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Serviço de prevenção do suicídio bate recorde; CVV vê influência da Netflix

Getty Images
Imagem: Getty Images

Daniela Carasco

do UOL, em São Paulo

21/02/2018 04h00

Há 56 anos, o CVV (Centro de Valorização da Vida) se dedica a atender pessoas carentes de apoio emocional e com ideações suicidas. Desde a sua criação, os voluntários atenderam, em média, um milhão de pessoas por ano. Mas, em 2017, o serviço bateu recorde. Pela primeira vez, foram registrados 2 milhões de atendimentos, segundo levantamento divulgado ao UOL.

O crescimento significativo tem raiz em dois pilares importantes, segundo a instituição: o primeiro deles foi o convênio fechado com o Ministério da Saúde, que promoveu uma expansão e a gratuidade de rede 188, primeiro telefone sem custo de ligação para a prevenção do suicídio, que chega a sete novos estados brasileiros no dia 30 de março — Alagoas, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Com isso, aumentou para 22 mais o Distrito Federal aqueles que agora oferecem esse acesso à população.

Já a segunda razão diz respeito ao lançamento, em maio, da série da Netflix "13 Reasons Why”, cujo enredo gira em torno do suicídio da jovem estudante Hannah Baker.

“O mundo moderno tem feito com que a ansiedade e depressão cresçam cada vez mais. Então, a ampliação das condições de acesso contribuiu muito para o aumento dos números”, diz Robert Gellert Paris Junior, presidente do CVV. “Mas a chegada da série teve um grande impacto também. Nossos gráficos registraram picos de atendimento na época.”

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A crise econômica tem a ver com isso?

Segundo Robert, queixas relacionadas a problemas financeiros e desemprego sempre foram comuns. “Mas existe hoje uma sensação de desesperança muito forte nas pessoas que nos ligam. E isso tem, sim, a ver com a conjuntura econômica atual”, diz.

O que as pessoas que procuram o CVV têm em comum?

Apesar de o perfil dos atendidos não ser revelado, suas motivações para a procura do serviço já foram mapeadas. Sensação de solidão, não-pertencimento e dificuldade de desabafar são três fatores comuns àqueles que procuram a ajuda de um voluntário. “Há jovens que nos ligam dentro das festas, porque estão se sentindo sós no meio da multidão”, conta.

“E a queixa da falta de escuta por parte de amigos e familiares tem sido cada vez maior entre jovens. Enquanto cresce a facilidade de se expor na internet de maneira superficial, aumenta na mesma proporção a dificuldade de comunicação real e séria. A gente ouve com muita frequência: ‘Vou contar uma coisa que nunca disse a ninguém’.” A garantia de sigilo contribui muito para a confiança.

Quem está do outro lado da linha?

O atendimento 24 horas é realizado por 2.400 voluntários, que passam previamente por uma capacitação de escuta qualificada e sensível, que dura 40 horas. E a seleção está sempre aberta. Nenhum dos candidatos precisa, necessariamente, ser psicólogo de formação. Seu propósito não é substituir os serviços médicos e psicológicos, mas servir de apoio a eles.

“A ideia é conseguir acolher a dor de quem liga e conversar sem pressa. Normalmente, depois do desabafo, a pessoa se sente aliviada e percebe que precisa de ajuda profissional”, afirma Robert. “Servimos de apoio. Os psicólogos e psiquiatras não funcionam 24 horas por dia, mas se a pessoa precisa aliviar alguma angústia, é só nos ligar.”

O suicídio é um processo

Robert faz questão de reforçar que o suicídio é um processo, que vai “fermentando” dentro da pessoa. Por isso, falar abertamente sobre ele é fundamental. Segundo um estudo recente realizado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), 17% dos brasileiros já pensaram em suicídio.

“O processo começa pelo pensamento ou ideação. E aí se você não conversa sobre isso, não enxerga que pode ser tratado. Esse sentimento tende, então, a aumentar a ponto de atingir um segundo estágio, o do planejamento. Em seguida, pode acontecer a tentativa. Quando isso é manifestado para a gente, existe a possibilidade de desarmar a bomba.”

Na ligação, é permitido chorar e reclamar à vontade. “Aliviar a dor é o primeiro passo para encontrar uma solução, que muitas vezes é a ajuda profissional. Estamos falando de um problema de saúde pública.”

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