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'Terminei o namoro porque ele tinha câncer. Foi um ato de amor-próprio'

Getty Images
Imagem: Getty Images

Helena Bertho

do UOL

29/09/2017 04h00

Depois de mais de 20 anos de casamento, em 2013 a aposentada Silvia*, 53, se divorciou e estava pronta para viver uma fase de autocuidado, de liberdade e de estar disponível para coisas novas. Rapidamente ela conheceu um novo amor e eles começaram a namorar. Mas com oito meses de relacionamento veio a bomba: ele tinha um tumor no cérebro.

"A gente se dava muito bem, tínhamos planos de morar juntos. Mas, com a doença, foi bem complicado. Num primeiro momento, segurei a bronca, dei apoio, fiz de tudo para ele se sentir bem. Cada vez a saúde dele exigia mais de mim, até que chegou um momento em que percebi que estava me doando como mãe e não mais como namorada, mulher. Eu estava me doando demais e precisava olhar para mim. Então dei um basta, terminei. Foi um ato de amor-próprio".

Só dá para cuidar do outro se você estiver bem

Sua decisão foi muito julgada. O namorado e a família condenaram a escolha de Silvia, mas ela não se arrepende. "Sei que tenho de fazer primeiro por mim e depois pelo outro. Estava esquecendo que aquela doença não era minha; estava virando codependente da doença dele".

Se num primeiro momento o que Silvia fez pode parecer chocante, a verdade é que atitudes como a dela não são raras e podem, sim, ser a melhor decisão a ser tomada. "A gente só vai conseguir cuidar do outro se a gente estiver bem. Muitas vezes é realmente necessário esse tipo de rompimento para cuidar de si", explica a psicóloga hospitalar Sabrina Gonzalez.

Segundo a especialista, muitas vezes quando uma pessoa assume o papel de cuidadora de um parente ou companheiro, ela acaba ficando doente emocionalmente também. "Existe uma reorganização da relação, os papéis mudam. Além disso, questões práticas, como trabalho e dinheiro, são envolvidas e há grande demanda emocional de quem está doente", explica.

Cada caso é um caso: tudo depende de como são as relações entre as pessoas, a situação em que vivem, a doença e muitos outros fatores. Por isso, a psicóloga considera impossível dizer que existe um comportamento certo ou errado, mas ressalta que é essencial que quem cuida do outro lembre sempre de cuidar de si.

Quem mais cuida são as mulheres

Outra coisa muito notada por Sabrina é que as mulheres normalmente são as que mais assumem a responsabilidade de cuidar de parentes doentes. "Temos de entender isso de um modo cultural. Atribuímos à mulher o papel de cuidado, como se fosse do feminino a atenção, a dedicação. Na verdade, qualquer pessoa pode ter esse papel".

Ana Paula Galvão, 42, gestora cultural, viveu isso na pele. No final de 2015 sua mãe teve um AVC  e perdeu os movimentos do corpo, ficando completamente consciente. Na hora, Ana Paula foi de São Paulo para sua cidade natal, no interior paulista, para cuidar dela e viu sua vida mudar por completo. "Parei meu trabalho, saí da minha casa, parei tudo", conta.

Mas o mais difícil foi a relação com os homens da família. "Somos três irmãos, eu e dois homens. Um deles simplesmente abandonou a responsabilidade dos cuidados da nossa mãe", lembra ela, que dividiu então com o outro irmão os momentos com a mãe.

"Perdi oito quilos, fiquei mentalmente confusa, exausta", mas foi com o toque dos amigos e da namorada que Ana Paula percebeu que precisava olhar para si e se cuidar. Alugou uma casa, para ter um espaço seu, e começou a fazer terapia. Agora está tentando reorganizar sua vida profissional, para poder pagar mais uma cuidadora para ajudar com sua mãe e aliviar um pouco.

E se a pessoa não aceita um cuidador de fora?

Ter ajuda de um enfermeiro ou cuidador é importante. Se a pessoa doente for aposentada, ela tem direito a um acréscimo de 25% na aposentadoria para contratar o profissional. Porém, muitas vezes o doente não aceita ajuda de desconhecidos. O namorado de Silvia era assim e isso foi um dos fatores que fizeram com que ela se sentisse sobrecarregada, já que ele era muito dependente no dia a dia.

Nesses casos, Sabrina Gonzalez orienta ter uma conversa sincera. "Forçar não é legal. Mas às vezes a pessoa está com medo, é preciso conversar bastante, explicar que está difícil e ir introduzindo a ideia da ajuda", explica.

 

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada. 

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