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Autor sofre para contar memórias de espírito: "Tentou derrubar minha vida"

João Luiz Vieira
José Usher Imagem: João Luiz Vieira

João Luiz Vieira

Colaboração para o UOL

28/12/2017 04h00

José Usher, 31 anos, passou por maus bocados para finalizar o livro "Memórias de um Kiumba" (Editora Madras). Sacerdote de Umbanda, dirigente do Colégio Espada Dourada, do Paraguai, há dez anos, Usher também é tradutor do curso de teologia criado por Rubens Saraceni, médium e escritor brasileiro (1951-2015) e, por conta do seu dom mediúnico, teve a difícil tarefa de lidar com um espírito negativado.

Teve pesadelos, precisou se afastar da família e passou meses sentindo cheiros estranhos enquanto recebia instruções de entidades para narrar a história que saiu em livro. O Exu Cobra Coral, amparador do escritor à esquerda, o avisou dessa "missão" e, depois de algumas tentativas de desistência, seguiu em frente.

Dvulgação
"Memórias de um Kiumba" (Editora Madras) Imagem: Dvulgação
No livro, descobre-se como funcionam alguns domínios e organizações nas trevas, de ponto de vista de quem nela vive, e por que esses serem praticam o mal. Autor do livro "Guardião das Sete Facas", Usher, master em Gestão Estratégia de Negócios, licenciado em Análises de Sistemas Informáticos, ou seja racional por formação, conversou com UOL.

UOL - O que é um Kiumba?

José Usher - Kiumba é uma consciência negativada e plenamente egoísta, que tem como finalidade apagar o equilíbrio e energia positiva de outra consciência.

UOL - Ele o usou para contar a história dele? Por qual motivo?

Usher - Segundo o Exu Cobra Coral, ele foi pego num trabalho de ilusão em que tentou derrubar a minha vida em vários sentidos. A condição dele para ser liberto ou transformado, portanto, era revelar tudo o que ele tinha aprendido na caminhada como espírito negativo.

UOL - O sr. psicografou o livro, certo? Havia um ritual, um horário, um dia da semana específico para a produção da obra? Precisou se isolar da sociedade?

Usher - Sim, tinha um horário que era pela noite: quando o Sol descia ou antes do amanhecer. Para baixar a frequência, e preparar o ambiente energeticamente falando, era necessário sons graves, assustadores, canções que tivessem a capacidade de baixar a minha frequência.

UOL - O sr. diz que um Exu, Cobra Coral, o informou que teria essa missão? Como isso se procedeu? Por quê?

Usher - Ele informou que um Kiumba revelaria ensinamentos com outra visão, com um olhar das trevas, mas antes era preciso fazer oferendas e mais firmezas para trazer o Kiumba em terra. O Kiumba sempre chegou com a presença do Exu Cobra Coral, que levava ele logo que acabava parte da narrativa.

UOL  - Há quem creia, erroneamente, que exu é uma entidade maligna. De onde vem isso e como reverter essa imagem?

Usher - Acho que a imagem negativada de Exu vem da explosão da mediunidade nos anos 1950 no Brasil, em que a chegada de muitos médiuns, tanto na Umbanda quanto no Candomblé, trouxeram não somente a incorporação, mas também o ego e a ignorância. Exu, então, foi mudando primeiramente dentro do terreiro ou ilê, e logo a sociedade que promovia uma perseguição às religiões de matrizes afro-brasileiras achou na imagem do Exu o excesso da libertinagem, a roupagem dele a partir daquela época. Aliás, muitos praticantes associaram Exu a uma imagem negativa para criar medo naquelas pessoas que tentavam fechar os terreiros. A reversão daquela imagem só pode acontecer com muito estudo, e com o poder da humildade, para se colocar na posição de aluno, e não só de mestre que acha que sabe sobre o mistério Exu. Para que isso mude mais ainda teremos que trabalhar muito, tanto nos “velhos alunos” como no novos que chegam dia a dia na Umbanda.

UOL - O sr. disse que sentiu cheiro de coisa podre e sensação de peso enquanto escrevia o livro. Poderia explicar melhor esse fenômeno?

Usher - Devido a frequência muito baixa do kiumba, a materialização dele durante a psicografia era quase presente, porque a minha pele cheirava diferente, a respiração mudava, e na medida que ele escrevia deixava palavras fortes contra mim e a minha família.

UOL - O sr. teve pesadelos, medo e/ou pensou em desistir?

Usher - Tive pesadelos, falta de ar e outras sensações. Sim, duvidei de continuar, mas o Exu insistiu da necessidade de trazer o livro na matéria.

UOL - Como sua família lidou com esse processo?

Usher - Ficava isolado deles, porque escrevia na madrugada ou bem tarde antes de dormir. Eu avisava a eles que não entrassem na habitação onde eu recebia a história. Sempre, logo de acabar com a recepção dos escritos, entrava na Tronqueira para me limpar com a ajuda do Exu Cobra Coral.

UOL - Como evitar que um kiumba aproxime-se de nós? Como perceber sua presença?

Usher - Kiumba só chega na vida de alguém se ele encontra a porta traseira aberta. Porta traseira é aquele desequilíbrio que nasce do desequilibrador, que é a própria pessoa. A chave deles para acessar na nossa consciência, e nos nossos sentimentos são os nossos defeitos emocionais e racionais.

UOL - Por que Kiumbas fazem o mal ao semelhante?

Usher - O Kiumba tem, na sua ilusória natureza, o ódio instalado como uma arte do prazer negativado, ou seja, ele encontra paz na dor alheia. Ele sente que não há semelhantes, só consciências que podem ser utilizadas para o benefício dele. É o egoísmo na máxima expressão.

UOL - O que pensam sobre trevas, luz, Lei Maior e Justiça Divina?

Usher - O Wither (murchar, em inglês aproximado), o Kiumba que me contou sua história, falava, por momentos, que a Lei Maior era como o próprio mau de Deus, só que com regras, e que a Justiça Divina era o mau executado. No final, aquilo que está errado ajuda ao ser errante a encontrar o conhecimento na dor. Então, quando ele falava da Justiça Divina colocava-a numa postura de limitador da liberdade. E como a bandeira dos Kumbas é a libertinagem, a justiça vinha contra a bandeira deles. Assim, o ódio pela luz era justificado.

UOL - Que lições o sr. tirou do que escreveu?

Usher - Que o poder de um Kiumba é muito grande, que ainda temos muito que aprender com eles, que as trevas realmente têm uma estrutura muito bem organizada, que muitas vezes o médium subestima as trevas falando que a casa que frequenta ou que a tronqueira dele “está bem”. Ele esquece de se olhar por dentro. Kiumba é como vírus no computador. Às vezes nem sabemos que está ali, que fica atuando no silêncio do dia a dia.

UOL - O mundo anda intolerante. De que maneira podemos nos proteger de tanto ódio?

Usher - Não falando do ódio alheio sem antes apagar o ódio ou sentimentos negativos paralelos a ele, que podem estar disfarçados de equilíbrio. A intolerância, a soberba, o orgulho desequilibrado, a ignorância, a arrogância, o rancor, os ciúmes incensários são alguns dos tantos defeitos que potenciam o ódio em outros níveis. O nosso preconceito pelo ódio alheio é a instalação do ódio em nós.

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