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Após turbante arrancado, ela questiona: “Só é racismo se chamam de macaca?”

Reprodução/Facebook
Dandara publicou uma foto mostrando como estava no dia do evento Imagem: Reprodução/Facebook

Vivian Ortiz e Denise de Almeida

Do UOL

26/04/2017 17h34

Após ter seu turbante arrancado por desconhecidos em uma festa de formatura no último sábado (22), a estudante Dandara Tonantzin Castro contou em entrevista ao UOL que teve dificuldade em relatar a queixa no 17º Batalhão da Polícia Militar de Uberlândia (MG). Segundo ela, os policiais não quiseram colocar no Boletim de Ocorrência que houve crime de racismo.

"Chegaram a me perguntar: ‘mas ele te falou alguma coisa para você achar que é racismo?’ Ué, só é racismo quando me chamam de macaca?", questiona Dandara.

A denúncia foi registrada, ao final, como "prática/induz/incita/preconceito de cor/diverso" no Boletim de Ocorrência, documento ao qual a reportagem teve acesso. "Também já denunciamos o caso na Ouvidoria Nacional de Igualdade Racial (Seppir) e ainda vamos acionar o Ministério Público Federal", explica a vítima.

Hugo Leonardo Marques de Jesus, delegado da Polícia Civil responsável pelo caso, informou nesta quarta-feira (26) ao UOL que aguarda um novo testemunho de Dandara. "Depois que ela der o depoimento, vamos ouvir as testemunhas e os supostos autores. Após todos esses procedimentos, vai para a Justiça e cabe ao Ministério Público oferecer a denúncia. Tem um prazo de 30 dias a partir da abertura do inquérito para finalizá-lo".

De acordo com Dandara, duas pessoas de fato a agrediram, entre um grupo de seis homens. No Boletim de Ocorrência, um dos agressores chegou a ser identificado pela vítima. "Meus amigos procuraram no Facebook e descobriram que o cara é irmão de um dos formandos", conta. O outro, ela explica, foi reconhecido por foto encaminhada pelo buffet Palácio de Cristal, local onde a festa foi realizada, mas ainda não teve o nome identificado.

A estudante contou que o dono do estabelecimento telefonou para ela e se colocou à disposição para ajudar no caso. "Ele tem as imagens de muita gente que estava na festa, mas o local em que a agressão aconteceu infelizmente não tem câmeras por ser uma área nova, recém-construída".

Em nota oficial divulgada pela imprensa, o buffet Palácio de Cristal afirma que "os seguranças (do local) agiram dentro dos limites legais e de acordo com seus treinamentos, sempre respeitando a todos os envolvidos, sem fazer distinção de qualquer natureza entre eles. A empresa reafirma que repudia veementemente todo e qualquer tipo de preconceito e/ou discriminação".

“Pensei que iria apanhar ali”

A estudante estava no evento para prestigiar a formatura de um amigo no curso de engenharia civil. Quando amanheceu, a festa, que começou no salão, continuou em uma área externa do buffet. Segundo Dandara, a proposta era que os convidados saíssem do baile e fossem para uma espécie de "feira de domingo", com direito a banca de pastel, cerveja e até trio elétrico.

"Por volta das 6h30, vi que o dono do trio elétrico era um conhecido meu. Ele me pediu que eu fizesse um vídeo mostrando o trabalho dele na festa", diz. Foi quando tudo aconteceu.

"Enquanto eu fazia essa filmagem, senti um puxão na minha cabeça. Quando olhei, logo falei: o que é isso? Me larga! E ele falou: você está parecendo uma gueixa!", conta. Dandara diz que saiu de perto e continuou gravando por cerca de um minuto, até entregar o celular de volta para o dono. Como acabou se perdendo dos amigos nessa hora, ela decidiu procurá-los pela festa e cruzou novamente com os agressores.

"Aí ele puxou mais forte, para arrancar mesmo, e comecei a gritar: não me toca, você não pode fazer isso, é o meu turbante", explica. Depois, segundo ela, esse mesmo rapaz fez um sinal para os amigos, que vieram e fizeram uma roda em volta.

"Fiquei com muito medo neste momento, a ponto de pensar que iria apanhar ali. Saí e, no que fui descer as escadas, o outro veio e puxou o meu turbante, jogando ele no chão. Comecei a debater com ele, que riu e debochou. Quando fui pegar meu turbante do chão, eles começaram a jogar cerveja em mim", conta.

Ela afirma que, no vídeo que gravava durante a primeira abordagem, é possível ouvir sua voz reclamando com o agressor. Dandara diz ainda que a câmera também capturou rapidamente o rosto de um deles, que debochava. "Eu só não divulguei ainda porque é uma prova. Pelo que fiquei sabendo, eles são de famílias ricas", explica.

O delegado responsável afirma que Dandara irá levar as imagens para a Polícia Civil investigar o caso. A equipe do 2º DP de Uberlândia também já falou com o proprietário do buffet. "Ele vai passar a relação de todos os profissionais que estavam trabalhando na festa e as imagens dos agressores", diz Hugo Leonardo.

Apoio e retaliação

Dandara explica que só optou tocar esse processo até o final pelo fato de muitas pessoas terem se solidarizado com a história e dado força a ela. "Também entendo que essa visibilidade do caso é importante para o processo de não naturalizar esse racismo do dia a dia, que muitas vezes machuca muito", diz.

No entanto, ela afirma ter se assustado com os vários comentários machistas, racistas e homofóbicos escritos nas reportagens sobre o caso, com frases do tipo "volta, chicote" e "'vou te colocar no tronco".

"Ao mesmo tempo, recebi muitos relatos de amor de pessoas que me procuraram para dizer que passaram por coisas semelhantes", conta a vítima. Fernanda Lima, Camila Pitanga, Leandra Leal, Letícia Sabatella e outras famosas usaram suas redes sociais para apoiar Dandara, postando #MexeuComUmaMexeuComTodas.

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