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Diversidade

"Passei por exorcismo", diz modelo e atriz trans que fez "Mulher-Maravilha"

Amanda Serra

Do UOL, em São Paulo

16/01/2018 08h00

Marcella Maia, 25, já conquistou as passarelas internacionais, estudou dramaturgia nas escolas New York Film Academy e Action School de Londres, mas tinha tinha preconceito contra si mesma. Aos 19, despontou como modelo e estrelou editoriais de revistas famosas, até fazer uma participação no filme "Mulher Maravilha", na pele de uma amazona. Transexual, a mineira viu seu corpo mudar quando passou pelo processo de redesignação de sexo em 2012, sem que ninguém soubesse, durante viagem à Tailândia. 

Até 2017, falar sobre o tema era algo que a modelo e atriz evitava. “Tinha preconceito comigo mesma, não me aceitava e temia perder oportunidades de trabalho. E por ter passado por várias sessões de exorcismo durante a adolescência, acabei me bloqueando”, conta ela, que cresceu em um lar evangélico.

Nada disso tirou o brilho de Marcella, que esteve nas páginas de “Vogue Itália”, “Harper's Bazaar”, “Elegant Magazine” e “Posh Magazine”, além de desfilar nas semanas de moda de Londres e Milão. 
 

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Mas a juventude de Marcella foi marcada por experiências negativas. “Lembro que uma vez, com 14 anos, voltei da escola, me colocaram no meio de um círculo com várias pessoas da igreja em volta e elas começaram a fazer orações para expulsar o demônio do meu corpo. Por um bom tempo acreditei que tinha algo errado comigo. Não havia exemplos, alguém para conversar, e me martirizava. Não era só algo de não se reconhecer socialmente, mas também de não ser aceita no círculo familiar. Hoje, com entendimento sobre quem eu sou, minha mãe pediu perdão por ter feito eu passar por isso e me dou bem com a minha família.”

Arquivo Pessoal
Marcella Maia caracterizada como uma das amazonas no filme "Mulher Maravailha" no estúdio Warner Bros em Londres Imagem: Arquivo Pessoal
Além das dificuldades de autoaceitação, Marcella também precisou lidar com a separação dos pais, quando ela tinha cinco anos, e com a mudança de Juiz de Fora (MG) para Brasília, onde foi morar com a mãe. Aos 12 anos, ao não se reconhecer em seu corpo, mas ainda sem entender sua verdadeira identidade, a jovem se assumiu como homossexual para a família.  

“Nessa época fui morar com a minha avó e fiquei lá até os 16, porque lidar com a minha homossexualidade em casa era complicado. A partir daí comecei a trabalhar como ambulante para juntar dinheiro, ajudar em casa e comprar as minhas coisas. Mas logo surgiu a oportunidade de me tornar ‘olheira’ da Mega Model em Brasília. Rapidamente cresci na agência, além de ver o meu desejo de ser modelo aumentar.”

Ainda que o mundo fashion proporcionasse mais liberdade para a mineira ser e entender quem ela é, o preconceito estava ali e vire e mexe batia à porta. “Sofria muito bullying por conta do fato de ter sido um menino muito afeminado, usar salto. Acabava frequentando o mesmo ambiente que a high society brasiliense e as pessoas, ainda hoje, são muito conservadoras lá [Brasília]”, conta ela, que aos 19 anos decidiu colocar em prática seu anseio. 

“Quando acordei da cirurgia não senti falta de nada”

Divulgação
Imagem: Divulgação

Com a desculpa de que iria para o exterior estudar, Marcella embarcou para a Tailândia e realizou a cirurgia de redesignação sexual. Foram três meses no país até se recuperar.

“Quando me empoderei do que sempre senti, do que sempre soube que era, não queria lidar com possíveis críticas ou ressalvas que poderiam surgir, caso contasse que viajaria para realizar a mudança de corpo”, conta a modelo e atriz.

“O mais difícil para mim foi sair da casa dos meus pais e enfrentar a vida ainda na infância. Ir para a Tailândia sozinha para realizar o meu maior sonho não foi tão complicado, mentiria se dissesse isso. Foi doloroso o pós-operatório, mas hoje, após cinco anos, se tivesse que passar pelo processo novamente, passaria. Sem receio. Assim que acordei da cirurgia não senti falta de nada.”

Passado um mês da cirurgia, Marcella se olhou no espelho pela primeira vez desde então e pode ter mais consciência de quem era. “Temia não sentir prazer e de fato me sentir mutilada, algo que não ocorreu. Foi a partir daí que passei a me empoderar, inclusive, [em relação a] minha própria personalidade, ao meu corpo. Foi ótimo conforme fui descobrindo meu corpo. Meu primeiro orgasmo foi sozinha, me masturbando mesmo. Até a operação, era uma pessoa assexuada”, desabafa.

Com a nova identidade, ela alterou seus documentos via Defensoria Pública e partiu para Istambul, na Turquia, para modelar. De lá, teve uma temporada na Ásia, Europa e EUA.

“Quando comecei a trabalhar como modelo no exterior, tive medo de contar que era transexual e estragar o que estava conquistando. Me assumir publicamente foi um processo demorado, mas deveria ter feito isso. Quando você se assume para o mundo, os outros param de querer te atingir. As pessoas passam a te tratar com naturalidade, como tem que ser.”

“Vendo a história da Dandara [travesti assassinado brutalmente], por exemplo, e o fato de eu ter dado certo na profissão que escolhi, vi que era meu dever levantar a bandeira da transexualidade. Quantas meninas não passam por repressões e custam a acreditar que a história delas pode ter um outro sentido na vida, como a minha teve? Querendo ou não, minha trajetória pode inspirar muitas trans, para elas verem que apesar do preconceito e das poucas oportunidades, a gente pode sim dar certo”, afirma. 

Divulgação
Imagem: Divulgação
Plano de carreira

Após a figuração em “Mulher Maravilha”, Marcella foi escolhida para viver a ex-modelo Cristina Mortágua em “Todos Nos 5 Milhões” dirigido por Alexandre Mortágua, também filho do comentarista Edmundo. No Brasil desde o ano passado, a jovem tem aproveitado para se dedicar aos cursos de artes cênicas, em São Paulo. “Juntei dinheiro, estou estudando e quero ser reconhecida pelo meu talento, trabalho. Quero ter papéis que não sejam estereotipados. Nunca quis ser valorizada por uma questão de gênero. Sou uma mulher e pronto. Isso, inclusive, é um grande problema na nossa sociedade. E no mais, minha vida até agora sempre foi um plano de carreira”, garante.

Em casa, o clima é de paz. “Minha transição corporal ajudou a minha mãe a entender quem eu sou de fato. Quando retornei do exterior, tive que trabalhar com eles esse processo de aceitação, de fazer com que substituíssem as fotos de quando era Marcello pelas atuais e passassem a me chamar de Marcella.”

A cura gay não existe. Na prática não funciona, porque não estamos falando de doença. As pessoas querem achar meios de justificar, mas não tem justificativa. Se tivesse uma cura, vários homossexuais, trans, procurariam simplesmente pelo fato de serem aceitos socialmente, por conta do preconceito”, conclui.

Apesar de frequentar alguns cultos com sua família quando "está em casa" e se considerar uma pessoa evangélica — inclusive, foi batizada —, atualmente a mineira tem um guru espiritual. "Por muito tempo fiquei com medo do fogo do inferno, mas vejo o quanto Deus é bom comigo e agradeço todos os dias por isso", afirma ela, que compreendeu que é uma pessoa como todas as outras.

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