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Irene é uma psicopata, e pessoas como ela são mais comum do que você pensa

João Miguel Junior/Divulgação/TV Globo
Débora Falabella é Irene em "A Força do Querer" Imagem: João Miguel Junior/Divulgação/TV Globo

Daniela Carasco

do UOL

27/07/2017 04h00

A surra que Joyce (Maria Fernanda Cândido) e Ritinha (Isis Valverde) deram na Irene (Débora Falabella), em “A Força do Querer”, foi um dos assuntos mais debatidos da semana. “Esposa e amante saindo no tapa nas novelas, até quando?”, questionaram muitas mulheres nas redes. O motivo da confusão colocada por Glória Perez, na novela das 21h, se resumia à traição de Eugênio (Dan Stullbach), que, em meio a uma crise profissional, se encantou pela arquiteta, com quem passou a viver um caso extraconjugal.

Mas além da falta de sororidade (a aliança feminina), que ainda impera nos folhetins, uma outra questão merece atenção especial: “A história da Irene é, sem dúvida, um enredo clássico de um psicopata, com quem todo mundo está vulnerável a lidar alguma vez na vida”, alerta Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra e escritora.

A personagem de Débora, segundo a especialista, carrega os principais sinais de psicopatia --um tipo de personalidade, não de doença. “Ela não é aquela clássica vilã desequilibrada e estereotipada que enlouquece e mata por amor, é uma psicopata da vida real. Trata o outro, nesse caso o Eugênio, como um mero instrumento de conquista de status, poder e diversão. Tem perfil frio, maquiavélico, cerebral e calculista, 100% racional, sem qualquer sentimento de culpa ou arrependimento. E ainda usa sua beleza como arma de sedução.”

Eugênio é a presa fácil: alguém emocionalmente fragilizado, que acredita na bondade humana e é, por isso, manipulável. “Na cena pós-briga, quando ele a encontra, isso fica claro. Ele teve um instinto de uma pessoa boa, que tenta socorrer alguém em perigo”, analisa Ana Beatriz. “Esse bom sentimento é como um cheque em branco para um psicopata continuar agindo.”

Estevam Avellar/TV Globo
Eugênio e Irene, em "A Força do Querer" Imagem: Estevam Avellar/TV Globo
Psicopatas não chegam de mansinho. Eles aparecem de maneira avassaladora, em um momento oportuno. Assim que viu Eugênio inseguro para começar uma nova etapa da vida –trocar o cargo de diretor para atuar como advogado--, a arquiteta rapidamente notou um terreno fértil e começou a inventar histórias tocantes que o deixasse confortável para também desabafar. Assim, conquistou rapidamente o rapaz.

Fazer-se de vítima é padrão

Ardilosa, a vilã, quando em risco, se vale de uma fraqueza traiçoeira para virar o jogo ao seu favor. Já encenou, por exemplo, que estaria sendo sufocada dentro de casa para comover o amante e sua esposa. “Desde o início da novela ela se faz de vítima, um comportamento tipicamente psicopático”, explica a especialista.

“Ela sempre apresenta uma história de fragilidade. Em meio ao sentimento de pena do outro, encontra um grande espaço para penetrar e atuar. Ela, assim como todos, é perversa e goza do sofrimento alheio. É incapaz de amar e de sentir empatia. Não à toa, Irene adora ver Joyce sofrer.”

Esqueça o perfil sombrio e esquivo que muitas vezes está atrelado a esse tipo de personalidade. Isso não é comum a um psicopata, garante a especialista. Na lista de características, imperam a habilidade em ser sociável, simpatia e jeito extrovertido.

“Eles entram na vida da vítima como o melhor amigo de infância ou o grande amor da vida, de maneira intensa e impressionante. O que não faltam são afinidades milimetricamente orquestradas, que rapidamente encantam. E saiba: eles não são loucos, apenas isentos de emoção.” Para um psicopata afetivo, a conquista é apenas “um jogo de paciência”, como já admitiu Irene.

Eles caem na própria armadilha por excesso de vaidade

A autoestima de um psicopata é, de acordo com Ana Beatriz, altíssima, mas é aí que mora o risco de ser descoberto. “Eles têm uma forte tendência a se acharem mais inteligentes que qualquer um. Por isso, pensam que nada vai dar errado”, conta. “Sem o freio emocional que nos fazem parar diante de uma situação equivocada, mudam de cidade, aparência, identidade... Tudo para voltar a agir em um outro lugar. Apesar disso, eu diria que eles triunfam por muito tempo até serem pegos.”

Durante um papo com a amiga Mira (Maria Clara Spinelli), a arquiteta disse não sentir medo por se chamar Irene Steiner. “Soa bem diferente de Solange Lima”, completa revelando sua real identidade. É a ficção comprovando a realidade.

Da ficção para a realidade

Autora do livro “Mentes Perigosas” (ed. Globo Livros), que trata do assunto, Ana Beatriz revela que 4% da população mundial é composta por psicopatas – leves, moderados e graves. “E eu diria que menos de 1% deles são capazes de matar”, diz. “A questão é a indiferença com o outro. Não é para ter medo. Basta estar atento a quem chega na nossa vida de maneira extremamente sedutora e inesperada.”

O que assusta a especialista é notar que os valores psicopáticos estão na moda. “Não é à toa que, hoje, os vilões fazem mais sucesso que os mocinhos”, diz. “O psicopata é a face de uma sociedade que impõe cada vez mais o conceito de vencedor e perdedor, valorizando sempre o primeiro. Por isso, ter um personagem como esse em uma novela sendo tratado de maneira coerente carrega um componente educacional importante. É preciso destacar ainda que um psicopata não enlouquece e que psicopatia não tem cura. Espero que isso também seja mostrado.”

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