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O caso de Titi Gagliasso e Day McCarthy - e por que racismo não é doença

Reprodução/Instagram
Day McCarthy vive nos Estados Unidos Imagem: Reprodução/Instagram

Daniela Carasco

do UOL, em São Paulo

18/12/2017 04h00

Há quase um mês, o nome de Day McCarthy, 28, autointitulada socialite, ganhou o noticiário. Em um vídeo publicado em seu Instagram, ela ofende a menina Titi, de 4 anos, filha do casal de atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, com comentários e xingamentos racistas. O ator prestou queixa contra ela por injúria racial. Nesse domingo (17), uma nova etapa do caso veio à tona. Em entrevista ao jornalista Roberto Cabrini, no “Retrospectiva SBT 2017”, a moça, que diz viver nos EUA, se reconhece como racista, mas relaciona seu comportamento a uma espécie de doença mental.

“Sim, eu sei que estou errada! Sei que sou racista, mas é uma coisa que não posso controlar, não sei como não ser racista”, diz. E emenda ao ser questionada se pretende procurar ajuda psicológica: “Quero saber o que passa com a minha cabeça”. Nos programas de fofocas e nas redes sociais também não é raro se deparar com comentários que associam o racismo à doença.

Racismo não é um transtorno mental

Emiliano de Camargo David, psicólogo clínico, psicanalista e membro do Amma Psique e Negritude, diz não ter a capacidade de avaliar a condição específica de McCarhty, mas garante: “Racismo não é um transtorno mental”. Para ele, o racista não é alguém que está em sofrimento psíquico permanente, apesar de poder viver algum quadro de psicopatologia em algum momento da vida. “Essa associação tem a intenção de descriminalizar o ato. Além disso, ela é perigosa por estar carregada de um duplo preconceito: racial e com os ditos loucos. Isso corrobora a ideia de que o louco é perigoso e inconsequente.”

Lia Vainer Schucman, doutora em psicologia pela USP e autora do livro “Entre o Encardido, o Branco e o Braquíssimo”, emenda: “Estamos falando de um aspecto da nossa cultura”. Segundo definição do dicionário Michaelis, “racismo é uma teoria ou crença que estabelece uma hierarquia entre raças (etnias); doutrina que fundamenta o direito de uma raça, vista como pura e superior, de dominar outras; preconceito exagerado contra pessoas pertencentes a uma raça (etnia) diferente, geralmente considerada inferior”.

É crime!

No Brasil, ele pode ser punido de duas formas. O crime de racismo está previsto na Lei nº 7.716/1989 e implica em uma conduta discriminatória dirigida a determinado grupo ou coletividade. A pena, neste caso, pode variar de um a cinco anos de reclusão, além de um pagamento de multa.

Já o crime de injúria racial, aplicado a Day McCarthy, consiste em ofender a honra de alguém se valendo de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Ele está previsto no artigo 140, do Código Penal, e estabelece uma reclusão de um a três anos e multa. É inafiançável e imprescritível.

Na entrevista, ao ser perguntada por Cabrini se deve pagar pelo que fez, a socialite afirmou: “Se eu for condenada, sim”.

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Racismo provoca transtorno nas vítimas?

Do ponto de vista da vítima, Dr. Emiliano afirma que o preconceito racial não necessariamente gera transtorno mental. “Só que como toda violência, ele causa humilhação. E, sem dúvida, humilhações promovem sofrimento psíquico”, explica. “Considerando que manifestações racistas são cotidianas e que todos os negros já tenham vivido um ato como esse, mesmo que desconheça, se afirmássemos que essa experiência gera patologias psíquicas, estaríamos dizendo que todos os negros estão doentes e malucos.”

Racistas não são monstros

Ambos os especialistas são categóricos ao condenar qualquer associação entre racistas e monstros. “Isso desumaniza o autor do preconceito e acaba o protegendo”, diz o psicólogo. Lia acrescenta que é como tirar o preconceito de si. “Só que eu defendo a tese de que todo brasileiro se apropria da cultura racista”, afirma.

“O brasileiro tem preconceito de ter preconceito”

O mito de que vivemos em um país harmônico, segundo Lia, confirma a falsa ideia de que o racismo é pontual. “O brasileiro ainda é muito violento”, diz ela. Emiliano acrescenta: “Vivemos em uma nação estruturada em uma lógica racista.”

Ainda assim, nos comentários das redes e de portais de notícias é frequente a recusa em se afirmar como tal. Para justificar esse tipo de rejeição, ambos os especialistas usam a afirmação do sociólogo brasileiro Florestan Fernandes: “O brasileiro tem preconceito de ter preconceito”.

“Quando o racismo, algo tão evidente e escancarado, é cometido e reconhecido, ele implica e exige de quem o provoca um movimento de cidadania e reparação, uma autoanálise complicada. Por isso, há quem não o aceite e o veja como distante”, explica o psicólogo, que vê um avanço antirracista acontecer a passos pequenos, diante de tantos apontamentos e denúncias feitas pelo movimento negro e pela população negra nos últimos anos.

Para Lia, cabe a cada um, dentro da sua esfera social, lutar contra o preconceito racial. “Não é papel do branco se inserir no movimento negro, mas combater o racismo nas diversas instituições e grupos aos quais pertencem”, aconselha. “Alguém já pediu, por exemplo, que na escola do filho tivesse mais bonecas negras? Ainda que a maior parte dos alunos seja branca, o brinquedo servirá tanto para garantir representatividade, quanto para impedir que a maioria se sinta no centro do mundo. Sempre há algo que podemos fazer.”

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