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Direitos da mulher

"Como consegui justiça após meu namorado infiel me contaminar com HIV"

Arquivo pessoal/BBC
Diane Reeve tinha 50 anos quando se apaixonou novamente, em 2002 Imagem: Arquivo pessoal/BBC

Da BBC

19/10/2018 15h13

Diane Reeve não esperava se envolver novamente com alguém depois que seu casamento de 18 anos acabou. Mas, em 2002, aos 50 anos, ela se apaixonou. O que ela não sabia era que seu novo namorado, Philippe Padieu, era infiel e a contaminaria com HIV, vírus causador da aids.

Em seu relato, a seguir, ela conta como foi o romance e como descobriu a doença e as traições. E como obteve Justiça depois de tudo isso.

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Como tudo começou

Eu tinha desistido de amar de novo, mas algumas pessoas me convenceram de que eu era jovem demais para isso. Disseram que eu deveria "voltar ao mercado" - e sugeriram uma plataforma de namoro virtual. Foi muito chocante. Eu estava prestes a desistir quando recebi uma mensagem de Philippe.

Foi apenas um breve "gostei do seu perfil, queria te conhecer", mas fiquei intrigada. Ele era francês e muito bonito. Pensei:

"Ok, vai ser a última vez, e acabou."

Nos encontramos na minha academia de artes marciais - ele também praticava artes marciais - e fomos até um restaurante da região. Em meio a drinques e aperitivos, conversamos por uma hora. Fiquei encantada e acho que ele também ficou.

Começamos a sair com bastante regularidade.

Philippe era analista de segurança de uma grande empresa, mas foi demitido um ano depois que começarmos a namorar. Enquanto ele estava procurando emprego, sugeri que me ajudasse na academia.

Nessa época, a gente costumava sair depois do trabalho e passar a noite juntos. Tínhamos conversado sobre "exclusividade" logo no início do relacionamento, então, a gente se via três ou quatro vezes por semana - no resto do tempo, eu estava ocupada com a academia.

Eu estava feliz, ele estava feliz. Ficamos juntos por quatro anos e meio.

Em 2006, minha filha se casou e fizemos uma cerimônia maravilhosa.

Philippe estava presente - ele gravou um vídeo da ocasião - e tínhamos planejado um jantar em família depois.

Mas ele me ligou do celular e disse: "Não vou poder ir, não estou me sentindo bem".

Ele não ligou do telefone fixo, o que me deixou desconfiada. E fiquei furiosa porque o jantar era muito importante para mim.

Fui sozinha, mas quando estava voltando, resolvi passar na casa do Philippe para ver como ele estava.

A porta estava trancada, as luzes apagadas e o carro não estava lá. Sentei na entrada da garagem e chorei por um bom tempo. Comecei, então, a ficar com raiva.

Como eu pagava a conta do celular dele, tinha acesso à caixa postal. Duas mulheres diferentes tinham deixado mensagens - e era óbvio que ele tinha combinado algo com elas.

Esperei por pelo menos hora e meia até que, finalmente, vi o carro dele dobrando a esquina.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Suspeitas se confirmando

Quando Philippe avistou meu carro, desviou imediatamente - sabia que algo estava acontecendo. Comecei a segui-lo pelas ruas do bairro até que ele pegou a estrada. Estava dirigindo a cerca de 140 quilômetros por hora e eu estava bem atrás dele. Pensei: "Posso perseguir você a noite toda, tenho um tanque cheio de gasolina".

Finalmente, ele acabou encostando o carro. Aos berros, o acusei de traição.

"Você não deveria ter invadido minha caixa postal!", ele rebateu. Estava tão irritado que começou a bater no carro. E isso me assustou. Era o fim.

Nós terminamos em um sábado. Na segunda-feira seguinte, fiz um exame ginecológico e, quando os resultados chegaram, revelaram anomalias nas células cervicais.

