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"Meu estômago não permitiria", diz Marcia Tiburi sobre Kim Kataguiri

Reprodução @marciatiburi
"O feminismo não é uma ação solitária. Nunca foi, nunca será. Por isso, há algo errado quando ele funciona em bolhas" Imagem: Reprodução @marciatiburi

Natacha Cortêz

Do UOL

30/01/2018 04h00

Na ultima quarta-feira (24), a filósofa e escritora Marcia Tiburi abandonou uma entrevista na Rádio Guaíba, em Porto Alegre, ao saber que dividiria a mesa com Kim Kataguiri, um dos líderes do MBL (Movimento Brasil Livre). O episódio, filmado e publicado na internet, virou mais um dos assuntos do dia, já marcado pelo julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Marcia estava na rádio para falar de Lula e também do seu novo livro, "Feminismo em Comum - Para Todas, Todes e Todos" (editora Rosa dos Tempos).
 
Na ocasião, Marcia, que não foi avisada da presença de Kim, foi categórica: "Tenho vergonha de estar aqui. Que as deusas me livrem. Não converso com pessoas indecentes, perigosas”.

Na entrevista abaixo, a filósofa, também famosa por participar da segunda formação (2005) do programa "Saia Justa", a mesa redonda feminista do GNT, falou sobre sua retirada do programa de rádio e sobre o livro, que quer levar o feminismo para além das mulheres que se dizem feministas. "Não faz sentido produzir feminismo 'para feministas'", afirma.

Veja também:

UOL: Por que, além do fato de não ter sido avisada sobre a presença de Kim Kataguiri, você abandonou a entrevista na rádio?

Marcia Tiburi: Confesso que senti medo quando o vi. Medo de que, no Brasil, após o golpe midiático-empresarial-judicial, não exista mais espaço para debater ideias. Em um dia muito importante para a história brasileira como foi aquele, marcado por mais uma violação explícita da Constituição da República, não me pareceu admissível participar de um programa que tenderia a se transformar em um grotesco espetáculo, no qual duas linguagens que não se conectam seriam expostas em uma espécie de ringue. Por fim, e principalmente, meu estômago não permitiria. Não sou obrigada a ouvir quem acredita que justiça é o que está em cabeças vazias e interessa a grupos econômicos, que, ao longo da história do Brasil, sempre atentaram contra a democracia.

UOL: Por que escrever esse livro agora?
Marcia: Não tinha escrito um livro mais pessoal e de caráter aberto a um público não especializado sobre a questão. E há muito queria fazê-lo. Ele não foi escrito apenas para convertidos ou apenas para mulheres, mas para todos os gêneros. Resolvi escrevê-lo como um convite a pensar. Talvez alguns o tomem como uma provocação, penso que pode ser uma introdução ao feminismo.

UOL: Vivemos um bom momento para se ser mulher? Especialmente falando de Brasil.
Marcia : Nunca houve um bom momento para ser mulher. Mas talvez seja um bom momento para se tornar feminista, para politizar a condição feminina, a vida de quem se reconhece ou é marcada como “mulher”. No entanto, vejo mulheres trans felizes com sua condição de mulher. Assumir-se mulher, nesse novo sentido, pode ser mais interessante do que ter sido heteromarcada (marcada por um outro). Nesse sentido, a reivindicação por uma identidade é também por singularidade.

UOL: Você diz que o feminismo corre o risco de se tornar mais um desses ideais que não produzem maiores consequências. “Um murro em ponta de faca”. Por quê? 
Marcia: 
Podemos reproduzir o feminismo como mais um discurso e, assim, participar do feminismo como “bolha”, dentro da qual se formam outras pequenas bolhas, que não se comunicam entre si. Por isso proponho em meu livro algo que venho chamando de “feminismo dialógico”, que significa uma operação complexa de enfrentamento aos sistemas de opressão (capitalismo, racismo, patriarcado, normalidade). O feminismo não é uma ação solitária. Nunca foi, nunca será. Por isso, há algo errado quando ele funciona em bolhas. O feminismo está para o patriarcado como a ditadura do proletariado está para o capitalismo, entende? Não faz sentido produzir feminismo “para feministas”, até por que feminismo se faz “com” feministas.

UOL: O que deve ser feito para que ele não seja apenas um ideal?
Marcia: Devemos antecipá-lo na prática. Os ideais de igualdade, de respeito à singularidade, de defesa de direitos, inclusive ao próprio corpo, de respeito e defesa da luta precisam ser realizados na prática. Não se realiza uma utopia sem luta. No patriarcado, sustenta-se a ideia de que não há outro mundo possível, de que a ordem machista é natural e boa para as mulheres, quando, na verdade, não é boa nem mesmo para os homens. O machismo naturaliza a ignorância e a violência sob uma forma de masculinidade jamais questionada.

Divulgação
Imagem: Divulgação
UOL: Um homem pode se dizer feminista?
Marcia: Ele pode, não estar blefando é que é mais difícil. Há um pouco de brincadeira nisso que digo. Temos de levar em conta que, embora o termo feminista ainda sofra de preconceitos, dependendo do contexto, dizer-se “feminista” tornou-se um estranho capital. Historicamente, houve homens de quem se pode dizer que eram feministas. Poulain de La Barre, que viveu no século 18, argumentou em favor da igualdade intelectual e de direitos entre homens e mulheres, em uma época na qual os filósofos iluministas eram todos machistas. O termo feminista foi primeiro usado para falar de forma desabonadora de homens que defendiam os direitos das mulheres e só depois usado pelas próprias. Nesse sentido, talvez seja difícil para um homem ser feminista pertencendo a um sistema de privilégios. 

O feminismo precisa ser uma prática concreta, um operador de transformações radicais e não apenas discurso.

UOL: O feminismo está moda? Se sim, isso te preocupa?
Marcia: Há algo de verdadeiro e de falso nas modas. É bom que o feminismo esteja na moda. Mas o fascismo também está. Usando esse exemplo quero apenas dizer que nada é bom apenas porque está na moda. Moda é publicização, é contexto simbólico. É o que estabelece o espetáculo e se estabelece por meio dele. Bom que o feminismo cresça e apareça, mas, ao mesmo tempo, não podemos nos iludir. O feminismo precisa ser uma prática concreta, um operador de transformações radicais e não apenas discurso.

UOL: “Mulher sempre foi uma palavra usada em sentido negativo”, você diz no livro. Como assim?
Marcia: 
Mulher vem do latim "mulier", que deriva de "mollis", mole. Está associado à fragilidade, precariedade e negatividade. Na história da filosofia, já em Aristóteles, encontram-se os fundamentos da crença na fragilidade do sexo feminino. Feminino e fêmea também vêm de “feminus”, que tem relação com uma fé menor. Eva e Pandora, para citar duas mitologias muito conhecidas, também colocam a mulher em um lugar moralmente negativo, são traidoras, são as culpadas, inclusive pelos erros dos homens. Falo dessas etimologias porque as palavras estão carregadas de história.

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