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Asilo não é sinônimo de crueldade, mas idoso fica melhor em casa

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Para o idoso, é sempre melhor ficar com a família. Se for necessário colocá-lo em um asilo, a família deve visitá-lo maior frequência possível Imagem: Thinkstock

Giovanny Gerolla

Do UOL, em São Paulo

13/07/2013 07h12


É preconceito pensar que a vida do idoso no asilo será cruel. As ILPIs –sigla para Instituições de Longa Permanência de Idosos– são uma modalidade de serviço, assim como escolas, creches e hospitais e, de acordo com Ana Amélia Camarano, técnica de planejamento e pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), "há serviços bons e ruins". É preciso saber escolher.

Segundo a pesquisadora, "crueldade é envelhecer em um país que não tem oferta de leitos suficiente para todos os idosos que necessitam". O Brasil tem, hoje, pouco mais de 5.500 instituições, sendo apenas 238 delas públicas, e a maioria de origem filantrópica. 
 
Por outro lado, projeções do governo federal apontam para um crescimento do número de brasileiros idosos de 23 milhões para 35 milhões, nos próximos 15 anos. O número de leitos existentes, para acompanhar esse crescimento, terá, no mínimo, de dobrar.
 
Esses números refletem uma sociedade amparada pela evolução da medicina, que atua combatendo e prevenindo doenças ligadas ao envelhecimento e faz aumentar a expectativa de vida para até 100 anos nos países mais desenvolvidos. 
 
Ao mesmo tempo, famílias ficam cada vez menores; casais têm menos filhos e todos estão ativos no mercado de trabalho. Falta gente em casa com tempo para se dedicar aos velhinhos.
 
O geriatra Márcio Borges diz que, mesmo que alguém da família tenha tempo disponível, nem sempre vai ser possível deixar o idoso em casa: "Hoje, temos cerca de quatro milhões de pessoas na categoria de alta dependência do Brasil –vítimas de Alzheimer, acidentes cardiovasculares e derrames de consequências irreversíveis ou com problemas ortopédicos sérios e imobilidade".
 
 
A doença de Alzheimer, no entanto, é a grande vilã da terceira idade, porque exige cuidados em tempo integral. "Como é muito fácil chegar hoje à casa dos 80 anos, o número de idosos que sofrem desse mal aumenta muito. É sabido que 30% dos brasileiros nessa idade vão desenvolver a doença", calcula o geriatra.
 
Segundo Thiago Gomes da Trindade, médico vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, idosos sozinhos, sem parentes próximos, acabam institucionalizados quando perdem sua independência, por doença física ou mental.
 
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"Quando têm familiares presentes e boa saúde, participam da decisão; é preciso que parentes dialoguem entre si e dividam um plano de visitas ao asilo. Por outro lado, se houver condições de abrigar o idoso em casa, essa solução será a mais indicada", afirma o médico.
 
O tipo de relacionamento entre pais e filhos, e não só as condições financeiras da família, também pesa muito na escolha entre institucionalizar ou acolher.
 

Quanto custa?

 
Casas de repouso podem custar entre R$ 3 mil e R$ 8 mil por mês, de acordo com o nível do atendimento médico e psicológico, se o quarto é individual ou compartilhado ou se há necessidade de tratamento intensivo (UTI). Em outros casos, asilos mais caros oferecerão serviços de convivência e lazer.
 
Já quem deixa os idosos em casa vai gastar, só com cuidadores contratados para as 24 horas do dia, no mínimo R$ 3 mil, sem contar os custos trabalhistas, adicionais noturnos e outros benefícios, remédios e instalações residenciais específicas que o idoso venha a precisar (macas, respiradores, rampas de acessibilidade para cadeiras de roda). 

É a família quem deve ser a grande provedora de seus velhos, mas ela não pode falir. Subsidiariamente, a responsabilidade é do Estado (no Brasil, o Ministério Público), que fiscaliza instituições e cuida do idoso maltratado ou abandonado, inserindo-o no sistema institucional. 
 
 
Enquanto a população envelhece, a questão dos idosos se torna uma bomba relógio prestes a explodir, o que exige solução rápida. A grande preocupação é o que será de todos os jovens de hoje, quando se tornarem, todos ao mesmo tempo, os muitos velhos de amanhã.
 

Política de inclusão

 
A ideia de "asilo" surgiu no Brasil como lugar para onde se mandava doentes mentais que precisavam ser excluídos da convivência em comunidade. Acreditava-se, há décadas, que "loucos" e pessoas "diferentes" –entre elas os velhos– tinham de ser isoladas. 
 
"Nosso ‘mal-estar’, hoje, é que no mundo da produção e do consumismo não há espaço para o idoso", afirma Fernando Genaro Junior, doutor em psicologia clínica do envelhecimento pela USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A figura senil não simboliza mais a sabedoria, mas é associada à falta de celeridade e à doença, o que impossibilita ainda mais o convívio.
 
"Há, sim, políticas públicas, mas elas, muitas vezes, infantilizam o idoso, como se ele fosse uma criança velha, e isso também não melhora o quadro social", fala o professor. Por outro lado, a cultura que se propaga é a de negar o envelhecimento a qualquer custo. 
 
É por isso que especialistas acreditam que a quebra do tabu parte de dentro da própria família: na forma como o idoso é encarado e cuidado e na manutenção do diálogo com familiares. Sem violência (física, psicológica ou emocional) ele deve ser autorizado a expressar sua vontade de ir ou não para uma instituição, visitar o local, conhecer pessoas e preferir ficar em casa, se houver esta possibilidade.
 
 

Pesquisa de mercado

 
Quando não é possível acolher em casa, o jeito é fazer uma pesquisa dos serviços ofertados: "Deve ser um local de interlocução, comunitário, com cuidados técnicos especializados –cuidadores, enfermeiros, médicos, psicólogos, segurança–, na medida necessária a cada um", explica Fernando Genaro Junior.
  
Ao entrar em contato com uma casa de repouso, verifique a existência de um profissional da saúde que o convide para uma conversa. "Isso é um indício de que estão interessados em saber quais são as necessidades do idoso que será internado", diz o professor do Mackenzie. 
 
O entrevistador deve perguntar pelas expectativas e preocupações da família quanto à estadia e ficar curioso sobre as condições físicas e emocionais do candidato à vaga. Vale entrar em contato com famílias que já conhecem a instituição e com o próprio Ministério Público estadual, para checar se há denúncias, investigações em andamento ou processos judiciais contra a casa de repouso (por negligência ou violência contra o idoso).
 
A figura do acompanhante terapêutico tem se mostrado peça-chave: são psicólogos, assistentes sociais ou terapeutas ocupacionais, com treinamento técnico específico para acompanhar idosos ao longo do dia, auxiliando-o na recuperação de experiências sociais e cidadãs (como ir ao banco, pegar o metrô, ler o jornal, participar de atividades), além da autonomia funcional do próprio corpo.
 
"Este profissional é importante porque, mesmo em um asilo de primeira linha, com todos esses cuidados, há a tristeza da saída do ambiente familiar, da casa onde se viveu muitos anos; até mesmo a sensação de abandono, pela falta de uma opção mais próxima dos entes queridos e, somado a tudo isso, o embate com a chegada da morte". 
 
Para aliviar esta dor, o melhor remédio será a visita rotineira e fiscalizadora –com a máxima frequência possível– daqueles que são indispensáveis a um final de vida mais tranquilo e feliz.

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