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Mães e filhos

Por que o início da maternidade é uma fase tão solitária para as mulheres?

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Imagem: Getty Images

Helena Bertho

Do UOL

11/01/2018 04h00

Popular, cheia de amigos e com uma vida social intensa, Naara Lacerda, 22, viu tudo se transformar quando o primeiro filho nasceu. Além de se sentir criticada por ter engravidado jovem, ela diz ter sofrido com o afastamento dos amigos, sendo que alguns cortaram o contato completamente. "Já chorei por sentir que não tinha uma amiga para me ouvir", fala.

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A solidão que Naara sentiu após se tornar mãe não é um sentimento exclusivo dela, mas uma realidade da maternidade para muitas mulheres. Ao mesmo tempo em que a rotina muda por completo por causa do bebê, acontece um distanciamento com os amigos. Perguntas como "de quem é a culpa?" e "poderia ser diferente?" costumam rondar a cabeça das novas mães.

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A falta de tempo é real

"Assim que a gente tem filho, a relação com a criança é algo muito visceral. Você fica 24 horas por dia em função do bebê, não tem como", conta Cila Santos, 36, mãe de um menino de três, assumindo ter vivido uma fase de solidão intensa.

Para Cila, é difícil uma pessoa sem filhos entender a nova rotina. "Você se despersonaliza, sua individualidade vai embora, porque você vira um sistema de abastecimento de uma criança", diz ela.

Comparecer a eventos sociais, topar convites para jantar, bater um papo e até responder uma mensagem acabam se tornando atividades extras, para as quais é difícil achar tempo.

Amigos sentem que podem incomodar

Quando a mulher está tão ocupada e atarefada, para os amigos, muitas vezes, o afastamento parece ser uma opção mais empática. "Odeio incomodar. Digo que estou à disposição, já que sou a única sem filhos da turma, quando estiverem livres, é só me avisar. Não quero ser inconveniente", fala G.G., que prefere não ser identificada.

Para a psicóloga Pâmela Guimarães, os sentimentos são ambivalentes. "Essa mãe, ao mesmo tempo em que se sente só e gostaria de ter os amigos mais perto, não consegue dar conta deles. E eles percebendo isso, não querem incomodar."

Segundo a psicóloga, a falta de diálogo é algo que facilita interpretações equivocadas de ambos os lados. "Tem aquela coisa de pensar: 'vou atrapalhar' ou 'minha amiga tem problemas maiores do que meus causos de relacionamento'.  Mas, em vez de criar hipóteses, por que não perguntar?"

Pâmela sugere que os dois lados tenham atitudes abertas. Enquanto os amigos podem perguntar se a mãe quer ser procurada, conversar ou se precisa de ajuda, ela também pode deixar claro se deseja um tempo para se adaptar à nova rotina, se quer conversar ou não, se se sente só.

"Agora ela só fala de bebê"

É fato que a criança ocupa mesmo uma porção muito grande da vida da mulher e passa a ser seu assunto central. "Ela não quer só falar de bebê, cocô, leite, mas o mundo dela virou aquilo. Por outro lado, entendo a amiga que sente que está perdendo alguém. Ela se questiona: como entro em um universo que não é meu?", diz Cila.

Segundo a psicóloga Cristiane Mattos, a resposta é paciência e empatia dos dois lados para cultivar a amizade. "Se convivemos apenas com pessoas que estão vivendo o mesmo momento que o nosso, limitamos nossas trocas e aprendizados", afirma.

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Lado mais vulnerável

"Tenho algumas amigas que tiveram filhos, e fui me afastando delas aos poucos. O meu principal motivo é que os pais parecem achar que os filhos são prioridade para o mundo todo, não apenas para eles. Não sou mãe, por isso não quero cuidar do filho de ninguém", afirma Ana Paula Póvoa.

A opinião de Ana Paula não é algo isolado e dá até nome a um movimento, o "childfree" (livre de criança, em tradução livre do inglês). Para as psicólogas, por mais que pensar assim seja um direito, é também um sinal do individualismo da sociedade atual.

"Estamos em uma fase de pessoas extremamente individualistas, com dificuldade de enxergar o outro. As pessoas estão focadas no que querem. 'Quero minha amiga como ela sempre foi'. Elas não veem o que o outro passa", diz Pâmela Guimarães.

A psicóloga defende que as mães procurem entender que os amigos não compartilham as mesmas questões e preocupações que ela, mas que esses também compreendam que a maternidade é muito difícil e demanda compreensão e apoio de quem está ao redor..

Amizade é isso, quando considero minha amiga, percebo o que ela está passando e tenho tolerância e maturidade emocional o suficiente para entender isso. É um momento que consome essa mulher, é difícil para ela, e empatia é a chave.

"Ela me entendeu e incluiu meu filho na nossa amizade"

Quando Gael nasceu, há três anos, a empresária Mariana Gil, 35, precisou se afastar de tudo. "Não era mais a Mariana e, sim, a mãe do Gael. Pus minha vida de lado."

Para surpresa de Mariana, Mônica Barahona, sua maior amiga desde a infância, nunca se afastou. "Ela continuava mandando mensagens, mesmo quando eu não respondia."

É que Mônica sabia que o momento da amiga era diferente. "Ela se afastou, mas eu super entendo que a rotina muda e as prioridades também", conta ela.

Com o crescimento de Gael, Mariana passou a conseguir dedicar um pouco mais de tempo às amizades, mas nunca mais como era antes do filho.

Em vez de se afastar, Mônica deu um jeito de acompanhar a mudança e passou a incluir o menino na relação das duas. "Ela faz questão de manter o vínculo e ainda aumentou, incluindo o Gael. Isso fez com que nossa amizade até progredisse."

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