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Pausa

Pare, respire e olhe o mundo ao redor

Por que falar que o tempo cura tudo às vezes é uma grande balela?

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Deixar que o ?tempo cure" também pode ser uma forma de se eximir da responsabilidade (e da dor) de se reerguer e se reconstruir Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL

25/02/2018 04h00

É difícil enfrentar a morte de uma pessoa querida, uma demissão, a perda de um animal, o fim de um relacionamento. Na tentativa de oferecer consolo, quem está por perto diz que tudo ficará melhor com o tempo. Na prática, no entanto, nem sempre é assim. Ter o domínio da situação é a solução. Duvida? Veja as razões abaixo

Dizer que o tempo cura tudo ao tentar confortar alguém é uma atitude atenciosa, mas também pode ser uma forma de dizer que a superação está fora do alcance da pessoa. “O tempo cura quem estiver dedicando tempo a resolver o problema”, diz o psicólogo clínico e organizacional Bruno Almeida, especialista em desenvolvimento de carreira e idealizador do projeto “Superando Desafios”.

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E, também, uma desculpa em forma de frase feita de quem não sabe ou não quer consolar alguém em sofrimento. Na dúvida, é melhor não dizer nada. “A meu ver, um abraço forte e dizer 'estou aqui' é o mais importante”, afirma Lívia Marques, coach e psicóloga organizacional do Rio de Janeiro (RJ). “Nunca peça para a pessoa parar de sofrer ou diga que tudo vai passar", diz Ellen Moraes Senra, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, também do Rio.

Vivenciar um período de luto por uma perda é importante, mas se entregar por um tempo indeterminado à dor pode culminar numa depressão. Para evitar isso, preste atenção na intensidade da dor e nos sintomas do sofrimento. É claro que, dependendo da perda, o impacto é tão forte que a pessoa realmente necessita de mais tempo para seguir em frente. “É bom prestar atenção caso estejam acontecendo perdas significativas no seu dia a dia e na produtividade. Isolamento, falta de contato social, tristeza sem fim, dentre outros sintomas, são sinais de que é preciso auxílio profissional”, orienta Lívia Marques.

A vida não fica em suspenso esperando que a gente reorganize as emoções. Então, em alguns casos, enquanto digerimos o sofrimento o melhor a fazer é arregaçar as mangas e ir à luta. “Poucas pessoas têm o privilégio de parar a vida para se reorganizar. A dor pode existir sempre, mas é importante irmos a luta”, fala Bruno. “Por outro lado, não devemos esquecer que existem pessoas que querem ir à luta e retomar a rotina, mas não conseguem. A ajuda de um profissional pode ser necessária”, diz o psicólogo.

Deixar que o “tempo cure" também pode ser uma forma de se eximir da responsabilidade (e da dor) de se reerguer e se reconstruir. Para Lívia, não é necessário se levantar de uma só vez, fingindo que nada aconteceu. O ideal é começar a ter pequenas mudanças no dia a dia e em suas atitudes. O tempo atenua a tristeza, mas é a maneira com que a pessoa lida com ele (não se sujeitando, mas transformando-o em alidado) que vai fazer a diferença no fim das contas.

O tempo pode aliviar a dor, mas é preciso vivenciá-la. Só assim é possível elaborá-la e enfrentá-la. “Permita-se sofrer, chorar, gritar ou não fazer nada se for essa a sua vontade, pois gastamos tempo demasiado tentando reprimir emoções que, na realidade, precisamos verbalizar e mostrar o quanto aquela pessoa ou situação era importante para nós”, sugere Ellen.

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