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Mães e filhos


Mães e filhos

"Sou mãe que não tem um bebê": relato da jornalista cuja filha nasceu morta

Reprodução/BBC
Imagem: Reprodução/BBC

Da BBC

2019-03-08T16:14:30

08/03/2019 16h14

Desde pequena, Fiona tinha o sonho de ser mãe; depois de ter superado um câncer cervical, conseguiu engravidar, mas sua filha nasceu morta. Neste emocionante testemunho, a jornalista da BBC compartilha a dor pela perda da filha e junta-se a outras histórias extraordinárias de mães que conheceu durante a luta travada para superar a profunda tristeza.

No ano passado, a jornalista da BBC Fiona Crack ficou grávida, algo que desejou durante toda a vida, mas complicações na gestação precipitaram o rompimento da bolsa e a sua tão esperada filha faleceu antes do parto.

Neste relato emocionante, ela fala sobre a dor pela perda de sua bebê e descreve a luta pela superação do trauma da morte da filha. Ela conta também a história de outras cinco mulheres que viveram situação semelhante e que, como ela, lutaram para superar a perda de seus filhos.

Quando eu tinha oito anos, minha prima teve um bebê. Minha mãe sabia que eu amava criança, e me deixou alguns dias na casa da minha prima "para que eu a ajudasse".

Eu devo ter sido útil porque quando outra prima deu à luz, fui despachada novamente.

Andei com os bebês para cima e para baixo e reprimi investidas de irmãos ciumentos.

Também ajudei a dar banho e a ninar nosso mais novo vizinho.

Queria completar logo 12 anos, quando poderia tomar conta de todas as crianças do bairro. Não via a hora de ser mãe.

Não via a hora de ser mãe

Aos 29 anos, no entanto, recebi o diagnóstico de câncer de colo do útero. E a cirurgia que salvaria minha vida também me tiraria a chance de gerar uma criança.

Descobri então, por meio de um artigo médico, que havia outra operação que me daria essa oportunidade - e encontrei alguém que poderia fazer.

Quando o procedimento foi negado pelo serviço de saúde público, comecei a implorar.

Vários anos exaustivos de fertilização in vitro e abortos espontâneos se seguiram.

Finalmente, numa manhã de quinta-feira, o bebê que eu tanto esperava se contorcia dentro mim - era a última ultrassonografia prevista na gravidez.

As parteiras se despediram de mim desejando boa sorte no parto.

Dois meses antes

Naquela tarde, eu estava no trabalho comendo uma fatia de bolo de limão, do bota-fora de um colega, quando senti um líquido quente escorrendo pela minha calça.

Minha bolsa havia estourado dois meses antes do previsto.

Fui internada e os médicos me disseram que teríamos que retardar o parto o máximo possível até o bebê se fortalecer.

Seis minutos

Dez dias depois, me disseram que tudo estava bem e que poderia voltar para casa no dia seguinte.

Mas pouco depois da meia-noite, eu tive prolapse do cordão umbilical (o cordão se desloca para fora do útero), prejudicando o fornecimento de oxígêno e de nutrientes para meu bebê.

Nos seis minutos até chegar à sala de cirurgia em meio a gritaria e correria das enfermeiras empurrando minha maca pelos corredores vazios, meu bebê não resistiu e morreu.

Fiquei 48 horas sem dormir. Andava de um lado para o outro. Me recusei a tomar remédio.

Meu bebê tão amado e esperado estava enrolado e silencioso no meu ventre; o cordão que nos unia estava pendurado em mim.

Quando meus pés começaram a doer de tanto andar, deitei de lado e fiquei olhando para Tim, meu parceiro.

Lembrei da história de um bebê que foi dado como morto, mas nasceu saudável.

Apertei a campainha para chamar a enfermeira, perguntei se eles poderiam estar errados. Vinte minutos depois, Tim tocou a mesma campainha, fez a mesma pergunta.

'Quando acordar, vou vê-la'

Eles fizeram uma cesariana na manhã seguinte.

Enquanto respirava pela máscara e sentia a anestesia sendo injetada na veia, pensei: "Sonhei em ver o rosto do meu filho por 30 anos e, quando acordar, vou fazer isso."

Quando me entregaram ela - era uma menina -, meu coração se encheu de amor. Era linda, tinha 30 cm.

Estava de vestidinho branco e touca, enrolada em um cobertor branco tricotado à mão.

