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Reveja seus conceitos: jogo de tabuleiro não é coisa de criança ou nerd

Reprodução/ Facebook
Eventos têm sido feitos para mulheres que jogam board games ficarem mais confortáveis Imagem: Reprodução/ Facebook

Helena Bertho

do UOL

19/12/2017 04h00

Se ao ler "jogos de tabuleiro" você pensa em damas, xadrez, ou, quando muito, em War, pode rever seus conceitos. Com dezenas de títulos lançados todos anos, eles são cada vez mais modernos e populares, com direitos a bares descolados dedicados especialmente à jogatina. Não são coisa de criança, nem de nerds, muito menos, só de homens. Mas tem gente que discorda da última parte e as mulheres têm precisado lutar para exigir respeito e seu lugar na mesa. 

Entre assédio, interrupções, diminuição e objetificação, elas seguem jogando e se organizando em espaços femininos para poder jogar em paz e deixar claro: não estão ali só para acompanhar o namorado, nem precisam de ajuda para entender as regras.

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Nem sempre somos bem-vindas

Patrícia Nate, 28, é adepta dos jogos de tabuleiro há cerca de quatro anos. Atualmente, eles ditam a maior parte de sua vida social. Mas o começo, foi difícil. "Na mesa do jogo, a mulher é tratada como burra ou lerda. Então existe um preconceito entre os homens mais 'experientes', de não nos querer ali. Quando chegamos a um evento, somos enviadas para a mesa de iniciantes, porque eles acham que não somos capazes de jogar os games mais pesados", conta.

Por isso, quando ainda não era íntima do universo, tinha medo de ir aos encontros e ser rejeitada, ficar de lado. Com o tempo, fez contatos e amigos e se integrou no meio. Então, em 2017, decidiu criar um espaço para que outras garotas não passassem pelas mesmas dificuldades.

"É um evento todo organizado por mulheres, com convidadas, monitoria, explicação dos jogos. Nele, todas são recebidas e alocadas nas mesas, para que ninguém fique sobrando. A ideia era construir um ambiente em que as mulheres se sintam bem-vindas", explica ela sobre o Lady Lúdica.

O resultado deu certo: já foram sete edições e a média de participantes tem sido de 140 pessoas. Vale saber que nele homens podem ir, mas precisam se comportar. "Uma vez rolou um caso de assédio e nós expusemos o cara, para nunca mais acontecer", conta Patrícia.

Reprodução/ Facebook
Imagem: Reprodução/ Facebook
Evento sem homens e sem assédio

Board Games Girls é outro evento de jogos para mulheres, que começou como um grupo no Facebook para fugir do machismo que rolavam nos grupos maiores. Como na maioria das áreas, hoje em dia os jogadores usam muito a internet para trocar informações, conhecer outras pessoas e combinar partidas.

"Nesses grupos, o machismo é grande. Os caras começam a adicionar as mulheres loucamente, sem falar nada, sem nenhum motivo além de assediar", conta Priscila Terra, uma das organizadoras do Board Games Girls.

O grupo, que é um espaço de troca entre as mulheres, também acabou virando um evento, que já aconteceu 13 vezes, reunindo apenas mulheres. "Foi decidido no grupo que faríamos só mulheres, para que homens não roubassem o protagonismo e não rolasse nenhum tipo de assédio".

"Acham que a gente não entende"

Além do assédio, o que mais incomoda as jogadoras nos ambientes é a visão de que as mulheres são menores quando o assunto é jogo. Para a bancária Renata Gil, 36, isso se manifesta de duas formas principais: "Primeiro é a ideia que 'você só está aqui porque seu namorado está'. É padrão que digam isso. E também que mulher não gosta de jogo difícil, que envolva estratégia e planejamento".

Não só ela, mas todas as entrevistadas, contaram já ter ouvido que existem "jogos de menina", mais ligados a imaginação ou de menor dificuldade, enquanto aqueles que exigem mais estratégia ou alto nível de dificuldade, seriam os de homem.

"Quando você tenta explicar uma regra, ou mesmo jogar, os caras já acham que você não vai saber, interrompem para explicar. E muitas vezes acham que você não vai entender o que falam", conta Patrícia.

Mas, para Renata, isso tudo na verdade tem a ver com a educação desde a infância. "Nós somos condicionadas a entender que ciências exatas não são coisa de mulher. Mas, na realidade, somos tão capazes de jogar coisas mais 'exatas' quando qualquer cara", defende. O problema, começaria já quando se coloca meninas para brincar de casinha e boneca e meninos para jogar.

E isso vai para além das mesas de jogos. "Eu e meu marido temos uma coleção de boards. Nunca dizem que ele perde tempo com isso. Comigo, perguntam onde vai ficar o quarto do bebê", diz Renata.

Divulgação
Imagem: Divulgação
Por mais personagens mulheres

Assim como no universo dos quadrinhos, é comum que nos board games predominem as personagens masculinas e as femininas surjam apenas de maneira objetificada. "Mesmo quando traz uma mulher forte, o jogo traz com o peito maior, decotão", comenta a empresária Angélica Sposito, 29.

Ela é dona de uma editora de jogos no sul do Brasil e tem feito o que pode parar mudar o cenário. "Nós trouxemos para o Brasil um jogo chamado Spartacus que é sobre a era romana. Então criamos alguns extras, peças promocionais que não vêm no jogo principal, mas são vendidas á parte, com personagens femininas fortes, gladiadoras".

A novidade dividiu o público. Enquanto alguns jogadores adoraram as novas personagens, outros questionaram. "Algumas pessoas reclamaram que na época não existiam gladiadora. Nós sabemos que não existia, mas criamos elas com as características necessárias para lutar. Existe ainda um público que vê a mulher como personagem frágil".

 

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