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Lidamos mal com a vida, e não com a morte, diz médica de doentes terminais

Daniela Carasco

Do UOL, em São Paulo

21/02/2018 04h00

A fala mansa e a delicadeza da médica Ana Claudia Quintana Arantes, 49, dizem muito sobre sua área de atuação. A geriatra formada pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) atua, há 20 anos, na área de cuidados paliativos. Ela lida diariamente com pessoas que estão no fim da vida. Sua placidez é o contrapeso perfeito para alguém cujo diagnóstico é de uma doença incurável.

“Recebo pessoas no consultório falando que não querem mais ser paciente de encaixe. Querem ser vistas e cuidadas. Só que os médicos não estão preparados para isso.”

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Seu interesse em acolher o sofrimento alheio vem desde a faculdade, onde foi julgada por colegas e professores. “Disseram-me que eu tinha uma capacidade nociva de me colocar no lugar do paciente e sofrer com ele”, recorda. Durante a graduação, chegou a planejar o próprio suicídio, por não enxergar uma saída profissional.

Ana Claudia, porém, insistiu, contrariou todas as previsões e virou referência na área. Entre seus feitos está ter implementado os cuidados paliativos dentro do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, um dos maiores do país.

Aqui, ela conta sobre sua trajetória profissional e revela os maiores arrependimentos de quem está próximo do fim da vida. “A gente é incompetente para viver.”

Simon Plestenjak
A médica Ana Claudia Quintana Arantes, que trabalha há 20 anos com doentes terminais Imagem: Simon Plestenjak
UOL - Por que a decisão de trabalhar com cuidados paliativos?
Ana Claudia Quintana Arantes - Durante a graduação, quando entrei em contato com os pacientes, pude perceber o quanto imóvel era a medicina em relação àqueles que não tinham mais condição de tratar suas doenças. A pessoa estava com dor, falta de ar, família caótica, um sofrimento absurdo. Eu questionava os professores sobre o que fazer. E eles diziam: “Nada, não tem o que fazer”. Hoje, o que se recebe na faculdade é apenas condição para ser um bom técnico de doenças.

UOL - Então, deve ter sido difícil para você…
Ana Claudia - Quando entrei em contato com o sofrimento dos pacientes, fui pedir ajuda para os professores. Disseram-me que eu tinha empatia patológica, uma capacidade nociva de me colocar no lugar do paciente e sofrer com ele. Falaram que eu não conseguiria me tornar médica, a não ser que passasse por terapia para me distanciar. Planejei meu suicídio. Eu não ia conseguir ser aquilo que queria, e só tinha espaço para esse sonho na minha vida. Só não me matei porque achei que iria falhar. Interrompi a faculdade por um ano, antes de voltar para a residência, período em que li o livro “Sobre a Morte e Morrer”, da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, que fala sobre conduzir um tratamento deixando o paciente confortável dentro do próprio corpo, para viver bem o tempo que lhe resta. Era o que eu queria fazer.

UOL - Até hoje os especialistas não sabem lidar com a questão da terminalidade?
Ana Claudia - Não. É considerada uma falha de caráter quando um médico é sensível a isso.

UOL - O que faz um especialista em cuidados paliativos?
Ana Claudia - Ele trabalha em equipe e tem como função avaliar e aliviar o sofrimento de um doente terminal, em todas as dimensões: física, emocional, social, familiar e espiritual. Todas as particularidades da existência humana acabam aflorando em sofrimento quando alguém se dá conta de que seu tempo está acabando. O primeiro passo é controlar o sintoma físico, com medicamentos dosados, que ofereçam conforto e não tirem a consciência. Porque não vai dar para conversar sobre culpa, arrependimento e medo, se ele estiver sentindo dor ou sedado.