Seus dedos dos pés e das mãos repousavam em perfeição.

Tinha as pernas compridas como nós dois. Demos o nome de Willow.

Imaginei ter ouvido o coração de Tim partindo quando ele pronunciou o nome dela.

Olhei para ela maravilhada. Não conseguia entender por que estava morta.

É comum, mas não é muito comentada

As parteiras e os médicos chegaram. Não houve resposta para nossas perguntas.

Talvez não fossem as perguntas certas.

Estávamos perto da sala de parto e eu tive que ouvir mulheres dando à luz e recém-nascidos chorando.

Meus braços doíam. Achei que era um coágulo, mas os médicos disseram que era normal - uma resposta biológica ao choque de não ter uma criança viva para segurar.

Eu soluçava. Meu leite desceu, marcando minha camiseta, e eu estava exausta demais para ficar envergonhada.

Na sala de luto havia uma copa, não imagino que qualquer pai que perdeu um filho tenha estômago sequer para fazer uma xícara de chá.

Me peguei olhando a escala de limpeza, um lembrete evidente das outras famílias que passaram por lá. Pensei nas perdas delas. E me concentrei em sua sobrevivência.

Natimortos são muito mais comuns do que as pessoas imaginam, mas raramente se fala deles porque a gravidez é um momento de alegria e esperança.

Ficamos mais quatro noites no hospital, com a nossa filha em um berço refrigerado.

Ninguém nunca sugeriu que saíssemos, mas eu sabia que era hora.

A mesma data, o mesmo documento

Não consegui me despedir das parteiras que ficaram conosco durante aquela noite, que vestiram nossa filha.

Não havia palavras de agradecimento suficientes, então elas apenas choraram, e nós choramos, acenamos com a cabeça e saímos.

Tínhamos duas ovelhinhas de pelúcia no hospital - uma com a qual dormimos, outra para Willow no berço dela.

Na volta para casa, agarrei nossa ovelhinha, úmida de lágrimas. Sussurrei algumas palavras para ela e imaginei que nossa filha poderia ouvi-las.

O luto aumentou e esticou o tempo.

As parteiras lembraram que éramos legalmente obrigados a registrar o nascimento de Willow.

Então, um dia, fomos até o cartório, onde um funcionário nos fez perguntas muito tristes.

Saímos segurando a prova legal de que ela esteve aqui, que era real.

Nascimento e morte dividiam o mesmo papel, o único documento que ela terá. Era um duelo guardado e que se estendia com o tempo.

O funeral

Desviei o olhar da bondade e da falta de jeito das pessoas.

Alguns amigos vieram me visitar. Familiares também.

Vesti minha calça para gestante novamente e falamos sobre amenidades, mas não havia nada que alguém pudesse dizer, então voltei para a cama. Planejamos um velório, em vez de um batizado.

Em vez de um batizado, organizamos um funeral

De olhos secos (parecia não haver mais lágrimas), fiz um pequeno discurso diante de um crematório lotado de familiares aos prantos.

As flores eram grandes demais para a pequena tampa do caixão de Willow.

Pedimos para não fecharem as cortinas no final.

Quando finalmente consegui sair, deixei parte da minha alma com ela, minha primeira filha.

A dor

Duas semanas depois, Tim voltou ao trabalho e eu fiquei sozinha em casa.

Nosso luto tomou rumos diferentes, e minha solidão e meu isolamento aumentaram.

Me assustei ao ler sobre as taxas de separação após a perda de um filho, e decidi buscar uma terapia de luto.

Encontrei muitos serviços de apoio para mães, poucos para pais, mas finalmente achei alguém que nos atenderia juntos, a quem consultamos ainda hoje.

Minha menstruação desceu e fiquei revoltada com a traição do meu corpo.

Excluí amigos do Facebook que tinham bebês saudáveis da mesma idade de Willow, assim como amigas grávidas do segundo ou terceiro filho.

Os algoritmos tornaram as redes sociais um lugar sombrio para mim, com propagandas de papinhas, roupas e carrinhos de bebê inundando minha linha do tempo.

Fiquei amarga, irritada e arredia.

O medo

Um dia, peguei três trens para visitar minha avó de 103 anos, Nancy, no extremo nordeste da Inglaterra.

Entrei na casa e me ajoelhei aos pés dela, deitando a cabeça no seu colo.

