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Papo de vagina


Plantar a Lua: o polêmico ritual com sangue de menstruação

Arquivo Pessoal
Morena Cardoso: "Algumas mulheres, como eu, acreditam que seja um movimento de enfrentamento e luta" Imagem: Arquivo Pessoal

Renata Moura

Da BBC News Brasil em Londres

2019-06-26T12:53:24

26/06/2019 12h53

Ritual que evoca práticas ancestrais se amplifica com a ajuda das redes sociais e, segundo seguidoras, tem ajudado a confirmar o tamanho do tabu que ainda existe na sociedade.

Todos os meses, desde dezembro de 2018, os mais de 25 mil seguidores de Laura Mocellin Teixeira podem acompanhar, no Instagram, o que ela chama de "conexão".

No apartamento onde vive, em São Paulo, a médica gaúcha de 27 anos pega o sangue da menstruação, passa parte do líquido no rosto e rega as plantas com o restante, diluído em água.

O ritual - que transforma em fotos, stories e textos explicativos - é parte de um movimento que cresce no Brasil e se espalha nas redes sociais com o nome de "Plantar a Lua".

O movimento se inspira em "tradições ancestrais" em que o sangue menstrual é celebrado e visto como símbolo de fertilidade.

O ato também é apresentado como forma de combate a preconceitos.

"Nojo"

"Eu acho que aqui no Brasil a maior forma de preconceito é o nojo (do sangue) por parte da sociedade e na vergonha ou desconforto que as mulheres ainda sentem ao estarem menstruadas ou ao mostrarem seu sangue menstrual", observa Laura.

A empresária Ana Oliveira, de 28 anos, diz que tal preconceito fica evidente no nojo que alguns homens expressam pelas parceiras menstruadas, no sexo, mas também "na falta de compreensão no mercado de trabalho sobre a cólica; em brincadeiras de mau gosto de homens e mulheres com o tema ou na forma como a Tensão Pré-Menstrual (TPM) chega a ser tratada, como se a mulher estivesse 'louca' nesse período".

"Eu e muitas mulheres já vivemos essas experiências e o que o movimento faz é tentar mostrar como menstruar é algo biológico. É um processo pelo qual o corpo passa mensalmente que não é sujo e que devemos tratar com mais leveza", diz Ana.

Ela planta a lua desde agosto de 2018.

Plantar a Lua

Discussões sobre menstruação e Plantar a Lua se espalham em posts, comentários e hashtags no Brasil, com traços de movimentos feministas que emergiram no passado e até da arte.

Estudos antropológicos mostram que o sangue menstrual é visto como sujo, impuro e até "perigoso" na história de diversas sociedades.

Também existem, no entanto, registros de culto a esse período.

"Diversas tradições ancestrais narram ritos e mencionam a importância da menstruação", diz a terapeuta corporal e escritora Morena Cardoso, que pesquisa o tema. Ela testemunhou rituais e compartilha o que aprendeu com 32 mil seguidores no Facebook e 68 mil no Instagram - onde aparece com sangue no rosto.

Aos 34 anos, ela é fundadora do projeto "de empoderamento feminino" DanzaMedicina e criadora do Dia Mundial do Plante Sua Lua, que em 2018 reuniu cerca de 2 mil participantes e em 2019 terá nova edição em 4 de agosto.

O objetivo, diz, é "fomentar a ideia de que o sangue menstrual, assim como o ser mulher, não deve ser motivo de vergonha, nojo ou insatisfação, mas sim de orgulho, poder e magia!". As participantes do evento plantam a lua juntas, em espaços públicos.

Como exemplos de tradições incorporadas ao movimento Morena cita práticas identificadas entre indígenas da América do Norte e em países como México e Peru.

Segundo essas tradições, diz ela, o sangue menstrual era depositado na terra para torná-la mais fértil, era celebrado como período de confraternização e trabalho espiritual das mulheres, ou ainda em ritos de passagem de meninas na primeira menstruação - "com uma simbologia sobre a honra de se tornar mulher".

No Chile e no Brasil, essas tradições também são difundidas atualmente a partir de estudos da Ginecologia Natural, que defende o autoconhecimento e tratamentos alternativos para a mulher.

As adeptas têm encontrado diferentes formas de fazer o ritual - nem todas, por exemplo, passam o sangue no corpo.

