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A estilista por trás do vestido de noiva mais famoso da história

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Imagem: Getty Images

Lindsay Baker - BBC Culture

Da BBC

2019-06-17T18:38:32

17/06/2019 18h38

Desde o vestido de noiva da princesa Diana até sua nova coleção dramática inspirada nos anos 80, Elizabeth Emanuel vive em uma 'montanha-russa' em sua carreira.

Um volumoso vestido de tafetá fez uma aparição inesperada no recente desfile da Gucci Cruise, trazendo o estilo dos anos 1980 em sua plena e vibrante glória.

"As modelos pareciam garotas nerds brincando de se vestir - foi uma versão grunge da década de 1980, um brechó de caridade", disse a estilista e consultora criativa Cathy Kasterine à BBC Designed.

O visual era intencionalmente estranho - e levemente irônico. Como afirma Kasterine, que contribui para as revistas de moda Porter e Vogue China, "a moda tem uma relação de amor e ódio com os anos 80".

A Gucci não está sozinha. A década de 1980 tem sido uma fonte de fascinação ambígua para vários designers e marcas nos últimos anos - entre eles, a Balenciaga. Junto deles está a veterana estilista britânica Elizabeth Emanuel, que criou uma versão eclética e contemporânea do visual romântico dos anos 1980.

Sua nova coleção de alta costura, Elizabeth: Paris 1902, é cheia de babados requintados, franjas, dobras e romance. E, como na Gucci, o visual é opulento, mas também um pouco desalinhado e excêntrico - um look de conto de fadas para ser usado com maquiagem extravagante e botas Dr. Martens.

História de peso

Se alguém está qualificado para subverter essa aparência fantasiosa de princesa, essa pessoa é Elizabeth Emanuel. Junto de seu então marido David, ela criou o vestido de tafetá definitivo dos anos 80 - o famoso vestido de noiva usado pela princesa Diana em 1981.

O casamento do príncipe Charles com Lady Diana Spencer foi assistido por 750 milhões de pessoas em todo o mundo, e foi um momento icônico, entre um dos motivos, por causa daquele vestido dos Emanuels.

O vestido de noiva foi uma confecção de tafetá de seda marfim e rendas antigas com 10.000 pérolas, uma cauda de 7,6 metros e véu de chiffon de renda. O vestido era tão grande que foi esmagado na carruagem de vidro que deixou a noiva em frente à Catedral de São Paulo.

"Nós escolhemos o drama", Emanuel afirmou à BBC Designed. "Era a imagem que todo mundo tinha de uma princesa de conto de fadas. O momento era perfeito para isso. Era uma época de franjas e babados". Ele certamente sintetizou sua época - com suas inconfundíveis mangas bufantes e proporções volumosas. Teve uma performance inesquecível.

O jovem casal viveu uma transformação quase instantânea da relativa obscuridade para a fama global. No final dos anos 1970, os Emanuels tinham acabado de se formar e sua recém-lançada marca havia sido bem recebida.

De fato, um de seus clientes foi o ícone do glamour dos anos 1970, Bianca Jagger, fotografada em uma de suas criações na lendária boate Studio 54, de Nova York.

No entanto, a dupla estava totalmente despreparada para o que se seguiria. "Naquela época, tínhamos um relacionamento próximo com a (revista) Vogue, que ficava na mesma rua. Enviamos uma blusa rosa para uma sessão com Diana. Ela gostou e perguntou quem a desenhou."

E quando Diana apareceu no estúdio da dupla para encontrá-los, houve uma química instantânea. "Nós nos demos muito bem, não havia uma grande diferença de idade. Olhando para trás, ela era apenas uma criança, ela tinha 19 anos. Acabávamos de sair da faculdade e, como Diana, ainda não tínhamos desenvolvido nosso estilo."

"Ela era ingênua, e nós também, então nós combinávamos muito bem. Ela não conhecia as regras, nem nós, só fazíamos o que queríamos. Gostávamos de drama e teatro, e havia uma sensação de liberdade nisso, de fazer o que quiséssemos."

Lady Diana logo foi vista em um vestido preto dos Emanuels em sua primeira aparição oficial como noiva do príncipe Charles - e a partir daquele momento os estilistas ficaram no centro das atenções. Quando o casamento ocorreu, em 1981, Diana era, como a estilista ressalta, "a mulher mais famosa do mundo".

"Toda noiva real tem influência", diz a designer, e o vestido de noiva de Diana começou uma tendência nupcial de babados e tule, definindo um dramático distanciamento das criações mais convencionais e rígidas de antes.