Eu estava com HPV, o vírus do papiloma humano, que é sexualmente transmissível. Nunca tive isso antes, então, sabia que ele tinha me contaminado. Estava em choque e com medo - tive que fazer uma cirurgia para remover as células anômalas e não sabia se aquilo poderia evoluir para um câncer ou não.

Me perguntei se deveria avisar as outras duas mulheres. Recorri aos nove meses de registros do celular de Philippe que eu tinha, na tentativa de encontrá-las novamente.

Liguei para todos os números e sempre que uma mulher atendia, eu perguntava: "Você está saindo com Philippe Padieu?" Quando respondiam "sim", eu completava: "Então, eu preciso dar uma palavrinha com você".

Descobri outras nove mulheres que também saíam com ele.

Algumas ficaram com raiva, outras desligaram na minha cara. Mas muitas se mostraram interessadas e até gratas pelo telefonema - recebi todos os tipos de respostas.

Uma delas ficou tão revoltada que decidimos marcar um almoço com as demais para compartilhar nossas histórias. Tiramos uma foto juntas fazendo um gesto obsceno e enviamos para ele.

Havia uma outra mulher que vim a conhecer depois. Nos encontramos em um pequeno bar de jazz. Ela estava saindo com Philippe três vezes por semana há um ano e meio.

Ela não tinha um relacionamento "exclusivo" com ele, mas queria isso, eu acho. Contei a ela tudo o que havia acontecido comigo. E ela ouviu atentamente o que eu tinha a dizer.

"Essa é uma decisão sua. Se você quiser continuar a sair com ele, o problema é seu", afirmei. E pensei que seria a última vez que conversaríamos.

A revelação da doença

Três meses depois, recebi uma ligação do departamento de saúde dizendo que eu precisava fazer um exame. Entrei em pânico porque estava tendo muitos problemas de saúde.

Mantive o telefone do Philippe para o caso de alguma outra mulher ligar e eu ter a chance de alertá-la. Após ser contatada pelo departamento de saúde, notei que a última pessoa a telefonar para o número dele tinha sido a mulher que eu conheci no bar de jazz.

Retornei contando que tinha acabado de receber uma ligação do departamento de saúde. E perguntei: "O que você tem a me dizer sobre isso?"

"Precisamos conversar", ela respondeu. Nunca vou esquecer essas palavras.

Ela continuou a sair com Philippe depois que nos encontramos, mas acabou decidindo terminar. Preocupada com possíveis doenças sexualmente transmissíveis, ela fez o teste e descobriu que era portadora de HIV.

Naquele momento, todos os problemas de saúde e a falta de energia que eu tinha sentido nos últimos seis meses - sintomas que eu atribuía à idade - ganharam um novo sentido e me dei conta do que estava de fato enfrentando.

No dia seguinte, eu tinha uma consulta com o ginecologista. Fiz um exame de sangue e, um dia depois, me ligaram para dar o resultado:

"Diane, me desculpe. É positivo."

Deixei o telefone cair e desabei. Pensei que ia morrer.

Eu não tinha muita informação sobre o HIV - me lembrava da época em que não havia tratamento e sabia que eles existiam agora, mas não sabia o quão eficazes eram. Sabia que estava realmente muito doente.

Isso foi em janeiro de 2007.

Quando fiz mais testes, descobri que tinha aids. Isso significa que o sistema imunológico está comprometido ao ponto de te deixar muito vulnerável a doenças. Seu corpo não vai lutar porque o vírus danificou as células que combatem a infecção.

Eu tinha seguro de saúde porque era autônoma - e havia mudado de plano cerca de dois meses antes de receber o diagnóstico. Havia um aviso no fim do contrato - "por favor, esteja ciente de que não cobrimos HIV" -, que eu assinei com alegria, porque sabia que não tinha HIV. Mas dois meses depois, descobri que estava errada.

