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De executivo a vendedor, refugiado diz viver em prisão a céu aberto

Gabo Morales
Tony Ndefru Fachaha,ex-executivo do Congo, que trabalha em uma mercearia no Brasil Imagem: Gabo Morales

Daniela Carasco

Do UOL, em São Paulo

06/02/2018 04h00

Há dois anos, Tony Ndefru Fachaha, 43, deixou sua vida no Congo para tentar reerguê-la com segurança no Brasil. “Não sou um refugiado, estou refugiado”, diz ele, que vive na companhia das duas filhas mais velhas –as outras quatro se refugiaram com a mãe na Austrália.

Em função de seu ativismo em direitos humanos precisou largar tudo para trás (a República Democrática do Congo vive uma guerra civil). “Fui perseguido e passei três meses preso, incomunicável. Fui vítima do meu próprio trabalho. Lidava com diplomacia, tinha contato direto com os Estados Unidos e a ONU [Organização das Nações Unidas]. Era considerado ‘perigoso’. A gente denunciava casos de abuso”, conta.

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No Brasil, ele diz se sentir seguro, o que não acontecia em seu país de origem. No entanto, além da saudade da família, Tony sofre por não poder exercer a sua identidade profissional. Com curso superior em técnicas sociais e sistema de informação, nativo em francês e fluente em inglês, ele trabalha como atendente em uma mercearia em São Paulo. Trabalho que ele exerce ostentando, na lapela, um broche e um crachá da ONG FOSBES, onde exercia o cargo de diretor administrativo, com status de consultor da ONU.

“Nosso conhecimento é negligenciado aqui. É como se eu estivesse em uma prisão a céu aberto”, lamenta. “Queria muito ter um trabalho ao menos próximo daquele que eu fazia. As informações que recebo do Congo são aterrorizantes, tem pessoas morrendo a todo momento. Estou no Brasil e quero participar ativamente da vida aqui. Sinto que meus conhecimentos estão diminuindo conforme deixo de usá-los. Exerço um trabalho puramente mecânico, que não me exige nada. Isso me deixa triste.”

Sua esperança de poder dar vazão aos seus conhecimentos acumulados está no Projeto Caleidoscópio, que tem o selo de reconhecimento do Alto Comissariado da ONU para Refúgio (ANCUR)

E executiva que quer transformar essa realidade

A iniciativa foi idealizada pela advogada Ana Paula Candeloro, 50. Seu objetivo? Ajudar estrangeiros com sólida formação e experiência corporativa a exercer funções que façam jus ao seu currículo.

Executiva de um banco alemão, em 2015, ela passou uma temporada a trabalho na Alemanha e ficou impressionada com o que viu. “Naquele período, o país estava recebendo muitos estrangeiros em situação de refúgio, e os bancos foram obrigados a abrir contas para eles”, explica. “Para isso, precisávamos conhecer melhor cada novo correntista.”

Foi durante as análises que ela se deparou com uma série de pessoas superqualificadas, forçadas a deixar para trás tudo o que tinham, inclusive o trabalho. “Só conseguia pensar se fosse comigo. Não é só uma questão de perda material, mas de identidade também. Bateu pânico. Comecei a pensar em como eu gostaria de ser ajudada se estivesse na mesma situação”, conta. “Não queria doar dinheiro e, sim, ações práticas para proporcionar um bem maior na vida dessas pessoas. O assistencialismo não resolve a vida dos refugiados.”

Gabo Morales
Ana Paula Candeloro com os refugiados Tony Ndefru Fachaha (à esq.), do Congo, e Mohannad Mohammad Alorfi (à dir.), da Síria Imagem: Gabo Morales
O número de refugiados cresce, mas o de empregados cai

Só no ano passado, o Brasil recebeu 34 mil solicitações de refúgio, segundo relatório do Ministério do Trabalho. Hoje, o país conta com 115,9 mil estrangeiros empregados. O problema é que esse número vem caindo. Em 2016, a quantidade de contratados com carteira assinada caiu 11% em relação ao ano anterior, de acordo com um estudo da diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV (Fundação Getúlio Vargas), em parceria com o Observatório de Migrações Internacionais da Universidade de Brasília.

Em 2017, Ana Paula transformou a sensação experimentada em 2015 em um projeto: um curso de gestão de negócios e governança corporativa. Ao longo de seis meses, ela orienta estrangeiros a abrirem seus próprios negócios ou a se tornarem consultores de pequenas e médias empresas. Na primeira edição, foram formadas 15 pessoas de sete nacionalidades – Palestina, Colômbia, Síria, Nigéria, República Democrática do Congo, Marrocos e Cuba.

