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Direitos da mulher


Mulheres tentam manter ópera e balé vivos no Irã

A soprano iraniana Shahla Milani

Marina Villén

Da EFe, no Teerã

2019-04-05T09:03:52

05/04/2019 09h03

Apesar de só poderem atuar para plateias femininas e enfrentarem incontáveis restrições, um grupo de mulheres cantoras e bailarinas do Irã não se rende e permanece na luta para manter a arte da ópera viva na antiga Pérsia.

Desde a Revolução Islâmica, em 1979, mulheres são proibidas de cantar e dançar em público na frente de homens e uma série de códigos morais que representam flagrantes limitações à arte e às mulheres no país foram impostos.

Mesmo com as dificuldades, muitas artistas optaram, corajosamente, a continuar trabalhando e formando novas gerações na música clássica e no ballet, disciplinas vistas pela teocracia iraniana como uma influência ocidental, embora as obras sejam apenas de mulheres e para mulheres.

"Depois dessas mudanças sociais, o canto, sobretudo o clássico, foi desaparecendo, mas com o nosso esforço conseguimos recuperar a luz que estava se apagando", disse à Agência Efe a soprano iraniana Shahla Milani.

Professora na Escola de Música e na Universidade, ela decidiu formar um grupo de chamado "Avaz-e Mellal" (Canto das Nações), há 20 anos, quando as autoridades voltaram a permitir que mulheres se dedicassem à música.

"A nossa maior conquista foi familiarizar as pessoas com as palavras 'ópera' e 'ballet'. Nenhum dos nossos esforços nestes 20 anos foi em vão", ressaltou.

Embora reconheça que a decisão de ficar no Irã tenha implicado "sacrifícios" e que teria sido mais fácil trabalhar na Europa, como muitas colegas fizeram, ela sentia que tinha a responsabilidade de ensinar cantores iranianos e, ao mesmo tempo, "educar o público".

Há pouco mais de dois anos, Milani decidiu ir além. Com a coreógrafa Hayedeh Kishipour, que tem o seu próprio grupo de dança, montaram a opereta "Arshin Mal Alan", do compositor azerbaijano Uzeyir Hajibeyov.

No último dia 8 de Março, elas apresentaram a ópera francesa "Carmen", de Georges Bizet. A sala Vahdat, no coração da capital iraniana, lotou e várias iranianas puderam curtir a ópera, mas sem fazer fotos ou vídeos. Todas tiveram que deixar os celulares na entrada do teatro, já que, por terem a permissão de atuar somente na frente de mulheres, as artistas precisam tomar uma série de precauções.

Imagens delas cantando ou dançando não são permitidas, nem mesmo com o figurino próprio da apresentação. No folheto de divulgação, por exemplo, elas aparecem todas com véu, embora em cena possam ficar com cabelo e braços descobertos.

O figurino também é outra questão. As artistas precisam pagar as roupas do próprio bolso, já que a música feminina no Irã não tem patrocinadores. Segundo, Milani, isso é um grande obstáculo para a seleção das profissionais e na adaptação das cantoras.

"Temos muitas limitações, porque, como os homens não podem nos ver dançando, somos obrigadas a usar mulheres para os personagens masculinos e os movimentos e caracterizações são difíceis de ser representados por uma bailarina", explicou a também diretora de cena Hayedeh Kishipour.

A coreógrafa, que aos poucos começou a colocar o ballet nas suas apresentações de dança folclórica iraniana há 30 anos, para "camuflá-lo", lamentou também que não foi possível decorar melhor o cenário por conta da despesa que representaria.

Apesar de todo o esforço, elas só podem se apresentar em duas salas de Teerã e só têm direito à faixa das 14h, que é "o horário morto de uma sala".

"Temos sempre que arrumar tudo muito rapidamente, porque, como somos todas mulheres, não podemos encontrar com os homens, e também não temos direito de fazer divulgação", acrescentou a coreógrafa, que há alguns anos teve um trecho da ópera "Le nozze di Figaro", de Mozart, vetado porque as bailarinas faziam giros em cena.

Embora não cubram as despesas das obras, elas aguentam "todos esses problemas para manter viva esta cultura e por amor à profissão", segundo Kishipour.

E Milani reforçou. "Estas limitações alimentam a imaginação e, mesmo que o desânimo bata às vezes, sempre acabamos decidindo seguir em frente e trabalhando, já criando novos projetos", afirmou.