"Foi ingenuidade, e não exatamente rebelde. Criar a peça foi um momento fabuloso para todos, não havia ninguém que pudesse nos parar. Ela era a melhor colaboradora, uma parceira disposta a fazer de seu vestido dos sonhos algo com que as pessoas engasgassem. Olhando para trás, é comovente."

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"Nada se compara a isso. É a combinação da história de Diana, a forma como o vento atravessou o véu quando ela subiu os degraus da igreja, aquele beijo na varanda, foram imagens incríveis. Há uma magia naquele momento. Isso entra nos corações das pessoas. Foi um dia muito feliz para ela."

Estilo poderoso

"Foi um momento... Mas não era apenas o vestido, era ela no vestido. Ela era uma noiva muito tímida e virginal. Ela era uma princesa da vida real", comentou Cathy Kasterine.

"Foi extraordinário o vestido ser tão ousado, tão grande e tão imponente. Ele tinha uma aparência inocente, mas também poderosa, de que Diana corria atrás do que queria. Foi o precursor de quem ela realmente era e do poder que ela desenvolveu. Quando Fergie (Sarah Ferguson, ex-esposa do príncipe Andrew) tentou um visual parecido, não funcionou. Foi o começo do 'reinado' de Diana."

E havia outro aspecto disso. "Também era uma proteção", acrescentou Kasterine. "O vestido a carregava, ela era segurada por ele e pelas pessoas que o fabricaram, os Emanuels, que davam muito apoio a ela". E, claro, olhando em retrospecto, tudo aquilo também carrega alguma pungência - um vestido de noiva de conto de fadas, mas, tragicamente, sem o final do conto de fadas.

O famoso vestido de noiva e outras peças dos Emanuels - incluindo a muito imitada blusa de seda e chiffon de colarinho rosa claro - ajudaram a inspirar uma geração de jovens mulheres. Kasterine, que era estudante na época, lembra o impacto das roupas de Diana.

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"Eu não acho que ela sabia disso, mas ela ficava simplesmente extraordinária. E como todos os personagens sedutores, as pessoas querem se transformar neles. Seja Kim Kardashian ou Kate Moss, elas projetam um anseio por qualquer fantasia que as pessoas tenham."

Para os Emanuels, foi um momento difícil de superar. "Isso nos criou", diz Elizabeth. "Seria preciso muito para ir além disso. Nada se compara a isso". E como seus designs, a carreira de Emanuel também foi cheia de drama.

Houve altos e baixos para a dupla desde então. O casal se separou em 1990. Depois, sua marca passou por problemas financeiros, e seguiram-se vários desafios aos negócios - incluindo um processo judicial. Seu conselho para designers iniciantes?

"Mantenha sua marca registrada o mais próximo possível. Eu perdi meu nome, então, eu sei o quão valioso é tê-lo. E o mais importante é trabalhar com pessoas em quem você confia". Sua carreira tem sido "uma montanha-russa".

Mas também houve altos para Elizabeth, que vão desde os desenhos do Ballet Rambert e os figurinos de Frankenstein, o Modern Prometheus para o Dutch National Ballet, até criar os uniformes para a tripulação da Virgin Airlines.

Ela também fez criações para outras figuras icônicas, incluindo Joan Collins e Elizabeth Taylor. No começo de 2019, dois de seus vestidos passaram pelo tapete vermelho do Oscar.

Sobre os vestidos de noiva mais recentes da realeza, ela simplesmente afirma: "Precisamos trazer o drama de volta". Algo que ela certamente fez com sua nova coleção de alta costura, Paris 1902.

"Eu quero que essas coisas estejam aí por muito tempo", diz ela.

"Não é uma moda barata, rápida, é mais uma obra de arte. Se eu não tivesse estudado moda, provavelmente teria estudado figurino. Com esta coleção, você pode ser a estrela do seu próprio filme".

A coleção atual é toda arrematada à mão, "cada item é único", incluindo uma "camisa Romeo" em crepe georgette e inspirada no balé, com calças pretas. "Muito andrógino", como ela descreve.

Elizabeth Emanuel se descreve como uma pessoa resiliente. "Ainda estou aqui", comentou. "É emocionante e sinto que meu melhor trabalho está por vir. É difícil acreditar que é tudo uma longa linha do tempo de 1981 até agora, com toda a experiência acumulada".

Errata: o texto foi atualizado
No texto, "Fergie" se refere a Fergie Sarah Ferguson, ex-esposa do príncipe Andrew, e não à cantora. A informação já foi corrigida.