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Direitos da mulher

'Como você dorme à noite?': atletas depõem em julgamento de médico abusador

Brendan McDermid/Reuters
Larry Nassar chega para audiência na corte em Lansing, no Estado de Michigan Imagem: Brendan McDermid/Reuters

do UOL, em São Paulo

23/01/2018 04h00

Desde a última terça, 16, acontece em Michigan, nos EUA, o julgamento do maior escândalo da história do esporte mundial. O ex-médico norte-americano Larry Nassar, 54, foi acusado de assédio sexual por 140 atletas, incluindo as campeãs olímpicas Simone Biles, Gabby Douglas, Aly Raisman e McKayla Maroney. Mas estima-se que o número de vítimas chegue a 400. Os abusos duraram mais de 20 anos.

A primeira denúncia foi feita em 2016, mas o caso só veio à tona com a repercussão da campanha #MeToo lançada nas redes por atrizes e executivas de Hollywood. “Por muito tempo, me perguntei: fui muito ingênua? Foi minha culpa? Não, não foi minha culpa. Não, eu não vou e não devo carregar a culpa que pertence a Larry Nassar, a equipe de ginástica dos EUA e outros”, escreveu Biles, a atleta mais condecorada da história de seu país, em suas redes sociais, após ter sido tocada pela mobilização que repercutiu no mundo todo.

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Lassar foi o médico da equipe de ginástica artística dos EUA e da Universidade do Estado de Michigan por cerca de duas décadas - nessa última, cuidava não apenas de ginastas, mas também de outras atletas, como dançarinas, patinadoras e jogadoras de futebol. Suas agressões, porém, não se restringiram às esportistas. Uma amiga da família também se dirigiu à Corte para dar seu relato.

De acordo com as acusações, o médico inseria o dedo na vagina e no ânus das garotas durante o atendimento. Em alguns casos, chegou a se masturbar diante das pacientes. A vítima mais jovem tem 15 anos e a mais velha, 40.

Nassar está frente a frente com cada uma delas, durante o julgamento que irá definir sua pena. A sentença está prevista para sair nesta terça, 23. Ele não nega as acusações. Sua única declaração sobre o ocorrido foi em novembro, quando se disse “terrivelmente arrependido”. A pena mínima que pode ser decretada é de 25 anos, mas a Procuradoria pede mínimo de 40 e máximo de 125 anos.

A seguir, confira trechos de alguns dos depoimentos mais tocantes:

Geoff Robins/AFP
Kyle Stephens durante julgamento de Larry Nassar Imagem: Geoff Robins/AFP
Kyle Stephens, primeira a depor

“Larry Nassar colocou-se entre mim e a minha família e aproveitou a vantagem de ser amigo da família para nos quebrar. Meninas não são meninas para sempre. Elas crescem e viram mulheres fortes que voltam para acabar com o seu mundo”. Ela costumava passar os domingos em família com Nassar, que a abusou pela primeira vez aos 6 anos de idade. Por cinco anos, os abusos se repetiam semanalmente.

Jordy Wieber, ginasta aposentada e medalhista de ouro nas Olimpíadas de Londres

“Pensava que a coisa mais difícil do mundo era treinar para conquistar uma vaga nas Olimpíadas. Mas a coisa mais difícil e dura desse processo foi ser uma vítima de Larry Nassar. No começo de nossa relação, ele era uma pessoa segura. Ele me aconselhava a curar estresse e preocupação, tensão. Ele foi abusando de mim exame por exame... E o pior: naquele momento, eu não tinha ideia de que eu estava sendo abusada. Larry Nassar é um canibal! Sou uma de centenas de mulheres que sobreviveram a esses abusos.”

Aly Raisman, medalhista de ouro nas Olimpíadas do Rio

“Você tirou vantagem da gente. Você mentiu para mim e me manipulou quando me tocou para o seu prazer pessoal. Você insistiu que seu toque inadequado ajudaria a curar minha dor, mas a verdade é que me provocou uma dura dor física, mental e emocional. Agora a mesa virou. Nós estamos aqui. Temos poder e tenho voz. Não sou mais uma vítima, sou uma sobrevivente. Como você dorme de noite? Estaremos aqui pra ter certeza de que você terá o que merece: passar o resto da vida na cadeia. Abusadores, o tempo de vocês acabou! Sobreviventes estão aqui, de pé.” Aly apareceu de surpresa no tribunal.

Chelsea Zerfas, ginasta de 15 anos, estava na companhia da mãe

“Sou uma sobrevivente. Você me manipulou tanto. Larry Nassar é um monstro. Sou uma sobrevivente. Estou aqui hoje, olhando na cara do meu abusador e finalmente estou sendo ouvida. Nada disso é fácil. Ele não poderia ter ginastas com ele. Você é um homem doente. Você fez isso a mim. Você é o único causador de todo esse sofrimento.”

Donna Markham, mãe da ginasta Chelsea Markham, que se suicidou

“Sinto saudades dela todos os dias. Tudo começou com ele.” Chelsea tinha dez anos e o sonho de se tornar uma ginasta, foi nessa idade que visitou o médico. Na consulta, ele tocou sua vulva sem luva e pediu que nunca contasse a ninguém, pois isso destruiria seus sonhos. A menina entrou em depressão e, aos 23 anos, tirou a própria vida.

Chelsea Kroll, ex-atleta e medalhista de bronze nas Olimpíadas de Sidney

“As ginastas são treinadas para aguentarem a dor, para não se queixarem e obedecerem, e ele utilizava essa cultura para executar estes asquerosos abusos. Uma vez, quando tinha 16 anos, introduziu os dedos sem luvas na minha vagina durante 30 minutos fazendo movimentos circulares. Ao acabar, agradeceu a confiança nele. Senti-me confusa e envergonhada. Pensava ‘É o Larry, não me faria nada de mal’. Aconteceu 20 vezes. Tenho zero autoconfiança. Você é um demônio.”

McKayla Maroney, medalhista de ouro nas Olimpíadas de Londres

“Pensava que ia morrer. O doutor Nassar não era um médico; é, foi e será um abusador de crianças, um monstro de ser humano. Fim da história! Abusou da minha confiança, abusou do meu corpo e deixou cicatrizes na minha cabeça que talvez nunca desapareçam. Mas tenho a esperança que as autoridades não fechem o livro após ser condenado.”

Kamerin Moore, ginasta que chegou grávida ao tribunal

“Nem uma criança no útero deveria ficar perto de um abusador de meninas”, disse após pedir para manter uma longa distância do ex-médico.