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Mães e filhos


Mães e filhos

Ele perdeu a mulher no parto e conta como retomou sua vida após a tragédia

Acervo Pessoal
Gledson e a filha, Maria Luiza Imagem: Acervo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração com o UOL

23/02/2018 04h00

Uma complicação no parto levou à morte a mulher do administrador Gledson Fonseca, 43. Keila morreu aos 34 anos e os gêmeos Samuel e Maria Luiza ficaram com sequelas e nasceram com paralisia cerebral. “Fiquei sem chão”. A seguir, Gledson relata como foi encarar a tragédia e ainda cuidar dos filhos. Ele conta como reconstruiu sua vida com a morte de um dos bebês um mês depois dele se casar pela segunda vez, com Sueli, 46.

“Após quatro anos tentando engravidar, eu e a Keila ficamos muito felizes de saber que teríamos gêmeos. A gestação foi ótima. Tanto ela quanto os bebês estavam bem de saúde. Quatro dias antes dela completar 37 semanas e fazer a cesárea, ela sentiu falta de ar durante a madrugada. Fomos para o hospital, ela tomou inalação, fez alguns exames, mas piorou muito rápido e teve a primeira parada cardiorrespiratória. Ela ficou sem respirar por quase cinco minutos.

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Quando os médicos conseguiram reanimá-la, decidiram fazer o parto às pressas. Os bebês passaram rapidamente por mim no corredor numa incubadora, direto para a UTI. Ao ver minha família naquela situação, fiquei sem chão, perdido, com a sensação de que eu estava sozinho. Foi um momento em que todo o sonho se transformou em pesadelo.

Keila queria ser mãe, ela lutou até o fim

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Gledson e sua primeira esposa, Keila Imagem: Acervo Pessoal

O médico me chamou e disse que eles tentaram de tudo, que a Keila lutou por seis horas, mas não resistiu à quinta parada cardíaca. O sentimento que eu tenho é de que ela queria tanto ser mãe que lutou com todas as forças, porque não queria partir. Sofri pensando em como seria viver sem a minha parceira, mas me mantive forte. Não podia fraquejar, tinha dois filhos que dependiam de mim. Seria pai e mãe deles. Após os exames, foi constatado que a Keila pegou um vírus da família do H1N1.

Após enterrar minha mulher, fui conhecer meus filhos

No dia seguinte, depois de enterrar minha mulher, fui para o hospital conhecer o Samuel e a Maria Luiza. Eles tiveram sequelas e nasceram com paralisia cerebral. Procurei me manter calmo, mas, dentro de mim, só eu sabia a dor que eu estava sentindo. Eu me apeguei a Deus e aos meus pais para suportar tudo aquilo.

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Gledson com Maria Luiza e Samuel Imagem: Acervo Pessoal

A situação dos gêmeos era grave e a batalha para mantê-los vivos era diária. Eles ficaram internados por três meses e foram submetidos a uma cirurgia para colocar um tubo na garganta para auxiliar na respiração. Como necessitavam de cuidados especiais, montei uma estrutura home care, numa casa em que aluguei perto dos meus pais. Cuidava deles com a ajuda de duas enfermeiras e da minha mãe.

Conheci a Sueli

Nesse período, recebi muitas mensagens de apoio pelo Facebook. Uma delas foi da Sueli, com quem tive um único contato havia alguns anos em um grupo de estudo bíblico. Ela disse que estava orando por mim e pelas crianças. Começamos a conversar e a nos conhecer melhor. Ela era viúva havia quase 12 anos e compartilhou comigo a experiência do luto.

A gente foi se aproximando e eu percebi que ela era uma mulher madura, que compartilhava os mesmos valores que eu. Precisava de alguém que não gostasse apenas de mim, mas que também amasse meus filhos. Começamos a namorar e dez meses depois de tudo o que havia acontecido, nos casamos, em abril de 2016.

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Gledson, sua segunda esposa, Sueli, com os gêmeos Maria Luiza e Samuel Imagem: Acervo Pessoal

Perdi meu filho com 11 meses

Eu tinha voltado a trabalhar e as coisas pareciam estar se ajustando, quando um mês depois do casamento, o Samuel faleceu após uma complicação respiratória. Ele teve o mesmo problema que a Keila. Foi uma pancada muito forte. Sofremos demais.

Minha segunda mulher abriu mão da carreira para ser tornar mãe da minha filha

Acervo Pessoal
Sueli e Maria Luiza Imagem: Acervo Pessoal

Mais uma vez busquei forças em Deus e segui em frente. Passado um tempo, a Sueli decidiu abrir mão da carreira dela e abandonou o emprego de 18 anos para se dedicar integralmente a Maria Luiza, a quem trata como filha e provê todos os cuidados e o amor de uma mãe dedicada.

Como não mexe nenhuma parte do corpo, a comunicação da Mallu com a gente é pelo olhar. Ela suspira e fixa os olhos em nós quando está feliz e quando fazemos carinho, brincamos e conversamos com ela. A saúde dela está estável e isso nos tranquiliza.

Apesar de tudo o que passei, sou grato a Deus por ele ter me dado uma nova família, por ter uma filha maravilhosa e uma esposa que é muito companheira. Somos abençoados. Temos aprendido a celebrar e a dar valor a cada detalhe. A vida é passageira e não podemos desperdiçar momentos com as pessoas que amamos”.