Ela também teve um filho natimorto, há mais de 60 anos. Ao acariciar meu cabelo, ela disse que "lamentava pelo bebê" - o bebê a quem tínhamos planejado inicialmente dar o nome dela.

Foi a visita mais difícil que fiz e, de alguma forma, o início da minha cura.

Comecei uma verdadeira investigação. Solicitei meus prontuários em todos os hospitais em que fui atendida na última década e pesquisei cada etapa do meu tratamento médico e da gravidez, cruzando dados e decifrando os rabiscos dos médicos.

No cerne da minha obsessão estava a culpa, um medo de que, de algum modo, a culpa fosse minha.

Um medo que não se confirmou, mas que outros pais de bebês natimortos parecem sentir também.

A fuga

Achei uma cadelinha de nove semanas na rua e a levei para casa.

Ela pesava 2 kg, o peso de um recém-nascido.

Suas necessidades me fizeram sentir útil. Durante os passeios noturnos para ir ao banheiro, ficávamos tremendo de frio no escuro e ela pulava em mim como uma criança que pede colo.

Quando eu chamava por ela no parque, ocasionalmente a chamava de Willow.

O Natal se aproximava, mas eu fingia não ver, colocando dinheiro às pressas em envelopes para sobrinhas e sobrinhos.

Escapamos do sonho do nosso primeiro Natal em família alugando uma cabana isolada em Suffolk, no oeste da Inglaterra.

Andamos quilômetros todos os dias, nos revezando para passear com nossa filhote.

Na véspera de Natal, fui à Missa do Galo em uma pequena igreja.

Chorei silenciosamente durante toda a celebração. A senhora que estava ao meu lado, uma estranha, estendeu o braço para segurar minha mão.

A volta ao trabalho

Um bebê natimorto oferece à mãe os mesmos direitos e proteção que um recém-nascido.

Tirei licença maternidade e voltei a trabalhar quatro meses depois.

Era mais fácil ficar no trabalho do que em casa. Conseguia me esconder da minha perda.

Me tornei tão boa em separar os papéis que de vez em quando me surpreendia com colegas perguntando se eu tinha tido um menino ou uma menina.

Me acostumei a responder "minha filha nasceu morta", e depois bater no braço deles e dizer "está tudo bem, por favor, não se preocupe".

Nas longas noites em casa, eu bebia muito vinho tinto.

Via um episódio de Modern Family atrás do outro.

Mas durante todo o inverno, havia lampejos de esperança, como o nascer das flores que anunciam a chegada da primavera. Alguns dias eu voltava a me sentir otimista, em outros conseguia encontrar os amigos e dar risada.

Às vezes, esboçava um sorriso quando Tim abria a porta de casa.

Muitas vezes eu acho que nós dois apenas tentamos, não por nós mesmos, mas um pelo outro.

O jardim e o quarto

Meu mecanismo de defesa funciona me mantendo ocupada, então elaborei um projeto para dedicar parte de nosso jardim a Willow, comprando papel milimetrado e me debruçando sobre livros de projetos de jardins.

Começamos o paisagismo na semana mais fria e chuvosa de fevereiro. Contratamos uma escavadeira de 1,5 tonelada.

Amigos e familiares vieram nos ajudar em meio à neve, geada e chuva torrencial, para remover ervas daninhas.

Pina, nossa cachorrinha serelepe, brincou na lama sob nossos pés e carimbou suas pegadas em todo o chão da cozinha.

Encontrei um artista para fazer uma escultura de ramos de salgueiro-chorão (willow, em inglês).

Fomos até nossas praias favoritas catar pedras para pavimentar o caminho. Ficamos exaustos com o trabalho manual.

Na semana que antecedeu o Dia das Mães, fiquei observando as crianças saindo da escola do bairro.

No dia propriamente dito, abri a porta do quarto de Willow pela primeira vez.

Abri e dobrei cada macacãozinho - e me deitei no chão abraçada ao último, colocando-o entre a clavícula e o umbigo.

Os grãos de poeira pairavam à luz do sol da tarde. Lembrei do email avisando que as cortinas para o quarto estavam prontas.

Quando disse que não iríamos precisar mais, simplesmente responderam: "Enviaremos quando você estiver pronta". Fiquei imaginando se a vendedora também perdera um bebê.

Eu chorei muito e acabei pegando no sono.

