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"Fazia rituais de orações": a mulher que sofre de TOC ligado à religião

Arquivo pessoal
Karolyne Godói, 20 Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o UOL

16/02/2018 04h00

Quando ia à missa, a mente de Karolyne Godói, 20, era invadida por pensamentos intrusivos: “Sentia uma culpa horrível, pedia perdão a Deus e fazia rituais repetitivos de orações”. Ela sofre do Transtorno Obsessivo Compulsivo, ou TOC, desde os 14 anos. A jovem tem uma variação da doença que inclui obsessão por religião, organização e limpeza. A seguir, ela conta como superou as barreiras: 

“Eu tinha 12 anos quando tive os primeiros sintomas do TOC. As obsessões começaram com a necessidade de tocar a parede e a maçaneta da porta. Se eu tocasse em algum lugar com o lado esquerdo, eu precisava fazer uma sequência, até terminar com o lado direito. Também tinha problemas com números: tudo o que tivesse o número 3 me irritava profundamente. E isso me causava muita ansiedade.

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“Achava que eu estava ficando louca”

No início, eu não falava disso com ninguém, mas pensava: ‘acho que estou ficando louca’. Eu tinha consciência de que meus comportamentos eram irracionais, mas eu não conseguia evitá-los. Com o tempo, minha mãe foi percebendo alguns sinais sutis em relação à organização, como a minha compulsão por arrumar o tapete toda vez que ele ficava torto, e a minha arrumação do quarto, organizando tudo de forma simétrica. Tinha explosões quando alguém tirava alguma coisa do lugar.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Eu queria entender o que estava acontecendo, pois sabia que não era normal. Resolvi pesquisar na internet e comentei com a minha mãe, mas ela dizia para eu parar de colocar coisas na minha cabeça. Nessa época, eu já passava no psiquiatra para tratar de uma depressão. Contei para ele dos meus pensamentos intrusivos e de como eu me sentia.
Um tempo depois recebi o diagnóstico de TOC. Estava com 14 anos. Foi um alívio saber que eu não era a única pessoa no mundo a ter isso e que eu não estava ficando louca.

“Tinha pensamentos obscenos na missa”

Já nesse período, o TOC religioso começou a se manifestar. Sou católica e toda vez que ia à missa tinha pensamentos obscenos com o padre. Sentia uma culpa horrível, pedia perdão a Deus e fazia rituais repetitivos de orações para me livrar daquilo. Eu não suportava pensar aquelas coisas, me causava muita angústia e sofrimento pois eu me considerava a maior pecadora.

Eu me confessava com o padre e dizia que não conseguia prestar atenção na palavra [de Deus]. Ele falava que meus pecados estavam perdoados e me dava a penitência. Eu chegava em casa e rezava muito, mas não era o suficiente. Me sentia impura e não comungar mais, até que parei de ir à igreja. Só voltei quando melhorei.

Arquivo pessoal
"Eu tinha 12 anos quando tive os primeiros sintomas do TOC", diz Karolyne Imagem: Arquivo pessoal

Outra situação muito difícil do TOC religioso acontecia quando minha mãe saía para trabalhar e desligava o celular. Teve uma vez que liguei 90 vezes e, como ela não me atendia, entrei em desespero. Nesse dia, construí na minha mente a cena dela sofrendo um acidente: a ambulância chegando no hospital, ela morta, o enterro, minha vida sem ela. Chorava muito e rezava o ‘Pai-Nosso’ e a ‘Ave-Maria’ incessantemente.

Meus rituais também incluíam repetir frases sem parar, como: “Deus, não deixe nada acontecer”. À medida que fazia isso, feria e machucava a minha pele para tentar aliviar a ansiedade e controlar e punir a situação. Era uma forma de transferir a dor ou algo de ruim que pudesse acontecer a ela para mim. Eu achava que os meus rituais de orações eram poderosos e capazes de evitar o mal. Fiquei nesse processo durante seis horas e só parei quando ela voltou para casa. Minha mente ficou completamente conturbada.

“Fiquei 12 horas seguidas limpando meu quarto”

Também desenvolvi os sintomas de contaminação, que me levaram ao TOC de limpeza. Uma das minhas piores crises foi uma vez que minha mãe tinha acabado de fazer faxina no meu quarto e eu reclamei que estava sujo e imundo e decidi limpar tudo de novo. Fiquei 12 horas seguidas limpando. E eu me senti muito exausta.

Outra experiência complicada foi durante o noivado do meu irmão. Saí da festa e fui para casa tomar banho porque achava que estava cheia de bactérias e vermes. Fiquei duas horas no chuveiro. Não conseguia parar de chorar e minha pele ficou ressecada de tanto esfregar. Meu irmão saiu do próprio noivado para ir me buscar.

“Eu me sinto forte e vencedora”

Desde que fui diagnosticada, faço tratamento com medicação e terapia individual. Já são seis anos de acompanhamento médico. A terapia em grupo na ASTOC (Associação Solidária do TOC e Síndrome de Tourette) me ajudou a ver que eu tenho amigos com o mesmo problema que eu.

Hoje, estou muito melhor, eu ainda tenho alguns sintomas, mas falo para o meu TOC: ‘Você tinha o poder e controle sobre mim, agora eu controlo você’. Minha força de vontade em melhorar me fez superar muitas coisas. Me sinto forte e vencedora por conseguir passar por coisas que a maioria das pessoas ditas normais não precisa passar.

Esse ano já atingi minha primeira conquista, iniciei um trabalho voluntário com crianças autistas. Também estou confiante para voltar a estudar. Quero prestar vestibular ou fazer um curso técnico na área da saúde. Meu maior sonho é trabalhar no exterior. Conheço minhas limitações e sei que vou precisar vencer muitas batalhas para alcançar meus objetivos. Com o apoio e o respeito da minha família, sei que posso chegar muito longe”.

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