UOL - Como você reage ao paciente que tem medo de morrer?
Ana Claudia - Pergunto sobre qual parte da morte ele tem medo. Normalmente, é de como ela vai acontecer e se ele vai sofrer até lá. E é aí que o profissional de cuidados paliativos se prova diferenciado de um não paliativo, porque ele sabe conversar. Os que não são preparados para isso costumam reagir dizendo: “Imagina, a medicina está tão avançada, vira essa boca para lá, não precisa ter medo de morrer”. E aí se estabelece um abismo. O paciente quer desabafar, mas o especialista não dá conta de ouvir. A questão toda não é a morte, mas o que você precisa passar até que ela chegue. E a maior parte dos profissionais deixa o paciente ser torturado pela doença até horas antes de morrer, e só aí entra com a sedação.

UOL - Quem são os pacientes de cuidados paliativos?
Ana Claudia - O mais óbvio é aquele que recebeu um diagnóstico de câncer. Mesmo que você negue, diga que vai lutar, mudar de vida, fazer promessa, trocar de religião e que vai ser curado, automaticamente, você pensa na morte. Mas aqueles com doença cardíaca, renal, pulmonar, hepática e neurológica também precisam. São órgãos vitais e, dependendo do tamanho do problema e da fase em que ele está, pode ser fatal.

UOL - É possível um médico saber quanto tempo de vida resta ao paciente?
Ana Claudia - Não. A pessoa que fala isso está vendo números de estatística. Não existe a menor condição de oferecer tempo preciso de prognóstico para um paciente. O que dá para falar é em unidade de tempo. Ou seja, o período em que a condição dele pode modificar, dependendo da doença. Um câncer de mama ou próstata, por exemplo, é medido em anos. O de pulmão, em meses. Só que podem ser quatro, 12, 36… Então, quando um paciente insiste muito, digo sempre que, para viver dez anos, é preciso viver hoje primeiro. A vida está acontecendo agora.

UOL - A psicologia deveria permear todo atendimento e a formação do médico?
Ana Claudia - Sem dúvida, porque uma coisa que sempre gosto de repetir é: “Sei onde está seu fígado, pulmão, mas não a sua paz. Não faço ideia do nível de medo que corre na sua veia”. Todos os dilemas humanos estão relacionados a perdas: de emprego, de status, de relacionamentos, morte…

UOL - Como é que se trata um sofrimento emocional?
Ana Claudia - A primeira coisa é não negá-lo e ficar dizendo que vai dar tudo certo. Mostrar que vão existir dificuldades no caminho, mas alguns oásis também. O problema é que, no Brasil, o doente terminal é abandonado pelo médico titular. Recebo pessoas no consultório falando que não querem mais ser paciente de encaixe, aquele que não tem mais jeito, porque o oncologista já não tem mais horário para ele. Elas querem ser vistas e cuidadas, e os médicos não estão preparados para isso.

UOL - O sofrimento abrevia a vida?
Ana Claudia - Quem sofre morre antes, e não é que morre bem, morre mal.

UOL - É comum as pessoas se ressentirem de trabalhar demais. É uma questão importante para quem tem uma doença terminal?
Ana Claudia - Se você está no final da vida por conta da evolução de uma doença, e tinha um trabalho feliz, sofre por não poder continuar trabalhando. Se você tinha um trabalho no qual era infeliz, sofre por ter perdido tempo com ele. O sofrimento é indiscutível, ele vai acontecer. Mas é muito melhor quando se tem a percepção de que viveu de acordo com aquilo que acreditava, independentemente da função.

UOL - Você conhece alguém que chegou no fim da vida sem arrependimentos?
Ana Claudia - Conheço. São pessoas que viveram uma vida muito legítima, não se cobraram além da conta do que poderiam dar. Nos erros, elas reconheceram que fizeram o seu melhor, tinham um nível de autocompaixão lindíssimo, sem ser autocrítico. E aí a doença veio porque tinha de vir, não transformou a vida delas.

UOL - Falta empatia hoje em dia?
Ana Claudia - Não. Empatia é a pior coisa que você pode desenvolver porque ela proporciona uma capacidade de sofrer. O que falta é compaixão pelo outro.

