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Mães e filhos

Tinham sofrido tanto, não podia separá-los, diz mulher que adotou 5 irmãos

Arquivo Pessoal
Da esquerda para a direita: Ketelin, Nicoly, Rebeca, Marcos e Danilo, os 5 irmãos adotados por Marlysângela e o marido Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o UOL

05/02/2018 04h00

A professora de educação básica Marlysângela Gonçalves tinha 30 anos quando quis adotar uma aluna, que vivia em um abrigo, e acabou descobrindo que ela tinha mais três irmãos. “Eles já tinham passado por tanto sofrimento, que eu não podia separá-los e causar ainda mais perdas.”

Nesse depoimento, ela, que hoje tem 36 anos, fala sobre a luta para adotar as crianças e a descoberta da chegada de mais um irmão no meio do caminho.

“Após seis anos de casada com o Nelson, senti o desejo de ser mãe. Como meu marido havia feito vasectomia, iniciamos os exames para tentar a fertilização in vitro.

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Estávamos em 2012, e eu era coordenadora de uma ONG que desenvolvia um programa com crianças em situação de vulnerabilidade social, em uma escola municipal. Alguns dos alunos que estudavam lá viviam em abrigos.

Havia uma menina, de oito anos, que tinha um temperamento difícil. Os professores a levavam na minha sala para receber aconselhamento. E foi assim que conheci a Nicoly, a minha primeira filha. Aos poucos, fomos nos aproximando.

Comecei a pedir informações sobre ela para as cuidadoras do abrigo São Luiz, em São Bernardo do Campo (SP), onde ela morava. Também comentei com o meu marido sobre a minha nova ‘amiga’. 

Arquivo Pessoal
Marlysângela e o marido, Nelson Imagem: Arquivo Pessoal
Certa vez, estava na escola quando uma outra aluna, a Rebeca, foi mostrar uma atividade, e uma das professoras falou que ela era irmã da Nicoly. Quando soube disso, eu me aproximei dela. Ela tinha dez anos, era tímida, mas muito doce e receptiva. Contei a novidade ao meu marido e passei a tirar fotos e a filmá-las durante as atividades para mostrar para ele. Ele foi criando carinho por elas.

Estava tudo indo bem até que recebi a ligação da Janaina, assistente social do São Luiz. Ela me falou que as meninas haviam manifestado o desejo de serem adotadas por mim e que ela também sabia da minha vontade de adotá-las.

No entanto, ela estava me chamando para esclarecer que elas não estavam no processo para adoção, pois a equipe técnica do abrigo estava tentando reintegrá-las à família biológica. Fiquei nervosa e comecei a chorar.

Ela tentou me acalmar e aproveitou para me apresentar a terceira irmã das meninas, a Ketelin, de seis anos. Nesse mesmo dia, uma das cuidadoras me levou ao berçário para mostrar o quarto irmão, o Danilo, um bebê de um ano. Quando o vi, meus olhos encheram de lágrimas.

Como alguém poderia abandonar aquelas crianças tão indefesas"

Ao final da conversa, a assistente social me orientou a fazer um cadastro de adoção para ficar habilitada. Mesmo sendo pega de surpresa, nunca considerei adotar só uma das crianças.  Esses irmãos já tinham passado por tanto sofrimento, que eu não podia separá-los, fazê-los crescer um longe do outro e causar ainda mais perdas. Decidi lutar por eles.

No caminho de volta, fui conversando com Deus e pedindo ajuda e sabedoria para lidar com a situação. No dia seguinte, falei para o meu marido que não queria mais fazer a fertilização.  Contei as minhas descobertas no abrigo, e disse que queria que os quatro viessem para casa para formar nossa família. Ele concordou.

Demorou um ano para eu e o Nelson ficarmos habilitados e, mais um ano, para liberar a documentação das crianças. Eu já os chamava de filhos, e eles me chamavam de mãe. Pouco antes de eles irem para casa, ficamos sabendo da chegada de mais um irmão, o Marcos, um bebezinho de oito meses. Fomos conhecê-lo e já manifestamos a vontade de levá-lo também.

Era maio de 2014 quando ligaram para avisar que podíamos ir pegar as crianças. Em dois dias, pintamos o quarto, compramos duas treliches e adaptamos a casa de quatro cômodos. Nossa vida era simples, mas nunca tive medo de passar necessidade.

Eu me inspirava na força da minha mãe"

Ela teve oito filhos e sempre batalhou para nos educar e criar da melhor maneira possível.

Estava eufórica para ir buscá-los, mas fiquei arrasada quando me falaram que o Marquinhos não viria junto. Foi um período de muito sofrimento, mas não desistimos dele. Íamos visitá-lo com frequência. Era triste ver meu filho crescendo em um abrigo, sendo que ele tinha a oportunidade de estar com a família dele. Mas isso não era possível pelo fato de o processo de adoção no Brasil ser tão demorado e burocrático.

Somente quatros anos depois saiu a papelada e conseguimos adotá-lo. Até hoje me emociono com a imagem dele todo feliz nos esperando no abrigo para ir para casa. Faz quatro meses que ele está conosco. Agora sei que minha missão foi cumprida e que minha família está completa.”

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