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Regina Navarro Lins: muita gente ainda é obcecada por exclusividade no sexo

Andrea Le Leuxhe/Divulgação
Regina Navarro Lins, blogueira do UOL e psicanalista do "Amor & Sexo", lança "Novas Formas de Amar" Imagem: Andrea Le Leuxhe/Divulgação

Vladimir Maluf*

Do UOL, em São Paulo

04/11/2017 12h24

A psicanalista Regina Navarro Lins assina um dos blogs mais polêmicos e comentados do UOL. Em 2012, tomamos um café em uma livraria de São Paulo, quando ela aceitou a proposta de escrever em Estilo. E disse o porquê: “As pessoas sofrem muito, sem necessidade. Quero que as elas reflitam para parar de sofrer”.

Dois fatores são os principais causadores de frustrações dos casais, segundo ela: a idealização da pessoa amada e a desnecessária exclusividade sexual. Mas mexer com esses assuntos causa debates acalorados. Alguém sempre questiona a vida pessoal da Regina: “Você pratica o que prega?”. Ela não responde, mas explica, aqui, o motivo de evitar falar sobre questões íntimas --e conta um pouco sobre a relação com o marido.

Regina atende em seu consultório no Rio de Janeiro há 45 anos, ocupa a bancada do “Amor & Sexo”, com Fernanda Lima, na Globo, publicou 12 livros, viaja dando palestras, apresenta uma coluna no programa “Em Pauta”, da Globonews, e faz mais um monte de coisas. “Novas Formas de Amar” é o nome do livro que ela lança em São Paulo, na segunda-feira, dia 6 (mais informações abaixo). Leia a entrevista:

UOL: Como será o amor no futuro?
Regina: Em cada período da História, o amor se apresenta de uma forma. Acredito que, no futuro, poucos vão querer se fechar numa relação a dois, e mais gente vai optar por relações múltiplas, com vários parceiros ao mesmo tempo.

Veja também:

UOL: A maioria das pessoas considera a exclusividade no sexo fundamental?
Regina:
Sim. A maioria ainda é obcecada pela exigência de exclusividade. Mas penso que ninguém deveria ficar preocupado se o parceiro transa ou não com outra pessoa. O importante é se sentir amado e desejado, além da haver uma boa convivência, é claro. Não tenho dúvida de que as pessoas viveriam muito mais satisfeitas.

UOL: O livro fala de novas formas de amar. A velha forma de amar é errada?
Regina: O amor romântico só entrou no casamento a partir de 1940, incentivado pelos filmes de Hollywood. As características desse tipo de amor são bem claras: você idealiza a pessoa amada e projeta nela tudo o que gostaria que ela fosse. Não se relaciona com a pessoa real, mas com a inventada de acordo com as suas próprias necessidades. Por isso, esse tipo de amor não resiste à convivência diária da vida a dois.

UOL: Como esse desgaste acontece?
Regina:
Com a excessiva intimidade, fica impossível manter a idealização. Começa-se a enxergar o parceiro como ele é, com aspectos que desagradam. O desencanto é inevitável. Quando percebemos que o outro é um ser humano e não a personificação de nossas fantasias, nos ressentimos e, geralmente, o culpamos. O amor romântico propõe a fusão, os dois se transformarem num só. Entre suas expectativas, que não se cumprem, estão a de que o amado terá todas as suas necessidades atendidas pelo outro, que nada mais vai lhe faltar. E a mais mentirosa de todas: a crença de que quem ama não sente tesão por mais ninguém.

UOL: O Brasil e o mundo estão passando por uma fase de grandes manifestações conservadoras. O que isso significa, para você?
Regina: Sempre que há uma grande mudança na forma de pensar e viver, você observa comportamentos díspares: uma parcela da população se agarra aos modelos tradicionais, apesar da insatisfação que eles provocam, e muitos dão sinais de estarem se libertando desses modelos. É fundamental que todos reflitam sobre as crenças e valores aprendidos para conseguir se livrar do moralismo e dos preconceitos. Para isso é necessário coragem. Mas acredito que daqui a algumas décadas as pessoas vão viver melhor do que vivem hoje.

UOL: Que novas formas de amar estão surgindo?
Regina: O amor romântico está saindo de cena, levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Sem a crença de que é necessário encontrar alguém que lhe complete, surge a possibilidade de variadas opções amorosas. Cresce o número de homens e mulheres que vivem o poliamor, as relações livres, o amor a três... No livro, há vários depoimentos de pessoas que estão descobrindo novas formas de amar.

UOL: Nossa sociedade está preparada para isso?
Regina: Basta visitar as décadas de 1950 e 1960. Se alguém, naquela época, dissesse que um tempo depois seria natural as moças não se casarem virgens, seria taxado de louco. Diriam que a sociedade não estava preparada. 

UOL: Muitos consideram que a vida a dois já é complicada. Um relacionamento poliamoroso ou aberto não seria mais um complicador?
Regina:
Penso que pode ser bem menos complicado. A ideia de fusão entre os parceiros sobrecarrega cada um como depositários das projeções e exigências afetivas do outro. Isso sim é um complicador.

UOL: Há alguma grande novidade no sexo?
Regina: O sexo a três se torna cada vez mais comum. Mas, sem dúvida, a maior novidade me parece ser a massagem tântrica. Você paga a consulta e o profissional ou a profissional, que não se envolve fisicamente com você, coloca luvas e te faz ter vários orgasmos intensos consecutivos.

UOL: Na dedicatória do livro, você diz ter um amigo e amante com quem divide a vida há 17 anos, a que atribui a longevidade dessa relação?
Regina:
Eu e Flávio Braga estamos casados há 17 anos e nossa vida é muito boa. Ele é escritor também, e já escrevemos cinco livros juntos. Acredito que um casamento pode ser ótimo. Mas para isso é fundamental que haja respeito total ao outro, ao seu jeito de pensar e de ser e às suas escolhas; liberdade de ir e vir, ter amigos em separado e programas independentes. E, principalmente, não haver controle algum da vida do outro. Acho que conseguimos isso. Caso contrário, com o tempo, a nossa relação teria se tornado sufocante.

UOL: As pessoas têm muita curiosidade a respeito da sua vida pessoal. Por que você se recusa a falar dela nas entrevistas?
Regina:
 Eu acredito que o importante é discutir ideias. Penso que as escolas deveriam desenvolver essa capacidade nas crianças desde cedo. Ideias devem ser debatidas com ideias. O que se observa nas redes sociais é que quando alguém discorda de uma ideia, não tem capacidade de argumentar. O mais comum é partir para um ataque à vida pessoal do outro. Muitas vezes me agridem dizendo que sou mal amada, que nunca ninguém gostou de mim, e outros absurdos do gênero. Por isso não quero misturar ideias com vida pessoal. Isso poderia ser um incentivo a afastar as pessoas de uma argumentação inteligente.

Divulgação
Imagem: Divulgação

Serviço:

O quê:
Palestra e coquetel de lançamento de "Novas Formas de Amar" (editora Planeta, 272 páginas, R$ 44,90)

Quando: segunda-feira, 6 de novembro de 2017: 19h (palestra, com senhas distribuídas na livraria a partir das 18h) e 20h (coquetel e autógrafos)

Onde: Livraria Cultura do Conjunto Nacional -- Av. Paulista, 2073, Bela Vista, São Paulo. Tel.: (11) 3170-4033

* Com colaboração de Adriana Nogueira

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