Elas chamam menstruação de "lua" por ser um processo com fases e ciclos e enxergam nele diferentes significados.

Alvoroço

Arquivo Pessoal
Para Laura Mocellin Teixeira passar o próprio sangue na pele simboliza "o resgate do feminino" Imagem: Arquivo Pessoal
No caso de Laura, o sangue que usa é retirado do "copinho" coletor menstrual, uma alternativa que escolheu a absorventes descartáveis.

Ao jogar o fluido nas plantas, ela repete 'sinto muito, me perdoe, te amo, sou grata' - um momento que define como de conexão com o próprio corpo e com a natureza. "Eu mentalizo que as plantas vão crescer lindas, e recebendo muitos nutrientes".

Já quando usa o sangue em si, ela apenas fecha os olhos, agradece e diz sentir a energia.

A gaúcha explica que, para ela, o fluido na pele simboliza "o resgate do feminino".

É assim que aparece na página do Instagram que mantém. E foi assim que, no início de junho, um post seu no Twitter provocou "um alvoroço".

Era uma selfie, com o rosto e parte do colo cobertos de menstruação.

"Como tinha 300 seguidores, esperava que fosse mais um post comum e apenas que pudesse ajudar alguma mulher que já estivesse interessada no assunto e que quisesse desconstruí-lo dentro de si".

Quatro dias depois, entretanto, recebeu o print de um perfil "de memes" do Instagram com sua foto e a pergunta: "quanto tempo falta para essa galera começar a passar merda na cara?".

O apresentador e comediante Danilo Gentili, com mais de 17 milhões de seguidores no Twitter, também compartilhou a imagem e afirmou: "Sangue menstrual é normal (...) o anormal é passar ele na cara".

A maioria dos 2,3 mil comentários no post do apresentador e outros mais enviados diretamente à Laura concordavam com a visão de Gentili. Outros, falavam em nojo; diziam que ela deveria "procurar um psiquiatra" ou simplesmente a xingavam e ofendiam.

Poucos defenderam a gaúcha dizendo que ela tem direito de fazer o que bem entende com seu corpo. Poucos também acharam que a foto é uma maneira de "causar reflexão".

"As pessoas pensam que o que não é comum para elas é aberração, não têm conhecimento da fisiologia do corpo e pensam que podem usar palavras de ódio para ferir qualquer um atrás da tela do celular", disse ela à BBC News Brasil.

"Esse é um fluido do meu corpo e eu decido o que é anormal ou não já que não estou interferindo diretamente na vida de ninguém", acrescenta. "Anormal deveria ser difamar pessoas, propagar energias negativas e ódio".

A BBC News Brasil tentou entrevistar Danilo Gentili, mas ele não respondeu ao contato.

Laura diz que o episódio "só comprova o tabu que ainda existe em torno da menstruação".

Tabus

Tabu é definido no dicionário como algo "proibido por crença supersticiosa, censurado por crença ou pudor ou, por exemplo, de caráter sagrado".

Um estudo global com 1,5 mil entrevistadas de 14 a 24 anos - 300 delas do Brasil e as demais da Índia, África do Sul, Filipinas e Argentina - mostra um retrato disso no caso da menstruação: "preocupação na hora de descartar o absorvente usado no lixo, porque outras pessoas podem ver; medo de levantar da cadeira durante a aula; o absorvente escondido a caminho do banheiro e pedir um absorvente emprestado como se fosse um segredo".

Tais preocupações foram manifestadas pela maioria das entrevistadas brasileiras, em nível maior que nos outros países.

Os dados foram levantados pela linha de produtos femininos Sempre Livre, da marca Johnson & Johnson, em parceria com a KYRA Pesquisa & Consultoria. Eles foram colhidos em março de 2018 e lançados, segundo a empresa, "para reforçar seu novo posicionamento baseado em um diálogo que reforça a naturalidade deste assunto".

O documentário Absorvendo o Tabu, que ganhou o Oscar em 2019, ressalta que o estigma da menstruação persiste, usando uma região da Índia como exemplo.

O filme mostra a visão de uma mulher sobre a menstruação como sendo algo impuro do qual o corpo se livra: "o sangue impuro que sai". Um homem define o sangramento como um tipo de doença feminina e mulheres menstruadas são proibidas de entrar no templo para rezar por serem vistas como sujas.

