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Em busca de cura gay, ele ficou 8 anos casado com uma mulher até se assumir

Carine Wallauer/UOL
Freitas é evangélico, gay e precisou de 33 anos para se aceitar e parar de militar contra si mesmo e seus pares Imagem: Carine Wallauer/UOL

Amanda Serra

Do UOL, em São Paulo

22/12/2017 04h00

Em “O Outro do Lado Paraíso”, o psiquiatra e diretor de hospital Samuel (Eriberto Leão) é gay e não se assume por medo da opinião pública e do preconceito, porque teme ser renegado pela mãe. Na tentativa de encontrar a “cura", o personagem da novela das nove casou com a enfermeira Suzy (Ellen Rocche) e recorreu a remédios e truques místicos. Mas sem obter sucesso com o "tratamento" e infeliz com o casamento, ele mantém um caso, em segredo, com Cido (Rafael Zulu).

Assim como na novela, na vida real, o professor de enfermagem e supervisor de um grande hospital de São Paulo, Marivaldo Giorni Freitas, 41, passou 33 anos ‘dentro do armário’. Evangélico, ficou casado por oito anos com uma mulher e os filhos só não vieram por conta de problemas de saúde do casal e porque na época optaram por priorizar a profissão. Na infância, apanhou da mãe e dos irmãos por causa de seus trejeitos femininos, e, por mais de 10 anos, buscou na igreja Assembleia de Deus -- a mesma de Silas Malafaia e Marco Feliciano -- a cura divina para sua orientação sexual. 

Hoje, feliz e casado com um homem e líder da igreja evangélica pluralista, Comunidade Cidade de Refúgio, Freitas, como é conhecido, relata sua trajetória de aceitação, luta, depressão, amor, ativismo e fé. 

Divulgação/TV Globo
Samuel (Eriberto Leão) e Suzy (Ellen Rocche) em "O Outro Lado do Paraíso) Imagem: Divulgação/TV Globo
"Sempre reprimi meus sentimentos e desejos"

"Nasci no sul da Bahia, em Jussari, um local com 7 mil habitantes e com uma tradição familiar forte. A homoafetividade sempre foi vista com maus olhos lá e isso gerou um confronto dentro de mim logo cedo. No início, não sentia atração sexual por homens, mas não me aceitava, queria ter nascido mulher. Gostava de 'coisas de meninas', mas era proibido de brincar de bonecas. Na adolescência, passei a ser reprimido pelos meus sete irmãos porque minha voz era um pouco fina, tinha alguns trejeitos femininos. Levei duas surras da minha mãe por conta disso.

Ainda na adolescência, comecei a observar outros homossexuais da minha cidade, que eram bem afeminados, também havia alguns travestis. Eu não me via neles, então, me retrai ainda mais.

Aos 13 anos, comecei a frequentar a igreja evangélica Batista e passei a conviver ainda mais com o discurso de que a homossexualidade é um pecado. Comecei a buscar insistentemente a cura. Fazia jejum, orava, participava de campanhas realizadas na igreja, evitava dormir na casa dos meus colegas, não dividia o mesmo banheiro, mas nada resolvia. Comecei a namorar meninas, mas não tínhamos relações sexuais por causa da religião, o que deixava a situação mais tranquila para mim.

"Me casei aos 24 anos com uma mulher porque entendia que esse seria meu ato de fé"

Carine Wallauer/UOL
"A partir do momento que fazemos ressalvas para apresentar alguém, colocando a orientação sexual dela em primeiro plano, estamos sendo preconceituoso" Imagem: Carine Wallauer/UOL

Eu pensava: ao me casar serei curado. Afinal, fui ensinado que era pecado gostar de pessoas do mesmo sexo, que isso era 'coisa do demônio'. Mas a cura não veio.

Nunca tive dificuldade de manter relações sexuais com minha ex-mulher, mas vivia uma briga interna constante comigo. Embora conseguisse transar com ela, não conseguia fazer sexo mais de uma vez ao dia, por exemplo, não tinha tesão suficiente. Mas quando passei a me relacionar com homens, isso mudou.

Com seis meses de casamento, tive uma crise, chorava muito, levava uma vida dupla, mesmo não a traindo. E isso me angustiava. Ela me perguntava o que estava acontecendo, mas eu não conseguia falar. A única coisa que dizia era: ‘não pedi para nascer assim. Tenho um 'problema' desde a infância.’ Ela desconfiava, mas não falava nada. Daí em diante, fui suportando as crises sozinho. Com quatro anos de casado, fiquei mal outra vez, parei de comer, só chorava, não queria sair de casa. A opinião das pessoas pesava muito, além da visão que tinha da Bíblia naquela época.