Gestão de marca e imagem pessoal, workshop de comunicação verbal e não verbal e sessões de coaching fazem parte do treinamento, que ela banca com recursos próprios e com a ajuda de empresas parceiras. Tudo para mudar a realidade de Tony e outros refugiados, como um diplomata sírio que trabalha em um posto de gasolina, de um chefe de enfermagem que atua como faxineiro de hospital e outros profissionais que vivem uma desconexão absoluta com o que construíram a vida inteira.

“Todo trabalho é digno, mas nem todos garantem uma vida plena de potencialidades”, diz Ana Paula. Segundo a executiva, todos eles esbarram em três dificuldades muito pontuais: pouco ou nenhum domínio do idioma, dificuldade em readaptar o diploma –“além de burocrático, é caríssimo”— e falta de documentos.

Gabo Morales
Mohannad Mohammad Alorfi, refugiado da Síria Imagem: Gabo Morales
“Tenho dois diplomas, mas estou desempregado”

O currículo do sírio Mohannad Mohammad Alorfi, 31, é extenso. Ele é advogado formado, também tem diploma de design de interiores, experiência na área de alimentação animal e já fez trabalhos como modelo. Ainda assim, encontra dificuldades para ser inserido no mercado formal brasileiro.

Antes de desembarcar no Brasil, onde vive há dois anos, Mohannad passou pelo Líbano e, depois, pela Jordânia. “Saí da Síria dois anos antes de a guerra estourar”, conta. Ele é natural de Homs, uma das primeiras cidades sírias a se rebelar contra o regime de Bashar al-Assad. “Depois dos estudos, teria de servir ao exército por dois anos. Se você não serve, vai preso. Preferi fugir.”

A expectativa quanto à vinda ao Brasil era cheia de inseguranças. Mohannad não falava português e se bancava vendendo roupas on-line. “Acabou que o início nem foi difícil. Complicado está agora”, diz ele que está desemprego, vendendo o que pode para conseguir sobreviver.

Por aqui, já atuou como designer de interiores em um escritório e foi caixa de um posto de gasolina. “Tudo fechou em poucos meses. Isso foi muito duro para mim”, diz. Agora, enquanto tenta se manter “do jeito que dá”, estuda tirar do papel um projeto de construção de casinhas para cachorro, uma espécie de pequenos espaços de lazer para os animais. “Não quero depender de mais ninguém, e preciso colocar em prática minhas capacitações.”

As mulheres ainda são minoria

Entre os 15 participantes da primeira turma do curso, estava uma única mulher. A colombiana Mirta Margarita Anaya Castellon, 48, foge ao perfil padrão das refugiadas que buscam abrigo no Brasil. “O pré-requisito da graduação resulta na sub-representatividade feminina”, conta Ana Paula. “De modo geral, as mulheres ainda são pouco qualificadas. Aquelas que cuidam da casa e da família são maioria, por isso, nem chegam a se inscrever.”

Mirta chegou em São Paulo há 15 anos em função de uma perseguição política por grupos paramilitares. “Fui forçada a abandonar o meu país para buscar proteção internacional”, conta a advogada, sem dar muitos detalhes de sua vida na Colômbia, onde atuou como assessora na área de direitos humanos e direito internacional no Ministério Público na Prefeitura de Cartagena, além de assessorar a área de direito público no governo do Estado de Bolívar.

É um desafio pessoal

Idealizadora a iniciativa, Ana Paula confessa também aprender com cada etapa. A diferença cultural é gritante em alguns casos e acaba esbarrando em situações machistas, que também precisam ser trabalhadas. “No início, muitos dos alunos resistiram em me enxergar como líder do projeto. Eles tiravam dúvidas com algum voluntário homem”, recorda. “Mas, aos poucos, eles foram compreendendo as diferenças.”

Entre as dificuldades enfrentaras, ela destaca ainda algumas críticas recebidas. “Na página do projeto nas redes sociais, fui criticada por estar ajudando estrangeiros, enquanto o país enfrenta uma grande onda de desemprego provocada pela crise econômica”, relembra. “Só que um brasileiro desempregado pode contar com uma rede de ajuda, de contatos. Eles não. Eles tiveram suas vidas arrancadas e estão completamente sozinhos por aqui.”

Quem pode participar?

Justamente por “não estar dando o peixe, mas ensinando a pescar” é que Ana Paula precisou estabelecer pré-requisitos na seleção dos participantes do projeto. Para se inscrever, eles precisam falar português, ter formação superior e experiência corporativa.

A segunda turma deve começar nos próximos meses e contar com o dobro de alunos da primeira. Para viabilizá-la, a executiva lançou uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. O objetivo é arrecadar R$ 80 mil para cobrir despesas --aluguel do espaço para o curso, transporte e alimentação.