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A inveja que sentimos ao checar redes sociais é perigosa e tem nome: FoMO

Reprodução Instagram
Basta estar conectado para cair na armadilha de acreditar que o mundo inteiro tem se divertido mais do que você. Imagem: Reprodução Instagram

Natacha Cortêz

Do UOL

12/01/2018 04h00

Quantas vezes você checa o celular por dia? Quantas delas são para conferir redes sociais dos outros? Aliás, acompanhar a (boa) vida alheia já te causou angústia? Se sim, saiba que o mal tem nome e “data de nascimento”. FoMO: sigla cunhada em 2004 por Patrick J. McGinnis em um artigo na revista “The Harbus”, da Harvard Business School, vem do termo “fear of missing out”, que, em português, quer dizer algo como “medo de ficar de fora”.

"A inquieta sensação de que você está perdendo algo que os outros estão fazendo; provavelmente algo melhor do que você está fazendo.”

Fato: em tempos nos quais a megaexposição é quase uma regra social na internet, não é raro que todo mundo --exceto você-- pareça viver muitíssimo bem, obrigada. Só no último fim de semana, por exemplo, é provável que você tenha visto (aos montes) fotos de festas imperdíveis, drinks na praia, pés na areia, crianças fofas e gatinhos meigos. Isso sem mencionar a multidão de famosos passando férias em Fernando de Noronha e outros retiros paradisíacos. 

A vida nas redes sociais, com direito à curadoria, filtros e edição tem cara de perfeição. 

Reprodução @gio_ewbank
Imagem: Reprodução @gio_ewbank

Basta estar conectado para se deparar com esse tipo de informação. Aliás, basta estar conectado para cair na armadilha de acreditar que o mundo inteiro está se divertido muito mais do que você.

FoMO não é frescura

Do mesmo jeito que é possível ter acesso ao que o outro vive, é possível sofrer por não ter a vida que ele ostenta. “Hoje, estamos expostos a muito mais informação do que há poucas décadas. Os estímulos e a importância que damos a eles estão potencializados. FoMO não é frescura, é mal-estar, pode se agravar e gerar de ansiedade a depressão”, explica Sylvia van Enck psicóloga do Programa de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Segundo um estudo divulgado em 2016 feito pelo departamento de Psicologia da Universidade de Essex, no Reino Unido, 75% dos indivíduos adultos já passaram pelo incômodo. “Não podemos afirmar que todos eles chegaram ao estágio da depressão, mas é legítimo que tenham sentido desconforto, angústia e ansiedade em diferentes níveis”, diz Sylvia, que apesar de ver a FoMO como uma tendência potencializada pelos nossos tempos, acredita que o sentimento é inerente à existência humana. “Eu diria que é um novo nome para algo que sempre existiu.”

Reprodução @kendalljenner
Imagem: Reprodução @kendalljenner

Leda Spessoto, psiquiatra e psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, concorda. “FoMO não é um fenômeno tão novo assim. Estamos lidando com sentimentos muito arcaicos da humanidade. Um dos dez mandamentos já dizia: ‘Não cobiçarás’. Na verdade, o que presenciamos agora só é inédito pelo cenário e pelas plataformas. A internet, especialmente através das redes sociais, moldaram esse ‘medo de estar perdendo’.”

Mas a partir de quando a FoMO deixa de ser um fenômeno comportamental inofensivo para se tornar uma disfunção com contornos de patologia? Leda esclarece: “O problema é instalado quando cobiçar o que outro faz passa a te paralisar. Aí, é preciso fazer uma autoanálise, olhar para si com atenção e até ouvir o que as pessoas próximas de você dizem do seu humor. Às vezes a gente não enxerga problema, mas amigos e familiares enxergam”.

“Se mergulho totalmente meu olhar no outro, fico extasiado e nada mais; se me torno apenas uma criatura infeliz que não está naquela praia linda e não sou capaz de agir e criar na minha própria vida, então tenho sinais de que posso estar sofrendo de FoMO”, completa.

“Quanto mais coloco o foco no outro, no que ele tem e eu não tenho, menos fico criativo em relação a minha vida. Fico impedido de criar qualquer coisa que seja boa pra mim. Ok, eu não estou em Fernando de Noronha, mas o que eu posso fazer, que está ao meu alcance, e que pode ser tão gostoso quanto estar naquele lugar?”, questiona Leda. “Precisamos nos concentrar em encontrar satisfação no que é nosso e no que construímos. O outro até pode ser inspiração, e isso é saudável, o que não pode é ser apenas alvo de cobiça que gera angústia.”

Viver não basta

Uma pesquisa da agência de marketing Tecmark conclui que o usuário médio verifica o celular aproximadamente 1.500 vezes por semana. Ou seja, uma pessoa costuma gastar 3 horas e 16 minutos por dia olhando para a tela de um smartphone. A grande preocupação dos pesquisadores nesse cenário é a de que as pessoas não estão de consciência presente em lugar nenhum mais. Logo, o mundo das idealizações ganha força em detrimento da vida offline.

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Imagem: Reprodução @gio_ewbank

O britânico Tom Chatfield, autor de “Como viver na era digital”, lançado pela editora Objetiva com o selo da The School of Life, bota luz no outro lado dessa história, em quem exibe com abundância a vida nas redes. “Tentar mostrar a melhor imagem de si mesmo é um pouco como se dedicar a um trabalho: você desenvolve habilidades, escolhe melhor as palavras e aparências que vai usar e obtém satisfação quando vê que seu produto teve sucesso”. O produto, no caso, é você mesmo. “Vender-se como um objeto é uma espécie de busca imperfeita pela audiência e pela validação do outro. Mas essa busca pode te levar para longe do que você é, e para longe da felicidade e das relações honestas”, diz.

“Hoje em dia, viver não basta, tenho que mostrar que vivo. Se eu tiver público, melhor ainda”, acrescenta Sylvia.

Aqui, vale ressaltar: a perfeição vendida online só se mantem online, por mais que seja em Fernando de Noronha. De perto, vida alguma é normal - quanto mais perfeita. "O medo de perder está em nós desde que o mundo é mundo. É importante que saibamos lidar com ele sem que nos machuquemos. Aí está o equilíbrio, em tempos de internet ou não", comenta Leda. 

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