Meu casamento sempre foi visto como exemplo. Sou a pessoa que todos procuram para pedir conselhos, meus pais me pedem minha opinião para cada passo que dão. Isso me fazia pensar: 'vou ser a decepção da minha família'.

"Pedi a separação logo após beijar um rapaz"

Passaram se mais quatro anos, fiquei amigo de um dos alunos onde dava aula e rolou o primeiro beijo. Meu mundo foi destruído. Gostei, mas não sabia como contar para a minha mulher. Não achava justo com ela e nem comigo. Pedi o divórcio. Não quis adiar mais o sofrimento. Era algo que aconteceria mais cedo ou mais tarde se continuássemos juntos. Independentemente da igreja, não trair fazia parte da minha índole, não podia continuar.

Um ano depois da separação, me assumi para minha família e para todos. Aos prantos, meus familiares, com exceção de uma irmã, falaram: 'sabíamos que você era diferente de nós. E nós te aceitamos como você é, você não deixou de ser nosso irmão.' Sobre a minha irmã que não aceita, nós conversamos, frequento a casa dela com meu marido, e ela mantém a postura dela. Não concorda, mas não me rejeita como irmão. Mas tenho uma tia que é homofóbica. 

"Não julguem e vocês não serão julgados”

Carine Wallauer/UOL
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Quando me divorciei deixei a Assembleia de Deus. As pessoas falavam: 'o Freitas deixou a esposa para ficar com homem'. Inventaram mentiras. Fiquei muito ferido e chateado. Foram 11 anos frequentando a mesma igreja, atuava em todos os departamentos. Saí da posição 'o filho que toda mãe quer' para no dia seguinte ser o amaldiçoado. Foi bem pesado.

Não conseguia enxergar Deus me condenando. Sempre pensava: 'existe uma saída, uma esperança. Deus não me fez para me lançar ao inferno'. Já não acreditava mais na cura

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"Deus sempre esteve presente na vida"

Três anos depois do divórcio, em 2011, vi que a pastora Lanna Holder, ex-missionária da Assembleia de Deus, estava abrindo uma igreja [Comunidade Cidade de Refúgio], fui para lá e me encontrei.

A partir daí, comecei a estudar avidamente a Bíblia, lia livros, artigos, procurava pessoas e entendi que o livro sagrado não condenava a homossexualidade, assim como nunca condenou os negros. Na verdade, a Bíblia condena a promiscuidade, que não é uma peculiaridade do homossexual. Passei a aceitar o amor de Deus por mim.

Me casei com meu namorado, aquele do primeiro beijo. Namoramos cinco anos, separamos, e nos reencontramos há quatro anos. Casamos no civil no último dia 10 de outubro, justamente na data em que o beijo completou nove anos. Em julho de 2018, vamos nos casar no religioso e minha mãe está participando dos preparativos. A família inteira está empolgada com a cerimônia. E isso é muito gostoso.

Carine Wallauer/UOL
"Minha igreja é pluralista, todos são bem-vindos. Não temos mensagens para gays, heterossexuais, mas um recado de amor para todos" Imagem: Carine Wallauer/UOL
 Foram 33 anos dentro do armário. Quando realmente consegui aceitar o que eu era, soube o que era liberdade e passei a viver isso. É muito bom você ser você. Descobri que o medo da minha mãe, por exemplo, era que eu me vestisse de mulher. Precisei explicar que não era trans. Ela baixou a guarda. Meu pai nunca tocou no assunto comigo, mas me trata bem, inclusive, quando o visito com meu marido.

Hoje, na igreja, trabalho para ajudar pessoas que estão passando pelo mesmo que passei. Gente que chega lá com a vida completamente destruída. Tento mostrar que a orientação sexual não define o caráter de ninguém. A maior mensagem da Bíblia é amor. Se eu não consigo amar o próximo, todo o resto que falo é mentira.

“Ela poderia ter sofrido menos se eu tivesse dito 'sou gay'"

Há cerca de dois anos liguei para minha ex e pedi perdão por ter me casado com ela. Falei que acreditava que seria curado, mas aprendi que não tem como lutar contra algo que não é doença. Expliquei que se tivesse o conhecimento que tenho hoje teria evitado o sofrimento que causei. Houve amor e houve dor durante a separação. Muitos a julgaram, com comentários machistas, dizendo que ela não foi capaz de 'segurar o casamento'. Hoje, nos damos bem. E o recado que fica é: vivam a vida de vocês sempre respeitando e amando o outro. Só com amor e respeito é possível driblar o preconceito."

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