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Política


Cem anos depois, sufragistas retomam ao Congresso dos Estados Unidos

Reuters
Donna Shalala e Anna Eshoo celebram o aniversário de 100 anos da emenda que deu direito a voto a mulheres nos EUA Imagem: Reuters

2019-06-04T09:34:14

04/06/2019 09h34

A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos abrigará uma exposição em homenagem ao "maior movimento reformista da história" do país, as sufragistas, um grupo de ativistas que há 100 anos mudou os rumos das eleições no país ao conseguir uma vitória que muitos achavam improvável: o direito da mulher ao voto.

"Esta exposição contará a evolução do maior movimento reformista da história dos Estados Unidos, com documentos e arquivos das mulheres que mudaram a nossa política há cem anos", declarou a bibliotecária do Congresso, Carla Hayden, na apresentação da mostra "Shall not be Denied", que abrirá as portas nesta terça-feira.

A data da inauguração e a localização escolhidas para esta exposição não são casuais, já que foi precisamente em 4 de junho de 1919 quando o Congresso dos EUA aprovou a emenda constitucional que reconhecia o voto da mulher, um texto que foi ratificado pelo presidente Woodrow Wilson em 18 de agosto de 1920.

"O direito ao voto dos cidadãos dos EUA não deverá ser negado e nem cerceado pelo Governo Federal ou estatal por causa do gênero", dizia a 19ª Emenda.

Uma conquista que, segundo a curadora da exposição, Janice Ruth, só foi possível graças ao sacrifício e à perseverança das sufragistas, que durante mais de 70 anos não retrocederam em seu empenho.

"Certamente, acredito que a maioria das pessoas não se dá conta de até que ponto estas mulheres estavam sob um ataque constante. Era duro ir a certas comunidades e abordar estes temas diante de audiências habitualmente hostis", explicou Ruth durante uma entrevista à Agência Efe.

A curadora elogiou o espírito e a inteligência de mulheres que "foram as primeiras pessoas a organizar piquetes diante da Casa Branca", uma situação que foi gravemente afetada pelo início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando estas ações começaram a ser vistas como "atos de traição".

"Eram muito inteligentes e, diante da entrada em vigor de leis de sedição durante a guerra, o que faziam era usar em seus cartazes frases sobre a democracia dos próprios discursos de Woodrow Wilson e ficar diante da Casa Branca para expôr a hipocrisia", apontou Ruth.

Estes métodos, no entanto, não evitaram que muitas acabassem detidas, acusadas de "entorpecer o trânsito", diante do qual exigiam ser julgados pela realidade de suas ações: o direito de reunião e à insurreição pública, ambos recolhidos na Constituição.

Muitas destas ativistas que tiveram que fazer frente a um dos momentos mais conturbados da luta pela igualdade de direitos e que mais tarde acabariam alcançando a vitória se inspiraram em outras feministas que as precederam, como Abigail Adams e Susan B. Anthony.

Casada com o segundo presidente dos EUA, John Adams (1797-1801), Abigail Adams aproveitou sua posição como primeira-dama do país para defender com afinco os direitos da mulher, como mostram as cartas que escreveu ao seu marido, uma das quais estará exposta na mostra.

Décadas depois, Susan B. Anthony foi além e exerceu seu direito ao voto durante o pleito de 1872, um ato que lhe rendeu uma detenção e uma condenação em um dos julgamentos mais midiáticos do momento. Anos mais tarde, Anthony acabaria esboçando o texto da 19ª emenda aprovada pelos legisladores.

Sem ela, é impensável que uma mulher sequer sonhasse em se transformar em legisladora, um sonho que Barbara Mikulski não só alcançou, mas desfrutou até se transformar na senadora mais longeva da história do país.

"O movimento das sufragistas é a história dos EUA, de sua força de vontade, de seu caráter e do constante esforço por engrandecer a democracia (...) Um movimento que abriu a democracia à outra metade da população", reconheceu Mikulski durante a apresentação da mostra.

Uma vitória indelével que, no entanto, não pôs fim a uma luta pela igualdade que dura até nossos dias, refletiu Ruth, em referência a um país que nos últimos anos viu como as mulheres tomavam as ruas e revolucionavam as redes sociais para, entre outras coisas, exigir respeito e defender o seu direito à decisão.

"Acredito que como mulheres somos um grupo diverso com interesses em assuntos diferentes, mas considero que independentemente das posturas de cada um, sempre podemos nos inspirar no que fizeram as sufragistas", avaliou Ruth.