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Mulheres procuram cirurgiões na Venezuela atrás de plástica de baixo custo

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Apesar da crise, a Venezuela segue atraindo estrangeiras interessadas em fazer cirurgias estéticas Imagem: AFP

Gustavo Ocando Alex - Especial para BBC News Mundo em Maracaibo, Venezuela

24/12/2018 08h21

Emilce García, uma jovem panamenha de 25 anos, aterrissou no aeroporto de Maracaibo, na Venezuela, na noite de 19 de novembro, cheia de dúvidas. Nunca antes havia pisado no país, que atravessa uma enorme crise. Além disso, mal conhecia o médico que a operaria dois dias depois - só haviam conversado por chamadas pela internet.

Mesmo assim, o plano de fazer uma cirurgia plástica na Venezuela seguiu de pé.

A jovem havia sido incentivada por quatro amigas a fazer uma lipoaspiração de costas, abdômen, coxas, braços e papada. Meses antes, outras panamenhas haviam feito o mesmo procedimento com o mesmo cirurgião venezuelano. Então, Emilce viajou 885 km até Maracaibo, uma cidade que descreveu como "desorientada, triste, apagada".

Depois de sete dias, havia realizado o desejo de ser operada pelas mãos experientes - e mais baratas - de um médico venezuelano.

"Não sabia com quem iria me encontrar. Mas o resultado foi maravilhoso", comemorou Emilce, que é assistente de vendas no Panamá. Hoje ela exibe o corpo esculpido no WhatsApp e no Instagram e diz que pensa em voltar à Venezuela para algum retoque adicional.

Apesar da hiperinflação, a Venezuela continua recebendo pacientes estrangeiras interessadas em fazer cirurgias plásticas no país. Elas vêm de outros países americanos, como Emilce, e europeus.

Os preços mais baixos são um dos maiores atrativos. Uma cirurgia para aumentar os seios, por exemplo, custa entre US$ 2 mil (cerca de R$ 7,7 mil) e US$ 3 mil (R$ 11,5 mil) na Venezuela. Já em outros países da América e da Europa, o preço pode chegar até US$ 15 mil (em torno de R$ 60 mil).

Além disso, a Venezuela tem uma tradição em operações estéticas. Está entre os 20 países que mais realizam cirurgias plásticas do mundo, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. O destaque foi em 2014, quando ficou em oitavo lugar com mais procedimentos no mundo, com quase 300 mil cirurgias - dessas, 85 mil foram operações nos seios.

Em número de cirurgiões plásticos, há 600 registrados no país. Só outros 15 países, entre eles Estados Unidos, Brasil e México, têm mais plásticos que a Venezuela.

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Berço de numerosas ganhadoras de concursos de beleza, a Venezuela é conhecida internacionalmente por seus cirurgiões plásticos Imagem: AFP

Turismo médico

Ramón Marín, um dos especialistas em cirurgia estética mais ativos da Venezuela, afirma que, nos últimos anos, houve uma alta no número de pacientes vindos de Miami, nos EUA, da Colômbia, de Aruba e do Panamá.

"De segunda-feira a sábado, operamos pelo menos uma ou duas pacientes do exterior. Uma média de 50% das nossas pacientes são de fora do país", falou o médico, em uma clínica decorada com luxo e munida de tecnologia de ponta em Maracaibo.

Por outro lado, a afluência de pacientes locais diminuiu. A alta de estrangeiros é o que "mantém a cirurgia plástica venezuelana funcionando", diz Marín.

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Os cirurgiões plásticos venezuelanos gozam de boa fama e não deixaram de trabalhar na área apesar da crise de seu país Imagem: BBC

Yndira Coy Ferrebus, uma vendedora que mora em Santander, na Espanha, viajou até a Venezuela há quatro anos para fazer uma mamoplastia. Em 2017, voltou ao país para fazer uma lipoaspiração com o mesmo médico. Seu caso é curioso: ela é venezuelana e prefere viajar milhares de quilômetros de volta para seu país de origem para se operar.