Quando acordei, estava escuro. Encontrei dois cartões de Dia das Mães. Um da minha mãe, e outro do Tim, dizendo que fui e sempre serei uma mãe maravilhosa para Willow.

Daquele dia em diante, deixei a porta do quarto aberta, e o ar agora circula melhor pela nossa casa.

Um baú de lembranças

Nos preparamos para o primeiro aniversário de Willow, organizamos uma festa no jardim dela para arrecadar fundos para instituições de caridade dedicadas a bebês natimortos.

Uma das organizações que queremos ajudar fornece baús de memória aos hospitais para pais que perderam os filhos.

Ganhamos um quando Willow nasceu e tomei coragem para olhar dentro dele novamente.

O que havia no baú:

  • Um cobertor branco de tricô
  • A pulseirinha usada por Willow no hospital
  • Fotos de Willow quando nasceu
  • Digitais do pezinho dela
  • Macacão que Willow usou no berçário

Alguns itens já estavam dentro da caixa quando ganhei, outros eu mesma adicionei.

Queria conhecer outras mulheres que entendessem o poder desse baú.

Nas semanas que antecederam o aniversário de Willow, iniciei uma jornada pelo Reino Unido para visitar mães que passaram por situações semelhantes e estavam conectadas com esses cinco objetos.

A seguir, a história de cada uma delas:

Val

Val Isherwood fundou a Tigerlily Trust, instituição que fornece aos hospitais cobertores e roupinhas para bebês natimortos.

Minha gravidez ia bem até provavelmente a 16ª ou 17ª semana, quando recebemos um telefonema que começou assim: "Você está sozinha?" Era o hospital para dizer que minha bebê tinha algo chamado Síndrome de Edwards - e os médicos não esperavam que ela passasse de 28 semanas.

Ela chegou a 32 semanas. Eu estava arrumando as gavetas da sala quando senti uma pontada.

Fomos para o hospital, e o batimento cardíaco dela parou.

Embora a gente tenha tentado se preparar para esse momento, não consigo me lembrar muito desse dia.

Me recordo dos médicos dizendo que me dariam um comprimido, que eu deveria ir para casa e voltar na manhã seguinte.

De repente, fiquei muito assustada com a ideia de ter um corpo morto dentro de mim e com a crueldade de me mandarem para casa.

Mas hoje sou feliz por ter tido esse tempo, foi a oportunidade de passarmos uma última noite juntas.

E na terça de manhã eu não queria voltar para o hospital. Só queria mantê-la para sempre em segurança dentro de mim - sentia que ninguém deveria tirá-la de mim.

Mas o tempo que passei no hospital foi precioso.

Recebi a visita de amigos que foram me ver e conhecer Lily, o que foi muito importante, porque mais adiante passei por uma fase em que pensava: "Já estive grávida alguma vez?"

Roupas

Eu tinha comprado roupinhas para ela no início da gravidez, e eram grandes demais.

Então, não tínhamos com o que vesti-la, e o hospital tampouco nos ofereceu uma opção.

Quando entrei em trabalho de parto, fomos até o centro e a única peça de roupa que conseguimos encontrar foi uma camisetinha, que minha mãe costurou no hospital e transformou em vestido.

Um dos meus arrependimentos é que o vestido foi cremado com ela - eu gostaria muito de ter hoje a roupinha que ela estava usando.

É por isso que agora, nós no Tigerlily Trust, damos um par de roupinhas idênticas para que os pais possam guardar a que o bebê usou.

Tentamos ter outro bebê assim que foi possível, e cogitamos a fertilização in vitro, mas a idade não contava a meu favor.

Eu tinha 46 anos na época e acho que não conseguiria passar pelo processo todo para não dar certo no final.

Pensei muito na questão da aceitação - minha mensagem para mim mesma era que 'se não era para ser, então essa seria minha história'.

Ajuda

E sabia que precisava encontrar formas positivas de canalizar todo o amor e energia que seriam dedicados à criação de Lily.

Tudo que se refere à Tigerlily Trust é inspirado no apoio que eu gostaria de ter tido.

Comecei, então, a procurar costureiras para ajudar a criar as roupinhas que eu gostaria de ter recebido.

Muitas pessoas perguntaram se poderiam doar seus vestidos de noiva para serem customizados - temos agora uma costureira maravilhosa na Ilha de Man que faz isso.

