínio errado. Desde as 5h, mantive contato com ela e o médico, no hospital. Por volta das 8h, minha mulher disse que não aguentava mais. 
Não imaginávamos o que vinha pela frente. Fiquei aflito e ela --na banheira-- me pedia para jogar água quente. A água borbulhava, mas ela não reclamava. Tentei ajudá-la a respirar profundamente para aliviar a dor. Andréa falou que sentiu  vontade de urinar e nesse momento a cabeça da bebê coroou. Pedi que deitasse no chão, mas ela dizia que não ia conseguir. Estava assustada e ansiosa. Por volta das 10h, sentei em frente a ela e só pensava em ajudar minha filha a nascer bem. 
Quando peguei a Catarina nas mãos, estava com a adrenalina muito alta. Fiquei desesperado, mas me contive. Logo a criança conseguiu soltar um ‘eeeeé’ e senti que estava bem. A doula chegou depois de cinco minutos, ajudou Andréa a caminhar até a cama. Se tivermos outro bebê, queremos que nasça em casa, mas, dessa vez, com planejamento e assistência.”

André Guimarães, 43, executivo de negócios, pai de Catarina, 3, casado com Andréa Pereira, 39. A família mora em Jundiaí (SP).

“Sou conhecido como o cara do parto em casa”

Arquivo Pessoal
Renato e filha, Alice Imagem: Arquivo Pessoal
“Tenho sono pesado, mas naquela madrugada despertei. Natália estava no chuveiro. Eram 2h, ela tinha sentido a primeira contração. Conforme orientações médicas, começamos a marcar o intervalo entre as contrações. A ideia era esperar ritmar para ligar para a obstetriz. Ela iria até nossa casa e seguiríamos para o hospital.

Cheguei a falar que meu maior medo era um parto em casa. Vinte minutos depois, Natalia voltou para o banho para aliviar as dores e telefonei para a equipe, combinamos de ir para a maternidade. Vinte para as três da manhã, ainda em casa, a bolsa estourou no banheiro. Natália me disse: ‘Está nascendo!’. Pensei: ‘Não é possível!’. Abaixei-me e vi a cabeça coroando.

Arquivo Pessoal
Natália com a filha, Alice, no chuveiro de casa Imagem: Arquivo Pessoal
Precisava ligar para a obstetriz, mas, mesmo com o celular em mãos, não encontrava o aparelho. Quando consegui me concentrar e falar, a orientação foi clara: ‘Segure o bebê!’ Alice saiu como um escorregão. Minha maior preocupação era deixar a água do chuveiro correr para checar se havia hemorragia. Estava tudo bem e fui tomado pela emoção.

A obstetriz chegou cerca de 15 minutos depois. Foi tudo tão rápido que, mesmo morando na mesma rua de um hospital público, não daria tempo de chegar. Na empresa em que trabalho, sou conhecido como o cara do parto em casa.”

Renato Limonete, 29, administrador, casado com Natália Santi, 29, pais de Pedro, 3, e Alice, 1 ano e 5 meses. A família mora em São Caetano do Sul (SP)