UOL - Qual o desejo comum dos doentes terminais?
Ana Claudia - Ser feliz. E sempre dá tempo, nem que seja por cinco minutos.

UOL - É duro ver a morte acontecer?
Ana Claudia - Dói, mas, quando parar de doer, vou precisar parar de trabalhar com isso.

UOL - Acontece um sentimento de fracasso?
Ana Claudia - Fracassar diz respeito a perceber a morte como uma falha humana, mas não é. Todo mundo morre. Fracassar é não cuidar da pessoa quando a doença não tem mais jeito. A percepção de fracasso é muito frequente na medicina, mas eu nunca mais tive isso depois que aprendi sobre cuidados paliativos. Sempre ganho. Quando entro no quarto para fazer o atestado de óbito do paciente e encontro todo mundo de olho vermelho e sorrindo, isso é vitória.

UOL - Por que os sorrisos?
Ana Claudia - Porque tudo foi feito, tudo foi dito, aquela história está completa. É uma missão de vida que se encerrou. Então, isso é uma vitória.

UOL - Ponderar a morte diariamente ajuda a viver com mais qualidade?
Ana Claudia - Sim. Não quer dizer que você não vá ter problemas, mas eles vão ter o tamanho que deveriam ter. Faço um convite para as pessoas quando começa esse “mimimi” sobre ter os maiores problemas do mundo. Proponho para elas supor que vão morrer na semana que vem e pensar em seus cinco maiores problemas de agora. Se a morte chegar na semana que vem, qual deles realmente tem valor? Talvez nenhum ou, quem sabe, só um deles. Isso te dá uma noção de prioridade que falta nas pessoas. O sofrimento maior é o de não saber o que é importante.

UOL - A gente lida mal com a morte?
Ana Claudia - A gente lida mal com a vida. A gente é incompetente para viver. A questão da morte é irrelevante, é só um dia da sua vida. O problema é que a gente vive adiando tudo até o dia que você descobre que não dá mais. Você vai morrer. Então, a hora que você estiver brava com seu chefe, irritada com alguma coisa, brigada com seu namorado, lembre que você está viva. Agora, quem foge do assunto da morte é o que chamo de zumbi existencial, alguém que tem sentimentos fabricados pelas expectativas dela ou dos outros. É uma pessoa extremamente objetiva em conquistas práticas e materiais. Ela só quer um corpo perfeito, uma conta bancária perfeita e um carro perfeito. É alguém morto socialmente.

UOL - Você considera a espiritualidade nos seus atendimentos?
Ana Claudia - Sempre digo que os médicos decoram tantas fórmulas, por que não poderiam decorar alguns versículos? A gente tem de conversar com os pacientes da perspectiva deles. Já tive uma paciente jovem com câncer, que ficou três dias comigo, e a mãe estava muito mal. Ela me perguntava o que poderia fazer. Sabia que ela era católica e sugeri que entregasse a filha para Nossa Senhora, que também tinha perdido um filho. Foi muito emocionante a cena, e foi o que ela fez. A menina morreu 15 minutos depois. Quando você faz esse tipo de trabalho, tem de saber por onde entra luz em qualquer religião.

UOL - Você escreveu o livro "A Morte É um Dia que Vale a Pena Viver. Por que defende isso?
Ana Claudia -
Porque a vida vale a pena viver, e a morte está dentro dela, não depois. É importante que você olhe para ela com toda a alegria de viver. Falo que a morte é uma ponte para a vida, para voltar a ela de outro jeito.

UOL - E qual o sentido da vida?
Ana Claudia - Seguir o coração. Para isso, todo mundo precisa um do outro. O que vai te fazer viver mais tempo e bem não é o nível do seu colesterol, a pressão arterial controlada nem o tempo de atividade física que pratica, mas a qualidade das suas relações. Você tem de ter, pelo menos, uma pessoa com quem possa contar em qualquer circunstância.

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