Antes, algumas mães de bebês natimortos eram orientadas a comprar uma roupa de boneca, o que consideravam ofensivo.

Agora, muitos pais que entram em contato conosco custam a acreditar que alguém se deu ao trabalho de tricotar algo para vestir e oferecer dignidade a seu bebê.

Tenho cerca de 380 nomes na lista de pessoas que contribuíram de alguma forma. Algumas são avós cujas filhas perderam bebês.

Meu conselho para outros pais que estão passando por essa situação é viver o luto. Não tenha medo do luto - compartilhe com as pessoas.

É praticamente um tempo precioso antes do mundo esperar que você esteja bem. Dê esse tempo a si mesmo.

Rachel

Rachel Hayden fundou a organização Gifts of Remembrance, que treina parteiras para tirar fotos de bebês natimortos - esta seção contém uma imagem de seu filho Rowan, que nasceu morto.

Rowan era meu terceiro filho, o que foi uma surpresa para mim aos 40 anos. Mas o interessante é que quando descobri que estava grávida, tive a sensação de que já o conhecia.

Fiz uma ultrassonografia na 31ª semana e descobri que ele não tinha batimentos cardíacos. Esse momento é compartilhado por todos os pais de bebês natimortos. Havia apenas um silêncio no monitor.

Eu lembro da maneira como a enfermeira do berçário segurou meu filho e falou com ele, me encorajando a fazer o mesmo.

Ela dizia: "Olá, qual é o seu nome? Aposto que sua mãe quer te dar um abraço". E foi ótimo porque eu não fazia ideia do que fazer.

As fotos

Mas eu nem pensei em pedir para registrar esse momento.

Ela levou meu bebê e tirou a impressão das mãos e dos pezinhos dele, antes de vesti-lo e colocá-lo em um moisés. Na sequência, tirou duas fotos dele deitado.

Eu não sabia como ele era sem roupa ou o que estava usando debaixo da roupinha de tricô. Ela tampouco tirou uma foto dele nos meus braços - ele parecia tão sozinho.

Embora eu seja extremamente grata por tudo, mais tarde conheci o trabalho de Todd Hochberg, um fotógrafo americano incrível, e percebi que poderia ter feito muito mais.

Fiquei não só impressionada com as fotografias e com a emoção que passavam, mas com as histórias que elas contavam - e me peguei comparando.

O que eu digo às parteiras no treinamento é que você precisa pensar no futuro e orientar os pais no sentido de reunir detalhes e histórias, dizendo a eles: "Pode parecer demasiado agora, mas será importante mais tarde".

Só uma pequena parte do treinamento é, na verdade, sobre tirar fotos - grande parte se refere a como as parteiras podem empoderar os pais, dizer as coisas certas e dar tempo a eles.

Imagens que confortam

Eu digo que tem fotos que você pode compartilhar com as pessoas, mas há muitas imagens que vão te ajudar a recordar - cada foto será importante para a família.

No fundo, é uma intervenção terapêutica que você faz para ajudar as famílias a entenderem o que aconteceu.

Você está dizendo: "Isto é o que aconteceu com você, com todo o caos".

Parteiras e enfermeiras limpam as coisas o tempo todo, mas recomendo deixar tudo como está.

O objeto mais precioso de Rowan para mim é um chapéu porque tem o cheiro dele, então desafiamos essa abordagem.

Se você tentar nos proteger, podemos acabar sofrendo não apenas pela morte dos nossos bebês mas também por nunca termos visto eles.

Uma história muito comovente foi de uma mãe que disse nunca ter visto o bumbum da filha - ela contou que os outros filhos tinham marcas de nascença nas nádegas e ela nunca soube se a filha também tinha.

Ao olhar para trás, haverá momentos de que vamos nos lembrar até com alegria, porque você está dizendo oi para seu bebê, e se despedindo ao mesmo tempo.

Ruth

Ruth Rodgers trabalhava na área de finanças, mas decidiu virar parteira após o nascimento da filha Scarlett. Ela acaba de começar a exercer a função.

Scarlett nasceu em novembro de 2011, quando eu estava com 31 semanas de gravidez. Percebi que ela não estava se mexendo muito, mas não me preocupei muito - trabalhei o dia inteiro antes de ir para o hospital.

E logo de cara eles não conseguiram encontrar o batimento cardíaco.