Essa é outra tendência dos últimos anos. E uma consequência da diáspora. Centenas de milhares de pessoas deixaram a Venezuela devido à crise e, algumas delas, longe de enfrentarem problemas econômicos, têm meios para regressar ao país e fazer cirurgias estéticas.

"Não gostei dos peitos operados aqui na Espanha, nem das lipos que vi", critica Yndira, em conversa por telefone, desde a Espanha. A venezuelana, que emigrou para a Europa há 14 anos, planeja voltar para seu país em abril do ano que vem, para fazer uma cirurgia no bumbum.

Roxina Méndez, uma administradora de 38 anos, se submeteu a uma mamoplastia em Maracaibo oito meses antes de se mudar para o Equador. Já está planejando voltar à Venezuela em meados de 2019 para uma rinoplastia. "Indiquei as cirurgias estéticas (na Venezuela) para várias amigas", relata.

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Muitas venezuelanas que emigraram da Venezuela retornam ao país para fazer operações plásticas Imagem: AFP

Confiança e baixo custo

Gladys Chow, vice-presidente da Sociedade Venezuelana de Cirurgia Plástica, recomenda aos estrangeiros que queiram viajar ao país para fazer cirurgias estéticas que confiram se os médicos estão certificados.

Alerta ainda que, algumas vezes, os pacientes se colocam em risco porque querem sair da Venezuela muito pouco depois da cirurgia, diante da situação de crise do país.

"Pedimos um tempo mínimo de estadia para o pós-operatório, idealmente um mês inteiro ou 25 dias. Mas, às vezes, (as pessoas que são operadas) desaparecem", adverte.

Carlos Moreno, porta-voz da organização até meados deste ano e especialista na área há 18 anos, acredita que os pacientes viajam à Venezuela para serem operados por um motivo: a confiança.

"Temos certeza de que (as pessoas) não viajam para a Venezuela por causa do lugar ou da segurança. A confiança é tudo o que temos e não podemos desapontar", afirma em seu consultório em uma clínica estética em Maracaibo.

Os médicos venezuelanos afirmam que usam tecnologias de última geração e que importam até 90% dos insumos cirúrgicos e para o pós-operatório. Dizem ainda que operam em clínicas cujas salas de operações se encontram em perfeitas condições sanitárias.

Devido à complexa situação venezuelana, os médicos ainda ajudam o paciente a lidar com hospedagem, alimentação, transporte e até contratam seguranças.

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O médico Carlos Moreno recomenda que estrangeiros chequem informações sobre os médicos antes de viajarem para fazer uma cirurgia Imagem: BBC

O cirurgião plástico Jorge Emiro Palencia viaja uma vez por mês para Maracaibo, sua cidade natal, desde sua residência em Buenos Aires, na Argentina, para realizar tratamentos e operações em pacientes. Segundo ele, atende cerca de cinco pacientes por viagens - dois venezuelanos e três estrangeiros.

Para ele, outro fator que motiva os estrangeiros a operarem na Venezuela é a beleza das venezuelanas. "A mulher venezuelana é, dentro do padrão latino, muito bonita. Se cuida muito e exibe sua beleza com orgulho". As venezuelanas já venceram 13 vezes o Miss Universo e o Miss Mundo.

A venezuelana María Isabel Moreno, jornalista de 39 anos que vive em Barcelona desde 2006, decidiu voltar a seu país para fazer uma cirurgia bariátrica. Essa é outra das tendências dos últimos anos na Venezuela. "Aqui eu poderia estar com meus pais e irmãs. E, claro, foi muito mais barato do que na Espanha", afirma.

Em junho de 2017, fez a cirurgia. E não descarta fazer operações plásticas. "Uma venezuelana que não planeje colocar silicone ou fazer uma cirurgia estética não é tão venezuelana", afirma, às gargalhadas.