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Quando vira obsessão, amor é doença e precisa de tratamento

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Quando vira dependência, o sentimento amoroso pode atrapalhar a vida da pessoa Imagem: Getty Images

Yannik D´Elboux

Colaboração para o UOL

26/10/2015 07h15

A carioca Clara* (nome fictício), 63 anos, já ficou de madrugada em um estacionamento por horas para espionar o ex-parceiro, para ter a certeza de que ele não se encontraria com outra mulher. Se ele não atendia o telefone prontamente quando ela ligava, Clara sentia até dores no peito e entrava em desespero.

Durante quatro anos e meio de relacionamento, vivia em função de controlar os passos do parceiro e não suportava a ideia de ser rejeitada. “Não conseguia fazer mais nada”, fala Clara.

Esse estado exagerado da paixão funciona como uma obsessão ou dependência, em que a droga é o ser amado. Quando atinge esse ponto, o sentimento amoroso produz sofrimento e pode atrapalhar a vida, o trabalho e os relacionamentos de quem se envolve dessa maneira.

A paixão doentia foi chamada de limerência, em 1979, pela psicóloga norte-americana Dorothy Tennov. Segundo o pesquisador e professor de psicologia Albert Wakin, da Sacred Heart University, em Connecticut, nos Estados Unidos, que ampliou os estudos sobre o tema, esse estado se caracteriza por uma necessidade intensa de reciprocidade e pensamentos obsessivos. “A pessoa passa 95% do tempo pensando no outro, é mais forte que um vício”, explica.
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No Brasil, os especialistas que investigam esse assunto e tratam o problema usam o termo amor patológico em vez de limerência.

A psiquiatra Monica Zilberman, coordenadora do setor de amor patológico e ciúme excessivo do Pro-Amiti (Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso), do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), afirma que o medo intenso da perda do objeto amoroso é um dos principais sintomas.

Quem ama dessa forma tem dificuldade em suportar a distância física e emocional do parceiro e perde o controle dos próprios sentimentos. “A frase típica dessas pessoas é: não consigo viver sem ele, é como se fosse a minha droga”, diz a psiquiatra.

Amor e paixão

Durante a fase da paixão, que costuma durar de seis meses a dois anos, é normal experimentar estados cerebrais e emocionais alterados. Os apaixonados perdem a fome, o foco, a concentração e voltam toda sua atenção para o ser amado. Contudo, esse estado é passageiro e, segundo Monica Zilberman, o cérebro tende a se aquietar, passando para a fase seguinte, a do amor.

“No amor patológico, essa alteração não se atenua, o sentimento é como o do começo”, declara a psiquiatra.

Tanto nos Estados Unidos quanto no Pro-Amiti, que oferece atendimento gratuito, a terapia cognitivo comportamental é a mais utilizada no tratamento. Além disso, às vezes, são empregados medicamentos antidepressivos, estabilizadores de humor e estão sendo testadas medicações usadas em transtornos por uso de substâncias.

Mulheres que amam demais

A limerência ou o amor patológico afeta mulheres e homens. Entretanto, é mais comum que as mulheres falem sobre isso e procurem ajuda. Pessoas com baixa autoestima, ansiedade, instabilidade emocional e que tiveram problemas afetivos na infância estão mais sujeitas a desenvolver o quadro.

“Usamos a terapia e o trabalho em grupo para melhorar a autoestima e a confiança desses pacientes”, afirma a psicóloga Sany Nakane, que atende casos de amor patológico.

Segundo Sany, o tratamento terapêutico ajuda a desfazer crenças equivocadas. “Essas pessoas acreditam que precisam viver para o outro para receber afeto”, declara. A psicóloga diz que o tratamento costuma ser longo e as reincidências são bastante comuns.

Clara frequenta e trabalha no grupo de ajuda mútua Mada (Mulheres que Amam Demais Anônimas), no Rio de Janeiro, há 12 anos. Durante esse período, ela teve outro relacionamento problemático, porém agora está casada e mais confiante no seu autocontrole. “Se meu marido não atende o celular, consigo administrar isso, manter minha serenidade”, conta.

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