Eu tive uma parteira de luto incrível, Jane, com quem falei por telefone. Dois dias antes de entrar em trabalho de parto, ela disse para não me preocupar com questões como enterro ou autópsia, para pensar apenas em como eu gostaria de passar o tempo com minha bebê - me ajudando a focar no que era mais importante no tempo certo.

Eu também tive uma parteira brilhante na hora do parto.

É engraçado o tipo de coisa com o que você se preocupa - imaginei que minha filha teria rigor mortis (rigidez do corpo). E estava com medo de como me sentiria ao vê-la.

Ela me disse: "Ela vai parecer como um bebê. Vai ser um pouco menor, pode ter a pele bem fina, e provavelmente não estará de olhos abertos, mas fora isso ela vai parecer como seu bebê".

Era tudo o que eu precisava ouvir para seguir em frente.

É claro que houve momentos de tristeza profunda, mas também tenho lembranças curiosas de assistir aos programas Strictly Come Dancing e X Factor, de comer lasanha com uma mão e segurar o gás para aliviar a dor com a outra!

Minha filha nasceu pouco antes das 6h, e eu lembro ter achado incrível o fato de ela ainda estar quente - e eu precisava lembrar daquela sensação, porque ela não ficaria assim para sempre.

Uma amizade inesquecível

Eu engravidei novamente sete semanas depois de Scarlett nascer, e abortei novamente - eu já tinha sofrido um aborto antes.

Foi aí que fiquei obcecada com o processo da gestação, em aprender como a embriologia funciona.

Sofri outros dois abortos depois disso - e Jane estava praticamente o tempo todo do meu lado. Desenvolvemos um relacionamento realmente especial. Acho que foi daí que surgiu a ideia de virar parteira - dessa relação de cumplicidade entre uma mulher e sua parteira.

Tive a sorte de ter dois meninos lindos - um deles um pouco antes de começar a estudar, e o outro no meio do curso.

A primeira gestação foi repleta de ansiedade, e recebi os cuidados mais fantásticos de Jane, dos terapeutas e da minha outra parteira, todos conheciam minha história e entendiam como eu me sentia.

Não conseguiria passar por isso sem eles, não sem consequências significativas para minha saúde mental.

No terceiro ano de treinamento, fiz um estágio em uma sala de parto - e entrou uma mulher que acreditava estar com contrações, mas seu bebê havia morrido.

Foi incrivelmente gratificante cuidar dela e do bebê, poder ajudá-la em tudo.

Acho que raramente é apropriado falar sobre sua própria experiência para outra pessoa.

Se uma mulher me perguntar especificamente se eu tive um filho natimorto, eu vou dizer, mas nunca faria isso voluntariamente, porque o momento seria meu, e não delas.

Mas sugiro dicas que foram úteis para mim, algumas que ouvi de outras pessoas.

Conheci muita gente nos últimos anos em grupos online e cada uma lidou com o luto e o processo de ter um bebê na sequência de formas bem diferentes.

Como você lida com o fato de ter um filho natimorto é incrivelmente pessoal.

Há gestos de cuidado incríveis por aí, mas também acontecimentos desagradáveis - e que são fáceis de consertar.

Os erros clássicos são não ler o prontuário da mãe antes de uma consulta, e não chamar o bebê que morreu pelo nome.

As pesquisas dizem muito claramente que o luto não está necessariamente relacionado à gestação - existe um elo, mas na verdade essa ligação tem mais a ver com a "atribuição da personalidade".

Se você confere uma personalidade ao bebê dentro de você, você cria um relacionamento com essa pessoa, o que significa que você sente a dor mais agudamente quando ela se vai.

Aliyah

Formada em produção editorial, Aliyah oferece impressões de quadros personalizados em sua loja online - uma forma de os pais celebrarem o bebê e seu nascimento. Ela também está customizando um livro de recordações.

Uma das partes mais difíceis é que a gente tinha comprado o enxoval para a Aamiya - o berço, as roupas, tudo estava lavado e pronto para recebê-la.

Eu estava inchada, mas os médicos diziam que era um inchaço normal de gravidez.

Como eu não apresentava outros sintomas, ninguém se preocupou muito.

Um dia acordei e não senti nada - achei prudente procurar um médico. Foi aí que descobri que tinha pré-eclâmpsia, e que ela tinha morrido.

