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Ataques machistas a Titi Müller "amolam faca" de quem mata, diz antropóloga

Getty Images
Imagem: Getty Images

Denise de Almeida

Do UOL

28/03/2017 17h12

Após se manifestar contra as letras machistas de um dos DJs no Lollapalooza, a apresentadora Titi Müller recebeu apoio de seguidores e até do canal Bis, do Grupo Globosat, em que trabalha, mas também surgiram muitas críticas à atitude -- e até internautas dizendo que ela deveria ser demitida. Por que o discurso contra o machismo incomoda tanta gente?

A matéria publicada pelo UOL sobre o episódio de Titi recebeu comentários como “Se acha que lavar louça te faz menos mulher, então nasça homem”, “Quem paga seu salário somos nós, e não estamos nem um pouco interessados em ouvir seus chiliques feministas” e “Que mulherzinha ridícula!”.

Para Ana Paula Passarelli, coordenadora do curso Gênero na Publicidade na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), mensagens machistas são tão comuns na música que muita gente nem percebe. "Quando alguém levanta a ponta do tapete e mostra que o machismo está sendo reproduzido, não só na música, mas em todo lugar, a primeira reação é sempre a negação, principalmente se você não tem conhecimento e repertório para entender aquilo", aponta.

Caroline Freitas, antropóloga e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, concorda que o problema começa quando a sociedade enxerga como natural frases que tratam a mulher como ser inferior. "Tem várias coisas nesse episódio que são bastante reveladoras. O ponto mais importante é o quanto certas coisas são naturalizadas. As pessoas acham que é assim que é". 

Reprodução/Canal Bis
Imagem: Reprodução/Canal Bis

A antropóloga ainda faz a relação entre as mensagens atacando a apresentadora e a violência sofrida pelas mulheres no Brasil, onde a cada sete minutos uma mulher denuncia um episódio de agressão, segundo dados da Central de Atendimento à Mulher (Disque 180), colhidos em 2015, e uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos, segundo estatística recolhida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 

"As pessoas não percebem que esse tipo de discurso 'amola a faca' dos caras que matam. E os discursos de ódio são o que ensejam os assassinatos, porque eles legitimam esse tipo de postura e de conduta”.

"Os dados da violência contra mulher são assustadores. Não tem como ignorar isso ou achar que é algo normal. Anormal é você olhar para esse monte de dados estatísticos, que são coletados pela Pnad, pelo IBGE, e achar que isso não tem consequência na vida concreta das pessoas”, ressalta Caroline.

“Muita gente confunde machismo e feminismo como opostos”

O desconhecimento do que é o feminismo também é apontado pela antropóloga como motivo para o discurso de Titi ter incomodado tanta gente nas redes sociais. "Muita gente confunde o machismo e feminismo como sendo opostos, como se o feminismo dissesse que as mulheres são melhores, que mulheres tenham que mandar nos homens. E não é isso! O feminismo prega que se respeite todo mundo, que todo mundo tenha seus direitos reconhecidos e assegurados, que ninguém seja tratado como inferior".

Por ser um meio de se atingir muitas pessoas, a televisão deve ser usada para discutir não só o machismo, mas também outras questões importantes, na opinião de Caroline. "Tem que falar também da violência contra as mulheres negras e contra as mulheres transexuais. E quando é uma pessoa que nem a Titi, ainda mais na televisão, isso tem um outro impacto. A fala de uma mulher que é conhecida, admirada, respeitada e ainda considerada bonita acaba tendo muito peso para a sociedade. Ela significa muitas coisas e pode fazer as pessoas pensarem".

Para Ana Paula Passarelli, quem já entendeu o que é machismo precisa desempenhar um papel educacional. "Tem que tentar ajudar a explicar para essas pessoas que o machismo é errado, que deveria ser de outra forma. Que deveríamos ao menos questionar esse modelo. E é isso que a Titi está fazendo. Deveríamos ter cada vez mais pessoas questionando todas as representações que temos em todo o âmbito do entretenimento".

Ana Paula ressalta que será um longo debate. "Vai vir comentário machista, de pessoas que acham que o que estamos questionando é 'mimimi'. Mas entra também no papel da gente, enquanto pessoas que querem que a mudança aconteça, não rebater isso apenas brigando. Não é porque alguém reproduz uma mensagem machista que você não pode ir lá e conversar, explicar como é e como deveria ser. Senão ficamos apensa em uma disputa de egos, e não de opiniões".

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