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Adolescente que não quer viajar com os pais: obrigar ou liberar?

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Mesmo que liberem o jovem da viagem, os pais devem manter contato intenso enquanto estiverem fora Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

25/01/2014 07h15

Chega um momento na vida de uma família em que os jovens não querem mais viajar com os pais. Os motivos vão desde a vontade de ficar com os amigos até o fato de não curtirem o roteiro escolhido. Alguns são mais flexíveis e, mesmo reclamando, topam fazer a vontade dos adultos. Outros, porém, batem o pé a ponto de transformar os preparativos para a viagem em discussões intermináveis.

Pais e mães se veem diante de um dilema: forçar o adolescente a passar dias a fio emburrado ao lado deles ou acatar o pedido do filho e partir sob a culpa de se achar liberal demais e com a cabeça cheia de preocupações.

Em primeiro lugar, é bom nunca esquecer que a adolescência é uma fase de rebeldia e oposição. O desejo de independência e as flutuações de humor tornam esse período um desafio e tanto, para os jovens e para os pais.

“A viagem de férias em família pode significar, para essa faixa etária, o controle dos adultos, já que são eles, os pais, que definem onde, quando e como acontecerá o passeio. É justamente um controle do qual o jovem, em nome de sua própria autonomia, quer se libertar”, afirma a psicóloga Elisa Villela, doutora em desenvolvimento humano pela USP (Universidade de São Paulo).

No entanto, o adolescente ainda depende dos pais, econômica e afetivamente, e por isso sentimentos contraditórios entram em jogo: querer e não querer estar com a família, desejar e ignorar seus cuidados. Na opinião do terapeuta familiar e de casal Marcelo Lábaki Agostinho, psicólogo responsável pelo Sefam (Serviço de Atendimento a Famílias e Casais) do IP (Instituto de Psicologia) da USP, essa é uma ótima oportunidade para os pais perceberem que o filho está crescendo e mostrando que quer maior autonomia.

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“O pedido do adolescente para não viajar com a família é uma forma de comunicar que ele está se diferenciando dos pais e ficando mais independente. Vale a pena aproveitar as circunstâncias para conversar sobre a autonomia que o adolescente quer ter e a que, de fato, tem”, declara Agostinho.

Diálogo

Antes de confrontar o filho “do contra”, os pais precisam investir no diálogo e tentar entender e considerar suas razões. Deve-se evitar cair em extremos, como não escutar o adolescente e impor sua participação na viagem ou, no caminho inverso, liberá-lo completamente no estilo “está bem, faça o que quiser”.

“Essa segunda posição não leva em conta a necessidade de cuidado do adolescente e pode colocá-lo em situação de risco ou de angústia”, fala a psicóloga Elisa Villela.

A decisão também tem a ver com os princípios e ideais da família. Portanto, de acordo com a terapeuta familiar e mestre em psicologia Edith Rubinstein, os pais devem ter firmeza ao justificar e argumentar a razão e a importância da viagem em família para que o adolescente possa entender os seus valores.

“É necessário mostrar que é o momento para ficar perto dos pais, irmãos ou outros parentes, pois é uma oportunidade única no ano, e que existirão outros períodos para aproveitar ao lado dos amigos”, afirma Edith. “Se a viagem foi planejada há muito tempo, e o adolescente sabia disso e concordava, e de uma hora para outra, decide não ir, os pais devem se impor e fazê-lo cumprir com o que havia sido combinado”, fala a neuropsicanalista Prisicila Gasparini Fernandes.

Autonomia e responsabilidade

Segundo a psicopedagoga Luciana Barros de Almeida, vice-presidente da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), para saber se um jovem tem maturidade suficiente para ficar sem a presença dos pais, ele deve, em primeiro lugar, ser capaz de cuidar de si mesmo quanto à higiene e à alimentação. “Depois, precisa ter espírito de coletividade para colaborar com a rotina do local onde ficará hospedado e ser capaz de acatar regras”, afirma.

De acordo com Edith Rubinstein, os pais percebem a maturidade nos filhos pela convivência. “No dia a dia, nas conversas, é possível perceber com quem se relacionam, como se comportam, se sabem seus limites e se têm autocontrole e senso de responsabilidade”, afirma.

É fundamental definir um lugar seguro onde o adolescente possa ficar na companhia de adultos que assumam o compromisso do cuidado nesse período de ausência. Pais e mães não devem abrir mão de estabelecer limites e condições para esse período, seja com avós, parentes ou amigos responsáveis.

A recomendação dos especialistas é nunca deixá-los sozinhos, mesmo na própria casa, porque isso esbarra, inclusive, em questões legais. O Código Penal brasileiro prevê o crime de abandono de incapaz, em que pode ser enquadrado o ato de deixar o filho menor de idade sem a supervisão de um adulto.

É importante informar e dar autoridade aos cuidadores temporários sobre regras em relação a horários, programas etc. Mesmo com os filhos nas mãos de pessoas de confiança, é importante que os pais se mantenham informados e em comunicação com o jovem via telefone ou virtualmente (Skype, Facebook, e-mail).

Muitos podem até reclamar desse controle à distância, mas, segundo a psicóloga Elisa Villela, a maioria sente alívio com a lembrança e a preocupação. “Porém é preciso não exagerar na quantidade de vezes dos contatos e ligações, pois, em excesso, perturbam e dão a sensação de falta de confiança”, diz Luciana.

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