Os médicos disseram que a minha pressão estava muito alta e havia muita proteína na minha urina. Me levaram às pressas para fazer o parto.

Eu com certeza adormeci porque, quando acordei, ela já estava de banho tomado e vestida, deitada ao meu lado no berço refrigerado.

E isso é algo que eu lamento - obviamente, não dependia de mim ficar acordada, mas sinto que perdi a chance de vesti-la e de ficar com ela logo após o nascimento - as pequenas coisas que você sempre imaginou fazer pelo seu bebê.

Existe aquele momento estranho em que as pessoas não sabem o que dizer ou fazer.

Mas com os meus amigos foi tranquilo, porque todos me conhecem muito bem e se esforçaram para estar por perto - me trouxeram flores e chocolates.

Foi bom saber que as pessoas se importavam, mesmo que eu não quisesse conversar ou fazer nada.

Eu sempre fui criativa e comecei a fazer um livro de recordações para Aamiya.

Foi então que descobri a comunidade de mães que perderam bebês no Instagram.

Conversei com mulheres de diversos lugares.

Compartilhava o que havia feito ao longo do dia e projetos em que estava trabalhando.

Algumas começaram a perguntar se eu poderia customizar algo para seus bebês também.

Um tempo depois que Aamiya nasceu, eu achava que tudo na casa devia remeter a ela para todo mundo lembrar que ela passou por aqui.

E acho que foi uma maneira de lidar com a tristeza: criar objetos em homenagem a Aamiya para poder espalhar pela casa.

Você pode passar horas criando - e isso ajuda a espairecer a mente.

Houve um momento em que achei que não era saudável focar apenas nisso, então deixei o projeto do livro de recordações um pouquinho de lado, e me dediquei a voltar ao trabalho e encontrar mais os amigos.

Mas, de vez em quando, volto a ele.

Na minha segunda gravidez, fiquei definitivamente mais ansiosa.

No início da gestação, enquanto eu me sentia feliz e abençoada por ter conseguido conceber outra criança, havia também um sentimento de culpa, pois você não quer que seu bebê anjo pense que vai ser esquecido, porque nunca vai ser - eu e meu companheiro pensamos em Aamiya todos os dias.

Mas com o passar do tempo, esse sentimento de culpa diminuiu - eu realmente acredito que esse bebê foi enviado por Aamiya.

Meu companheiro e eu vamos garantir que esta criança cresça sabendo tudo sobre a irmã mais velha.

Megan

Poucas semanas após a morte de seu filho Milo, Megan Evans lançou um vlog sobre bebês natimortos.

Antes de Milo, eu achava que não tinha instinto maternal - tenho dois irmãos mais velhos que me assustavam em relação à gravidez e à dor do parto, então eu sempre disse que não seria mãe.

Quando o teste de gravidez deu positivo, pensei apenas que não deveria ter filhos.

Como eu era muito jovem e estava apavorada, fui direto para o YouTube e digitei "19 e grávida", mas não achei muita informação. Encontrei alguns vídeos, mas eram sobre mulheres de 19 anos que tinham grana. Eu precisava ver alguém "normal".

No dia seguinte, avisei à minha mãe que faria um blog em vídeo sobre minha própria situação.

Assim que comecei a gravar os vídeos, algumas mulheres entraram em contato comigo dizendo se sentir da mesma forma - elas não tinham casa própria, tampouco uma situação financeira estável.

Foi assim que comecei meu vídeo blog. E me fez bem ouvir "eu também" daquelas pessoas, me senti mais confortável com a minha situação.

Com o passar do tempo, tudo entrou nos eixos.

É engraçado como o instinto maternal de repente aflora e você não imagina mais como poderia ser diferente.

Um dia, eu percebi que Milo não havia se mexido por muito tempo e achei melhor ir ao médico, só por precaução.

A parteira começou a me examinar e não conseguiu encontrar batimento cardíaco. Apareceram, então, um profissional de ultrassom, uma enfermeira, um médico e um especialista. Havia uma fila de pessoas no pé da minha cama - foi quando eu me dei conta que de fato havia algo errado.

'É simplemente perfeito'

Era como se eu tivesse sido jogada num mundo em que não fazia absolutamente a menor ideia de como navegar.

No dia seguinte, passei o dia com a minha família e descobri que minha avó teve um filho que morreu alguns dias depois de nascer.