Nesse contexto e com difícil acesso a absorventes, elas têm vergonha de falar a respeito e uma admite que até largou a escola.

Brasil

Nas sociedades ocidentais, como é o caso da brasileira, a "visão eminentemente negativa" sobre menstruação também existe, segundo a antropóloga e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Daniela Tonelli Manica, que estuda o tema há 20 anos.

"Existe a visão da menstruação como sangria inútil e também da alocação dela na mesma categoria de excrementos como fezes e urina - como algo com que você tem que lidar no banheiro, algo que tem de estar absolutamente fora de vista", diz.

Movimentos feministas do final dos anos 60 são apontados como cruciais para lançar luz sobre a questão.

É nesse período que a menstruação começa a aparecer em espaços públicos "de forma mais incisiva e com um efeito político importante", diz a antropóloga, citando grupos de mulheres que se juntavam já nessa época para fazer o que ganha força agora online: falar sobre os próprios corpos e questões como gravidez e menstruação, "em espaços de mais autonomia, fora de consultórios".

As novas manifestações, segundo ela, amplificam esses debates com as redes sociais e tentam resgatar "a especificidade, a importância da experiência de menstruar e do quanto ela é forte para as mulheres".

"Essa ressignificação da menstruação e a evocação que muitos grupos contemporâneos fazem em relação a essa memória ancestral falam de um efeito de silenciamento somático que a biomedicina e o capitalismo produziram nas mulheres, como se esse aspecto do corpo (o sangue) não pudesse aparecer porque (por exemplo) a trabalhadora precisa ir cumprir as suas 8 horas de trabalho".

No artigo (In)visible blood: menstrual performances and body art (Sangue invisível: performances menstruais e arte corporal) - que publicou em 2016 com Clarice Rios, do Instituto de Medicina Social da UERJ - a professora lista exemplos de artistas que usam "o potencial simbólico do sangue menstrual" como elemento central e "expressão estético-política" - incentivando debates sobre saúde, causas ambientais, sexualidade e relações de gênero.

A menstruação aparece nessas performances em pinturas, nos corpos das artistas e, por exemplo, como o 'batom' de 12 mulheres retratadas numa exposição fotográfica.

O movimento, segundo as pesquisadoras, tem como uma das causas e efeitos a preocupação de tornar a experiência da menstruação mais positiva, assim como o sangue mais visível.

"Em um pé de manjericão"

Foi na internet que a relações públicas pernambucana Renata Assis Ribeiro, de 43 anos, entrou no debate sobre o assunto e viu espaço para dizer: "Eu planto minha lua num vaso com manjericão".

Ela colhe o sangue debaixo do chuveiro e, com o fluido dissolvido em água, vai até a varanda e rega em especial essa planta.

A menstruação é vista por ela como algo sagrado, e oferecê-la à natureza como ritual de gratidão. "O ritual me abriu os horizontes para enxergar a terra como um útero gigante, que germina assim como nosso ventre. E eu achei justo e perfeito devolver a ela o que nos oferece".

Trinta anos antes, quando menstruou pela primeira vez, ela acharia a cena "estranha". É que ouviu na época "agora você virou mocinha, vai sangrar todos os meses e ninguém precisa saber".

Os períodos que chegariam foram encarados então como "uma parte chata de todos os meses".

"Até inveja dos homens, por não passarem por isso", ela sentia.

"Agora, com outra consciência, sinto esse período de forma diferente", diz.

Tal mudança de pensamento a levou a apresentar o ritual à filha, mas deixar por conta dela decidir se vai querer aderir ou não.

Fertilizante?

E regar as plantas com sangue, que diferença faz?

No caso de Renata, a explicação é dada com um pé de hortelã.

"Eu não planto a lua nele e o bichinho é tão jururu", brinca, para dizer que é "desnutrido". Segundo ela e outras mulheres, o sangue deixa as plantas "mais viçosas" e crescendo mais rápido.

A doutora em ciências e professora de agroecologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Anelise Dias, não é adepta da prática e desconhece estudos sobre o uso do sangue menstrual como fertilizante.

Mas, considerando as propriedades do líquido, confirma que ele "funciona por conter nitrogênio, fósforo e potássio", nutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas.

"Mas esse ritual é mais simbólico do que necessariamente de fertilização", pondera a professora, acrescentando que para a agricultura propriamente dita outras fontes de adubação orgânica "são mais interessantes, disponibilizadas em maior quantidade e respondem às necessidades de fertilização das culturas".

