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Vítimas de estupro contam como venceram o trauma e recuperaram o prazer

Getty Images
Imagem: Getty Images

Helena Bertho

do UOL

18/12/2017 04h00

As marcas deixadas por um estupro vão muito além das feridas físicas que ficam no corpo. A violência sexual deixa traumas que podem influenciar a vida da mulher em muitas esferas e uma das mais afetadas é a sexualidade.

"Isso impotencializa a pessoa, tira ela da condição de quem consente, de quem participa daquilo que está acontecendo com seu próprio corpo. E ele responde a isso. Pode ser se fechando para o contato ou até mesmo passar a buscar formas violentas de se relacionar", explica a terapeuta sexual, doutora pela Universidade de São Paulo, Margareth dos Reis.

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Dificuldade para sentir prazer, vaginismo (contração involuntária da vagina que dificulta a penetração) e até compulsão sexual podem ser algumas das consequências do abuso.

Mas isso não quer dizer que a sexualidade da mulher fica destruída para sempre. A recuperação é possível. Segundo a especialista, para essas mulheres, é necessário um "exercício de reaprendizado do contato".

"Foi no abuso que descobri a sexualidade"

Quando Ana*, 31, tinha por volta dos cinco anos de idade, um primo três anos mais velho começou a abusar dela. "Ele me agredia, me ameaçava para não contar para ninguém. E foi no meu abuso que eu descobri a sexualidade e o potencial sexual do meu corpo. Então eu fiquei com aquela dimensão muito negativa do sexo, do meu corpo como algo sujo", lembra ela.

A situação durou alguns anos, até que o primo parou. As marcas disso foram aparecer só anos depois, quando ela perdeu a virgindade aos 20. "A primeira vez, senti muita dor. A gente teve de tentar umas cinco vezes, depois de vários dias, antes de eu conseguir. E o que me ajudou muito foi que meu namorado foi muito paciente, nunca forçou a barra".

Era difícil no começo, doía, mas seu namorado não questionava e Ana acha que isso facilitou que seu bloqueio diminuísse. "Ele me ajudou a acreditar que sexo podia ser algo compartilhado, uma troca".

Mesmo quando a dor deixou de existir, o prazer demorou para aparecer. "Levei mais de um ano depois disso para sentir prazer. Primeiro, tinha só a sensação de controle, de poder dizer não, que foi essencial para que eu pudesse descobrir o prazer sexual".

Quando o abuso acontece na infância, como foi com ela, isso modifica profundamente a forma como a mulher enxerga o sexo. "Essa mulher pode se fechar completamente para o contato, imaginando que não vai ser respeitada. Ou como se qualquer aproximação abrisse esse arquivo dos sentimentos negativos que tomam conta da situação, mesmo que ela seja completamente diferente", explica Margareth dos Reis.

"Meu corpo se fechava para o sexo"

Às vezes, a mulher nem se lembra do abuso vivido, mas seu corpo responde a isso. Foi o que aconteceu com a Rita*, 30. Dos 22 aos 28 anos, ela sentia muita dor nas relações sexuais. "Eu sentia tesão, vontade e até prazer, mas bastava começar a penetração que doía, meus músculos travavam e o sexo parecia 'rasgar' a minha vagina", conta ela.

Depois de passar por diversos médicos e não encontrar uma razão física para a dor, ela decidiu começar terapia. Lá veio a surpresa: Rita entendeu que havia sido estuprada anos antes.

"A psicóloga me pediu para recontar toda minha vida sexual. Mas tinha uma fase da qual eu não tinha lembranças. Só lembrava de que tinha transado bêbada. Então começamos a focar nisso e eu fui percebendo que, ao menos duas vezes, eu cheguei a dizer não para homens quando estava alcoolizada, mas eles não respeitaram".

Mas entender isso não resolveu o problema. Ela ainda precisou de quase três anos de terapia, exercícios e muita paciência do namorado para voltar a ter uma vida sexual plena. "Depois de entender o que tinha acontecido, precisei entender que o sexo ocupava um papel de obrigação para mim e, por isso, meu corpo se fechava. Tive que reaprender o meu prazer, do que gosto e também a respeitar o meu tempo".

Margareth explica que o vaginismo, como Rita tem, pode sim ter origem no abuso, mas também ter outros motivos. "A mulher deve pesquisar o que o vaginismo está comunicando. Pode sim ser um trauma do passado, ou alguma violência física ou emocional", explica. O tratamento, além da terapia, pode passar por exercícios fisioterapêuticos e até o uso de próteses.

"Passei a ter um comportamento parecido com compulsão"

Assim como Rita, Erika Oliveira de Paula, 35, demorou algum tempo para entender que tinha sofrido abuso. O caso dela também foi um estupro quando estava alcoolizada, mas como reagiu foi diferente. "Isso não era uma questão para mim, aparentemente, porque estava no inconsciente. O que eu tive foi um processo de ter comportamento parecido com uma compulsão", conta ela.

Nada de dor ou medo dos homens, mas o contrário: ela começou a sair com vários homens, sem nunca passar do envolvimento casual, de forma mecânica e repetitiva.

Só com a terapia ela foi entender isso. "Aí eu trouxe isso para a consciência, entendi que me colocava nessa posição e ressignifiquei o que tinha acontecido comigo", conta ela.
Ela não só mudou sua relação com o sexo, como também ficou tão impactada por isso que decidiu estudar mais o que passou. Ela atuava como psicóloga em uma empresa e decidiu mudar de área. Foi estudar sexualidade e acabou se tornando terapeuta sexual, para ajudar outras mulheres.

"Eu busquei ajuda e entendi que é importante buscar ajuda após o estupro, para que a mulher possa se reapropriar da sua vida sexual. Mas é importante lembrar que cada uma tem seu tempo".

 

* Os nomes foram trocados para preservar as identidades das entrevistadas 

 

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