Perguntei como eu iria sobreviver e ela disse: "Tire muitas fotos e aproveite ao máximo o tempo que você tiver com ele."

Quando fui ao hospital para dar à luz, estava muito assustada sobre como seria a aparência dele.

Por isso, pedi à minha mãe para olhar primeiro.

Ela disse: "Meu Deus, ele é simplesmente perfeito", e me mostrou.

Foi quando eu percebi que era o bebê que estava carregando por oito meses. A morte não muda nada - era a primeira vez que eu via meu filho.

Mas também foi devastador. Eu estava segurando meu bebê, mas sabia que teria que devolvê-lo. Meu futuro estava sendo apagado diante dos meus olhos.

Três dias após ter alta do hospital, comecei a pensar no meu blog. As pessoas ainda publicavam nos vídeos anteriores comentários do tipo: "Uau, também estou grávida".

Fiz uma busca por vídeos sobre natimortos e mais uma vez não consegui encontrar o que estava procurando.

Não esperava que muitas pessoas assistissem aos vídeos porque não tinha ideia do quão comum eram os bebês natimortos.

Me ajudou contar a história de Milo, mas também foi reconfortante ver outras pessoas dizerem seu nome.

Se algum conhecido tem um bebê natimorto, você não precisa saber as coisas certas a dizer. Você só precisa reconhecer sua dor, aceitar seu luto, admitir que você não vai entender e deixá-lo falar à vontade.

Com o passar do tempo, conheci muitas pessoas que entenderam isso e comecei a me sentir confortável no luto, o que ajuda bastante.

Rowan, Scarlett, Aamiya, Lily, Milo e Willow. Enquanto coloco pedras em homenagem a todos eles em um jardim dedicado à memória de natimortos, percebo que, embora não tenham visto o mundo, esses bebês o modificaram através da atitude que inspiraram em suas mães.

Mas também sei que, para cada uma dessas mulheres, há muitas outras que preferem guardar para si suas lembranças, que choram a portas fechadas.

Uma em cada 225 gestações no Reino Unido resulta em um natimorto.

E a morte de um bebê não afeta apenas os pais mas também os avós, os irmãos, a família e os amigos. Uma mãe de luto, enquanto está no hospital, recebe cuidados emocionais, mas isso pode fazer com que os homens se sintam marginalizados e impotentes para ajudar.

Os pais com quem converso concordam que o tabu e o silêncio em torno dos bebês natimortos parecem estar diminuindo gradualmente, mas ainda tem muita gente que simplesmente nunca falou comigo sobre Willow, nunca disse o nome dela.

Eu recebi, no entanto, o apoio de diversas pessoas, especialmente mulheres, muitas das quais eu nem conhecia.

Como jornalista, me especializei por anos em contar histórias de mulheres ao redor do mundo, e ainda assim, isso me fez sentir uma solidariedade invisível, uma rede de histórias, de empatia, de força das mulheres ao meu redor.

Ao longo do último ano, a necessidade de lembrar e imortalizar Willow se confundiu com minha necessidade de autopreservação. Um ano depois, a tristeza ainda bate de vez em quando, mas consigo senti-la chegando e me preparar, sabendo que sou capaz de sobreviver a sua pancada breve, mas poderosa.

O nascimento de Willow me tornou mãe e fez de Tim pai. Meus braços não doem mais como naquelas primeiras horas, mas ainda estão vazios. Sou uma mãe que não tem um bebê.

Penso na minha própria mãe. Ela ficou na nossa casa durante semanas, com a sombra terrível do luto pairando sobre nós, e meus soluços entrecortados pelo barulho de suas agulhas de tricô.

Ela tricotou uma manta branca linda para um baú de recordações de natimorto que será aberto em um momento de imensa dor.

Ela fez para uma desconhecida que, na época em que ela estava tricotando, era uma futura mãe entusiasmada, mas cujo bebê chegaria cedo demais, doente demais ou simplesmente natimorto sem motivo aparente.

Esse bebê - nunca saberemos o nome dele ou dela - será embalado e velado nos braços de seus pais e também, graças à minha mãe, contará com uma camada extra, envolvido no amor da minha família - em nossa perseverança e esperança.

*Esta é a versão em português do testemunho da de Fiona Crack, clique aqui para ler o texto original em inglês.

*Colaboraram Buckley, Ben Milne e Finlo Rohrer.

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