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Violência contra a mulher

Como aprender a limpar e cozinhar transformou um homem violento

Da BBC

27/11/2018 16h17

Muhoza Jean Pierre, de 32 anos, costumava bater em sua mulher. Ele a via como alguém com quem se casou apenas para ter filhos e cuidar deles. "Eu estava seguindo o exemplo do pai. Meu pai não fazia nada em casa", diz ele.

"Se eu chegasse em casa e visse que faltava fazer algo, eu batia nela. A chamava de preguiçosa, dizia que ela era inútil e que deveria voltar para a casa de seus pais", conta.

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Mas, então, algo mudou – ele aprendeu a cozinhar e a limpar.

A mudança foi parte de um programa de intervenção na sua comunidade em Mwulire, no leste de Ruanda. O projeto incentiva homens a assumirem tarefas domésticas, incluindo cuidar das crianças.

A iniciativa, conhecida como Bandebereho ("exemplo", na língua local Kinyarwanda), ajudou a transformar o comportamento de Jean Pierre.

Ele começou a acompanhar aulas que ensinavam a cozinhar e limpar, e a participar de discussões sobre como desafiar papéis de gênero tradicionais.

"Eles perguntavam se um homem pode varrer a casa, e nós dizíamos que sim. Mas quando perguntavam quem ali fazia isso, não havia ninguém", conta ele.

"Homens não cozinham"

Professores do projeto Bandebereho ensinaram Jean Pierre a realizar tarefas que antes ele acreditava serem responsabilidade da mulher.

"Eu ia para casa e tentava colocar isso em prática. Depois, voltávamos para o treinamento com testemunhas que confirmavam que tinham visto algumas mudanças em nós. Hoje, eu sei cozinhar. Lavo as roupas das crianças. Sei como descascar banana-da-terra, como amassar mandioca e como peneirar farinha."

No entanto, fazer essas mudanças não foi tão fácil, porque os amigos de Jean Pierre o desencorajavam de fazer as tarefas domésticas, dizendo que "homens de verdade não cozinham".

"Minha família e meus amigos começaram a dizer que minha mulher devia estar me dando drogas. Diziam que homens de verdade não deveriam carregar lenha na rua, que isso é para homens frouxos."

Mas Jean Pierre continuou, porque viu os benefícios que sua atitude trazia para sua família.

Ele diz que seus filhos ficaram mais próximos dele e sua mulher agora tem um negócio, o que permitiu que eles melhorassem sua casa.

"A maneira como ela me trata hoje é diferente da maneira como ela costumava me tratar", diz ele. "Ela me tratava mal porque eu também a maltratava, mas agora nós conversamos e fazemos acordos."

"Eu a libertei, e agora ela está trabalhando e eu estou trabalhando também. Antes, eu acreditava que ela tinha de ficar em casa e estar disponível sempre que eu precisasse dela."

Medo e liberdade

A mulher de Jean Pierre, Musabyimana Delphine, diz que tinha pouca liberdade e vivia com medo.

"Às vezes, eu me sentia como uma empregada, então lembrava que empregadas recebem salário", diz ela.

"Eu nunca achei que um mulher pudesse ter seu próprio dinheiro, porque eu nunca tive nem tempo para pensar sobre qualquer atividade que desse dinheiro."

"Hoje, tenho liberdade em casa e saio para trabalhar e ganhar dinheiro como todo mundo."

Delphine sai às 5 horas da manhã para vender bananas-da-terra no mercado, enquanto Jean Pierre fica em casa e cuida dos quatro filhos pequenos do casal.

"Eu chego em casa relaxada e encontro a comida pronta", diz ela.

O currículo do projeto foi desenvolvido originalmente na América Latina pela campanha MenCare, que defende que equidade só será alcançada quando homens dividirem igualmente o trabalho doméstico e o cuidado das crianças.

O estudo que analisou os casais participantes do projeto descobriu que dois anos depois de terem aulas sobre como cuidar das crianças em Ruanda, os homens se tornaram menos propensos a usar violência contra suas parceiras do que os homens que não participaram das aulas.

O estudo também afirmou, porém, que uma em cada três mulheres cujos parceiros participaram do programa ainda sofriam violência doméstica.

De acordo com um relatório do Instituto Nacional de Estatísticas de Ruanda publicado em 2015, cerca de 52% dos homens do país disseram que já tinham sido violentos com suas parceiras.

O Centro de Recursos para Homens de Ruanda, que está por trás do projeto no país, quer que a iniciativa Bandebereho seja mais amplamente adotada por comunidades e pelo governo.

"Ainda temos normas sociais negativas, percepções negativas sobre masculinidade, barreiras culturais – esses são os principais causadores da violência contra mulheres em Ruanda", diz Fidele Rutayisire, presidente do centro.

"Tradicionalmente, os homens não cuidam das crianças aqui. Os homens ainda têm controle do sexo, do dinheiro, das decisões."

"Quando os homens estão ativamente envolvidos no cuidado com as crianças, sua atitude em relação ao gênero muda positivamente. Eles entendem o valor da igualdade de gênero."

Para Delphine e Jean Pierre, o programa não foi benéfico apenas para sua família, mas para a comunidade como um todo.

"Estamos em lua-de-mel dez anos depois do nosso casamento", diz Jean Pierre.

"Quando há conflitos ou problemas de segurança na nossa vizinha, nossa opinião é muito respeitada porque eles veem que não temos problemas em nossa casa."