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"Escapei de um relacionamento abusivo e hoje sei: sou um mulherão da porra"

Arquivo Pessoal
Hoje, com 26 anos, Pillar trabalha como modelo Imagem: Arquivo Pessoal

Helena Bertho

Do UOL

22/01/2018 04h00

Quem vê Pillar de Sá Freire, 26, esbanjando autoestima, não imagina que ela já foi o oposto disso. Por anos, a modelo se submeteu às vontades de um ex-namorado, a ponto de largar a faculdade e se afastar dos amigos, sendo humilhada e sofrendo até agressão física. Ao UOL, ela contou como foi conseguir escapar do relacionamento abusivo e recuperar o amor-próprio e a confiança em si mesma. 

"Com 17 anos, conheci meu primeiro namorado. E, como na maioria dos primeiros namoros, era tudo muito intenso. Achava que não viveria sem ele, bem em um momento em que ainda era uma menina que estava se descobrindo, tentando ver quem era e quem seria para o mundo.

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Em pouco tempo, comecei a gostar mais dele do que de mim. Aceitava que ele fizesse o que queria. Era muito ciúme, posse, que eu entendia não como um problema, mas um sinal de que ele gostava muito de mim.

Tanto que, aos 18 anos, entrei na faculdade de jornalismo que sonhava fazer e logo larguei, porque ele não queria que eu estudasse à noite. Era meu sonho e desisti por causa do ciúme dele.

Cheguei a tentar me matar"

Todas as áreas da minha vida estavam se moldando a essa relação. Eu, que sonhava ter cabelo curto, mantinha longo, porque ele gostava. Queria tatuagens, mas não fazia por ele. Eu me afastei das amigas e até larguei emprego porque ele pediu.

Tudo isso me deixava infeliz, mas achava que o amava e que precisava dele para viver. Perdi 17 kg de tristeza e cheguei no fundo do poço. Minha mãe via isso acontecer, tentava me avisar, mas eu não entendia.

Acho que foi entre os 20 e 21 anos que fui parando de comer e cheguei a tentar me matar.

Achava que não podia ser feliz sem ele"

Até que um dia, eu me olhei no espelho e pensei: 'Tenho 21 anos, larguei todos os meus sonhos e não posso ser quem sou, porque estou com alguém que diz que me ama. Será que isso é amor?'.

Decidi então terminar. Mas minha relação de dependência com ele era muito forte. Terminava, brigava e, no mesmo dia, voltava. Ele me tinha mão.

Arquivo Pessoal
O namorado mandava até no cabelo de Pillar Imagem: Arquivo Pessoal
Até porque me convenceu de que eu não valia nada, era feia, gorda e ninguém nunca mais ia me querer. Isso martelava na minha cabeça, eu me sentia sempre dependente dele.

Ele chegou a me agredir e eu nunca contei para ninguém, porque, de alguma forma, achava que merecia.

Depois de uma dessas brigas, minha mãe me chamou para ir a um samba com ela. Na verdade, ela me pressionou para ir e acabei cedendo. Lembro que cheguei lá e fiquei quietinha na minha, mexendo no telefone, esperando mensagem dele.

Mesmo assim, consegui curtir um pouco. Relaxei, vi as outras pessoas dançando e lembrei da adolescente que era antes dele. Saí de lá relaxada, pensando que talvez pudesse voltar a ser eu mesma.

Cortei contato com ele por uma semana depois desse dia e, quando nos vimos outra vez, disse que não o amava mais e terminamos.

Agora o que vier é lucro"

Foi aí que começou meu maior sofrimento e também minha maior descoberta. Eu não sabia quem eu era nem como começar a reconstruir minha identidade. Aos 21 anos, não tinha feito faculdade, não tinha amigas e não sabia nem do que gostava.

Reprodução/ Facebook
Imagem: Reprodução/ Facebook
Decidi começar procurando as amigas. Pedi perdão por ter me afastado e ajuda também. Elas me acolheram e, assim como minha mãe, passaram a apoiar com força minha recuperação.

Vi nessa época, em um programa de TV, a história de uma mulher que havia vencido a violência doméstica. Pensei que ela me entenderia e enviei uma mensagem pedindo ajuda.

Sua resposta foi como uma luz: 'O pior já passou. Você chegou no fundo do poço e agora o que vier é lucro'. Isso me inspirou a olhar de forma positiva para tudo o que conseguia.

Voltei a estudar e refiz as amizades"

Passei a sair, ir aos lugares que tinha vontade, com minhas amigas. Voltei a frequentar o samba e a dançar com alegria. E decidi voltar a estudar. Eu me perguntei o que faria sentido para mim e, por causa do samba, decidi fazer faculdade de produção cultural.

Voltei a enxergar uma luz no fim do túnel e recuperei por completo a vontade de viver.

Na faculdade, fiz novos amigos e, pouco a pouco, fui me redescobrindo como amiga, filha e mulher.

Contando assim, parece que foi fácil e rápido, mas não. Foi um ano muito longo até a cura começar. Um ano em que ele ainda me procurava, ameaçava e insistia, mas consegui me manter forte. Foi duro, mas necessário.

Hoje sou modelo e sei o que mereço"

Entendi que sou, sim, bonita e interessante, o contrário do que meu 'ex' dizia. Aceitei meu corpo e minhas curvas. E comecei a resgatar quem queria ser. Cortei o cabelo, fiz minhas tatuagens e aceitei que sou um 'mulherão da porra'.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Também decidi que não esconderia o que passei. Ia mostrar ao mundo que vivi uma relação abusiva e sobrevivi. Quero que outras saibam que o fardo pode ficar para trás. As marcas invisíveis ficam, mas, um dia, elas param de doer.

Falar disso passou a ser parte de quem sou.

Um ano e meio atrás, um amigo que é fotógrafo falou: 'Deixa eu te fotografar'.

E eu topei, fiz o ensaio. Quando vi as fotos, decidi ser modelo. Sim, eu, aos 25 anos, e vestindo manequim 44. Fui atrás disso e encontrei uma agência que tem tudo a ver comigo, pois trabalha com modelos periféricos e fora do padrão, dando espaço para gente que normalmente fica fora do universo da moda. Foi um encontro tão incrível que hoje vivo disso.

Aos 26 anos, posso dizer que estou completamente recuperada do que vivi. Eu me amo e, por isso, sei que posso amar outras pessoas verdadeiramente. Sei quem sou e o que mereço."
 

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