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Diversidade


Nova Miss Argélia é alvo de ofensas racistas após vencer concurso

Reprodução
Imagem: Reprodução

09/01/2019 11h58

A eleição da jovem negra Khadija Benhamou como Miss Argélia de 2019 gerou uma grande polêmica que evidenciou a força do racismo no país norte-africano.

Poucos minutos após a entrega da coroa, as redes sociais se encheram de insultos e memes que diziam que a vencedora é feia e a comparavam com Ronaldinho Gaúcho.

Grande parte dos comentários sobre o assunto eram racistas e, segundo os críticos, a nova miss não representava o ideal de beleza argelino, por ser do sul do país e ter a pele escura.

Impropérios e comentários racistas voltaram a circular pelas redes sociais após a entrevista que a jovem, de 26 anos, concedeu à rede de televisão local "El Djazayria One", patrocinadora do concurso.

"Falando sério, é uma miss ou não estou enxergando bem?", comentou um internauta no Facebook. "Tem cara de homem, não de mulher", disse outro, que também postou uma foto de Ronaldinho. Um terceiro pedia para que o jogador brasileiro tirasse "a maquiagem".

Em meio às críticas, que geraram um debate sobre o racismo da sociedade, soltaram a voz ativistas, intelectuais e artistas como Ali Dilem, o famoso cartunista do jornal "Liberté".

Com o título "Miss Argélia vítima de insultos racistas", o desenhista assinou na terça-feira uma charge na qual um idoso dizia à esposa: "Não se parece conosco". Ela respondia: "Tem razão, é muito mais bela", enquanto ambos observavam Hamou.

"É uma lição de solidariedade e respeito que o governo nem sequer tem se atrevido a fazer. O racismo está muito enraizado na sociedade argelina, sobretudo no que diz respeito à migração", argumentou um ativista argelino.

"Há episódios todos os dias, como o vídeo daquelas crianças migrantes pedintes perto de um ônibus que foram golpeadas por um homem entre as risadas dos que estavam ao redor. Aquilo foi divulgado pelas redes sociais, mas a maioria não é divulgada", acrescentou o ativista, que preferiu não ser identificado.

Organizações de defesa dos direitos humanos como Anistia Internacional e Human Rights Watch denunciam repetidamente o tratamento depreciativo que a Argélia dá aos subsaarianos, principalmente aos imigrantes irregulares.

Segundo dados oficiais do Ministério da Defesa, o regime argelino evitou 3.983 tentativas de migração clandestina e expulsou 6.834 imigrantes irregulares ao longo de 2018, muitos deles abandonados no deserto e quase sem mantimentos.

As ONGs aproveitaram a polêmica com Benhamou para voltarem a exigir que o governo argelino atue contra as campanhas racistas nas redes sociais e que mude alguns pontos das políticas para estrangeiros, como os que criminalizam a entrada, estadia e saída irregular do seu território.

"Para aqueles que me criticam, digo que (espero que) Deus os devolva ao caminho correto. Agradeço aos que me incentivaram. Fui escolhida pelo meu espírito encorajado e pela minha maneira de me comunicar, pela minha cultura e o meu bom comportamento com as minhas companheiras durante os 21 dias que passamos juntos", explicou a nova miss na entrevista.

Essas declarações não diminuíram as críticas na internet, onde ainda são maioria os comentários que consideram que uma mulher de pele negra de Adrar, região próxima à Mauritânia, não representa a beleza de um país diverso como a Argélia.