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Groupies ainda existem? Diminui número de fãs que perseguem roqueiros

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Filme Quase Famosos Imagem: Reprodução

Marcela Paes, do UOL

01/03/2018 04h00

Ana*, 26, realizou um dos sonhos de sua vida logo aos 18 anos. A estudante - que desde os 14 costuma ir a hotéis perseguir seus ídolos musicais - passou duas noites com Jimmy Page, na época com 66. O lendário guitarrista do Led Zeppelin foi só um dos primeiros de uma lista de roqueiros com quem Ana diz ter se relacionado. Membros de bandas como Deep Purple, Judas Priest e Rammstein, entre outras, completam a seleção.

“Fui até o Copacabana Palace quando o Jimmy veio ao Brasil gravar com a bateria da Mangueira. Eu e uma amiga ficamos tomando um café lá, esperando... E ele se aproximou da gente! Ele é um deus pra mim. Me tratou muito bem desde o começo, antes de ficarmos. Era época de Copa e nós assistimos a jogos juntos no hotel, nos divertimos”, diz a estudante.

Ver garotas como Ana circulando por lobbies de hotéis e bastidores de shows tem se tornado cada vez mais difícil. O cerco apertado dos seguranças e a mudança de hábitos dos músicos e dos próprios fãs são alguns dos fatores que fizeram a diferença. Para Dani Mel, locutora e tradutora de diversas bandas internacionais, muitos roqueiros têm medo de possíveis acusações de assédio.

“O mundo mudou muito e ficou um pouco mais chato também. Os caras estão tomando mais cuidado. As bandas mais famosas envelheceram. Muito desses caras têm famílias. Eles não têm mais cabeça nem saúde para ficar bebendo e fazendo baladas”, diz ela, que não se aprofunda muito na descrição dos episódios que presenciou e segue a máxima “what happens backstage stays backstage” (o que acontece nos bastidores fica nos bastidores).

“Uma vez eu estava ensinando umas palavras em português para o Bono Vox [vocalista do U2] e acabei perguntando se ele tinha filhos. Ele me respondeu: ‘Por quê? Você quer fazer alguns?’. Era óbvio que era uma brincadeira, ele foi super educado. Mas acho que hoje nem isso pode ser falado”, conta.

arquivo pessoal
Dani Mel e Axl Rose Imagem: arquivo pessoal
Dani já foi tradutora Rolling Stones, do Guns n Roses, Red Hot Chilli Peppers e U2, entre outras. Para ela, mesmo sendo fã de algumas das bandas com quem trabalhou, é importantíssimo manter a postura profissional. “É muito fácil ser confundida com uma groupie e por algum mal-entendido até perder o trabalho.”, explica.

Um dia antes do primeiro show do Foo Fighters em São Paulo, a bancária Beatriz*, 35, e o amigo Adriano circulavam pelo saguão do Hyatt, onde a banda estava hospedada. Os dois desembolsaram cerca de R$ 1000 por um quarto no hotel na expectativa de, pelo menos, tirar uma foto com o líder do grupo, Dave Grohl. Focados e com alvo certo, a dupla nem se mexeu ao avistar o roqueiro Josh Homme, vocalista do Queens of the Stone Age.

“Tem que saber o momento de abordar. Acho que agora tinha muitos seguranças em volta”, diz a bancária, que, por medo de críticas, não contou a ninguém que iria ficar no mesmo hotel do Foo Fighters. “As pessoas dizem que é um dinheiro jogado fora, acham que é algo inútil... Mas eu sou fã”, diz.

Táticas de aproximação

Uma estratégia bastante utilizada por fãs e groupies é chegar à banda por meio de roadies, produtores e músicos de apoio. Para que a missão seja bem-sucedida, as investidas começam bem antes do show, normalmente pelo Facebook. Meses antes da temporada brasileira de shows do Foo Fighters em 2015,  Yasmin Fischer, 20, já conversava com Rami Jaffe, tecladista do grupo.

Arquivo Pessoal
Yasmin diz que tem uma ligação com o trabalho dos músicos Imagem: Arquivo Pessoal
“Eu o adicionei no Facebook. Ele estava em um período de gravações em Nova York e tinha bastante tempo livre, então a gente jogava conversa fora. Falávamos principalmente sobre música, porque eu toco piano”, conta. Quando a banda chegou ao Brasil, Yasmin já tinha garantido autógrafos de todos os integrantes. Agora, o sonho da estudante é pelo menos conhecer os membros da banda. “Eu amo a música deles, até me emociona falar. Mesmo assim, não tenho vontade de ficar com nenhum deles. É um amor pelo trabalho mesmo, admiração”, diz com a voz embargada.

Outra é agir como se “pertencesse ao lugar” na hora de circular por backstages de shows e saguões de hotel. “Ficar com uma camiseta da banda chorando na porta do hotel não vai dar em nada. O segredo é ir arrumada, passar pelo segurança com uma cara bem fechada e se ele te perguntar onde você está, faça uma cara de “excuse me?”, explica Paula*, 35. Loira e alta, ela já participou de baladas com roqueiros como Axl Rose e Sebastian Bach. “Com o Sebastian eu e vários amigos ficamos bebendo até de manhã em um bar na praia. Ele viu uma calcinha em uma árvore e beijou! Disse: This is Brazil!”, conta, rindo.

Segundo Ana*, um dos erros das meninas que se predispõe a perseguir seus fãs é ter expectativas de um relacionamento. Ela atribui seu sucesso na tarefa à capacidade “de curtir 100% o momento presente”. “Eu não espero que eles namorem comigo. Sei que às vezes é coisa só de uma noite mesmo”, explica.


Aposentadoria

Após anos de aventura, viagens e de perder a conta de quantos músicos ficou e conheceu, Ana diminuiu a frequência com que vai a hotéis atrás de estrelas do rock. Hoje, trabalhando em um escritório de advocacia, ela mantém o contato com os músicos que já conhece via Whatsapp. “Os caras do Depp Purple toda vez que chegam ao Brasil já me mandam mensagem, me dão os ingressos, chamam para uma cerveja. Os do Iron Maiden também. Eu não sei definir se isso era um vício ou só um hábito, mas não tenho mais tempo de ir atrás”.

Paula também não costuma mais stalkear seus ídolos. Ela acha que antes, há cerca de 10 anos, as coisas eram mais divertidas. “Nós íamos em um grupo de amigas, fazíamos balada com eles. Com o Axl, por exemplo, foi super divertido, ele abraçava todo mundo. Ele fechou a cobertura do Hyatt pra essa festa. Pode até rolar, mas não acho que seja como antes. Hoje existem muitas meninas fanáticas e mal-educadas. Essas nunca vão circular com a banda”.

Mais criteriosa, hoje Ana só retomaria os hábitos de groupie por um roqueiro: Marilyn Manson. “Quando ele veio pra cá eu estava ficando com o vocalista do Rammstein e não consegui conhecê-lo. Por ele sim eu iria de novo para porta de um hotel”, ri.

*nomes foram trocados na reportagem para preservar a identidade das entrevistadas

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