Moda

"Desapego" virtual altera relação de consumidoras com a moda

João Vítor Lage/Divulgação
Fernanda (dir.) e Marcela Calazans, irmãs de Vitória (ES) e criadoras da plataforma de venda de roupas e acessórios de segunda mão "Ganhei do Ex" Imagem: João Vítor Lage/Divulgação

Adriana Terra

Do UOL, em São Paulo

12/08/2013 11h14

Evolução dos brechós, os sites de “desapego” de roupas e acessórios, cada vez mais comuns, vêm mudando a forma como algumas pessoas consomem moda. Por meio deles, há desde gente que diminuiu o volume de compras após livrar-se de excedentes no armário até aqueles que desapegam, mas não resistem a uma novidade, usando o site para fazer trocas: vendem uma peça já pensando naquela que irão comprar com o lucro obtido.

Há três anos comandando a plataforma de venda de roupas e acessórios semi-novos “Ganhei do Ex”, Marcela Calazans, 29, acredita que esse processo de vender o que não tem mais utilidade, de qualquer forma, ajuda a perceber o consumo e ter maior controle sobre ele. “Consumir é uma coisa complicada, mas acho que dessa maneira você consegue ter mais noção: ‘eu realmente preciso disso, não preciso, estou comprando demais, gastando muito’.”

No site de Marcela, como em outras plataformas do tipo, a pessoa interessada em vender se cadastra, envia dados e fotos da peça que, se aprovada, vai ao ar com o preço dado pelo usuário -- uma vantagem (para quem vende) em relação aos brechós, onde quem dá o preço costuma ser o dono do local. A divulgação da peça fica a cargo do site.

Por meio de depoimentos de usuárias, Marcela nota desde gente que passou a consumir menos diante do choque do armário lotado até quem enxerga o site como um lugar para dar saída a um consumo compulsivo. “Tem pessoas que escrevem para a gente falando: ‘depois que comecei a colocar os produtos para vender, eu percebi que compro demais, às vezes a mesma peça em cores diferentes. Vocês me ajudaram a perceber que não preciso disso, mas que eu também consigo dar vazão a todo esse meu consumo, eu coloco para vender e depois compro alguma coisa que estou precisando’”, conta ela, que administra o site ao lado das irmãs Fernanda, 27, e Roberta, 30.

  • Reprodução

    A loja online britânica Asos tem uma área destinadas ao comércio de peças semi-novas, usadas, vintage e de jovens marcas

A publicitária Joanna Moura, 29, autora do blog “Um Ano Sem Zara”, é adepta do desapego como forma de ter um guarda-roupas útil. “A cada seis meses eu faço uma limpa no armário. Nem é uma questão de dinheiro, mas de ter coisas que você use”, diz ela, que também é vendedora do site “Enjoei”, a mais popular plataforma desse setor.

Outra praticante do desapego virtual, a estudante de Nutrição e blogueira Nitielle Mendes, 19, conta que já vendeu um tênis novo para, na sequência, comprar outro que queria mais -- na “matemática do desapego”, acabou perdendo metade do valor, mas ficou apenas com o par que usaria. Para a estilista Juliana Lika Morishita, 31, usuária também do “Enjoei”, a desvalorização na negociação não é tão grande. Ela conta que já chegou a vender uma jaqueta que nunca havia usado pelo mesmo valor da compra.

Juliana acredita que a venda em sites de “desapego” a ajudou a consumir de forma mais consciente. “Percebi a quantidade de coisa parada que tinha no armário (nova ou semi-nova). Já vendi várias coisas, isso tudo me faz parar para pensar duas vezes antes de comprar algo”, diz a estilista.

Desapegos de gigantes

Na onda da valorização de peças semi-novas e usadas, grandes lojas também estão abrindo espaço para “desapegos”. A fast-fashion britânica Asos, por exemplo, tem em seu site uma área chamada Marketplace, na qual estão cadastradas desde lojinhas especializadas em garimpar peças e marcas pequenas até usuárias que vendem ali roupas e acessórios excedentes em seus armários.

Já a rede sueca H&M investiu recentemente na ideia de reciclar moda com uma campanha na qual o cliente ganha descontos em trocas de roupas usadas. As peças são vendidas para brechós ou recicladas, e o dinheiro ganho com isso, segundo a H&M, é destinado a projetos sociais e pesquisas na área de reciclagem. Há, no entanto, quem critique a campanha dizendo se tratar de puro marketing, já que, com os cupons de desconto, ela funcionaria como um estímulo ao consumo na franquia.

Para praticar o desapego vendendo peças ”encalhadas”:
www.desapego.com.br
www.enjoei.com.br
www.ganheidoex.com.br

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