"Entendimento"

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O movimento de dar visibilidade ao sangue cresce nas redes sociais, mas também movimenta espaços públicos no Brasil: no Dia Mundial "Plante a Sua Lua", várias mulheres levaram sangue para "plantar", no ano passado, em uma praça de Belo Horizonte Imagem: Arquivo Pessoal
A empresária Ana Oliveira já fez o ritual em árvores de Belo Horizonte (MG), onde vive, em jardins de flores da mãe e da avó, e também em uma cachoeira e no mar, fora do Brasil.

Ela transfere o sangue do coletor menstrual para um potinho de vidro e guarda.

Normalmente na lua nova, que interpreta como tempo de recomeço, de um novo ciclo, o leva para "plantar.

Nesses momentos, diz que só respira fundo, agradece pelo último ciclo, e joga o fluido.

"Fazer esse ritual é um entendimento de que o meu sangue não é lixo, não é descartável, e de que tem um porque por trás dele", diz.

Morena Cardoso, que menstruou pela primeira vez aos 13 anos e descreve a experiência como "perturbadora" na época, diz que quando ouviu sobre Plantar a Lua chegou a sentir "repulsa".

O ponto de virada, afirma, foi quando começou a usar coletores e absorventes ecológicos e pôde criar uma relação mais próxima com o sangue. "Me percebi mais saudável, mais íntegra em mim mesma, em apropriação do meu corpo, saúde e sexualidade".

Natural?

Morena apresenta o movimento como forma de combate à "normatização, invisibilização e controle do corpo e da natureza feminina". E defende que o tema seja tratado com mais naturalidade.

A doutora em antropologia social Cecilia Sardenberg, professora titular do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, também.

"Embora traga a questão da menstruação como algo 'natural', nossa sociedade não trata a menstruação de forma natural", diz.

A antropóloga tem 71 anos e há mais de 20 pesquisa o tema. "Quando era jovem e começou a menstruar, pouquíssimo se falava abertamente sobre o assunto".

Agora, diz que o movimento de "não ter vergonha de menstruar" é "muito importante" para ajudar a acabar com o estigma.

No artigo De sangrias, tabus e poderes, que escreveu 25 anos atrás - ou seja, quando as redes sociais nem de longe existiam - ela dizia que a menstruação estava deixando de ser assunto reservado a conversas íntimas entre mulheres, ou restrita a consultórios médicos, para ocupar espaços públicos na sociedade brasileira".

"Seja devido às campanhas publicitárias dos absorventes femininos, seja pelo debate que se instaura em torno da questão dos direitos reprodutivos das mulheres, a temática vem extrapolando esses limites", escreveu na época.

Outdoors que surgiam com a propaganda de absorventes internos prometendo fazer a mulher "nem sentir que estava menstruada" e pontuando: "Incomodada ficava a sua avó", serviram de inspiração para o texto.

"O discurso é (até hoje) de você esconder a menstruação", diz a professora.

Mas no que depender das mulheres que plantam a lua, a oposição a essa narrativa vai continuar.

"Estamos aos poucos arranhando essas estruturas. Existe muito a ser desmistificado", diz Morena Cardoso.

No post que lhe deixou na mira dos críticos, Laura também olha adiante: "Só paro no dia em que o sangue menstrual for normal e a aberração for o preconceito", escreveu.

Uma seguidora comentou em uma foto sua no Instagram que a menstruação é "um momento muito íntimo". E perguntou: "A exposição é realmente necessária?".

A quilômetros de distância, a professora e estudante de mestrado em história, Jessica Guedes, de 27 anos, diz à BBC que "sim!"

Ela não planta a lua, mas está a par do movimento online e acha que menstruação "tem que ser mostrada mesmo".

Só vê, porém, o risco de o discurso que quer retirar estigmas da questão "fazer com que mulheres que sentem dor, não gostam, não podem ou não querem menstruar se sintam culpadas" por não estarem vivendo essa experiência de forma tão positiva.

"Eu acho saudável que as pessoas vejam o que somos, que menstruamos", diz Jessica.

"E esses processos de aceitação são importantes para tirar um pouco essa estigmatização. Mas outras mulheres existem e eu acho que todas deveriam estar representadas nesse clamor de reconexão com o corpo. Nem sempre isso acontece".