Ou seja, eu tinha um seguro de saúde que não pagava tratamento de HIV e o remédio custava cerca de US$ 2 mil por mês - valor que eu não podia pagar.

Início da reação jurídica

Assim que peguei o resultado dos exames, busquei aconselhamento. Eu realmente precisava de ajuda para processar as informações. Estava terrivelmente deprimida, com muito medo e morta de raiva.

Decidi falar novamente com a mulher que conheci no bar de jazz. Choramos e nos revoltamos juntas. Quando ela recebeu o diagnóstico, ligou imediatamente para Philippe para avisá-lo. Ele disse:

"Não é nada demais, todo mundo morre de alguma coisa. Por que você simplesmente não vai viver sua vida e me deixa em paz?"

Foi uma reação muito estranha para alguém que deveria ter ficado chocado.

Suspeitamos que Philippe tinha transmitido o vírus para nós duas e decidimos fazer algo a respeito. Após algumas pesquisas, resolvemos apresentar uma queixa à polícia.

Queríamos que a polícia o detivesse. Queríamos descobrir se ele realmente carregava o vírus e se havia algo que poderíamos fazer para evitar a contaminação de outras mulheres.

Os policiais foram muito simpáticos e compreensivos, mas disseram que, como havia apenas duas de nós, não conseguiriam provar isso. Mas se quatro ou cinco mulheres se apresentassem, disseram, eles poderiam conseguir que o promotor público desse uma olhada no caso.

Voltamos aos registros de ligação do celular dele. Liguei primeiro para a mulher que morava no bairro de Philippe, que eu conhecera antes. Ela também fez o teste e foi diagnosticada com HIV.

Ela nos ajudou vigiando a casa dele e anotando os números das placas dos carros que estacionavam na garagem durante a noite. Tivemos muito trabalho porque todo dia ele recebia uma mulher diferente, era incrível.

Eu tinha um amigo que tinha acesso ao nome e ao endereço dos donos de veículos. Assim que a gente conseguiu os dados, fomos até a casa delas.

Ao todo, identificamos 13 mulheres que foram diagnosticadas com HIV.

Começamos a tentar provar que Philippe sabia que tinha HIV.

Havia uma senhora no departamento de saúde que estava nos ajudando a rastrear as mulheres. Perguntei a ela: "Você já viu esse cara"? Mas ele não parecia familiar a ela.

Me lembrei que Philippe às vezes usava um pseudônimo, Phil White, e ela se recordou. Ela teria visto ele na mesma época em que recomendei a ele procurar um médico devido a uma suspeita de pedras nos rins.

Eu pensei: "Será que foi quando ele recebeu o diagnóstico?"

Isso tinha acontecido em 2005, cerca de um ano e meio antes de nos separarmos. Ele foi ao médico e fez alguns exames.

Como eu paguei pelo tratamento dele, peguei os recibos e levei para a promotora - foi a primeira vez que a vi sorrir. Os documentos deram a ela uma "justificativa plausível" para requisitar os registros médicos dele - o que ela fez. Sem isso, teria sido muito difícil, se não impossível, obtê-los, devido às leis de proteção à privacidade. E foi assim que provamos que ele tinha sido diagnosticado com HIV.

Julgamento

Das 13 mulheres que descobrimos terem sido diagnosticadas com HIV, apenas cinco concordaram em testemunhar perante o tribunal, devido ao estigma associado ao vírus. Formamos um grupo de apoio e nos reuníamos na minha casa com frequência. Passamos por tudo isso juntas.

Um dos motivos para levar o processo adiante era que o Estado do Texas pagaria pelos cuidados médicos que são necessários como resultado de um crime, e eles estavam processando Philippe por "agressão com arma letal".

Foi um processo longo, passamos de cinco a seis meses rastreando essas mulheres. Quase todos os dias da semana estávamos em vigília. Era exaustivo - e eu ainda tinha aids -, mas estávamos determinadas a impedi-lo de fazer outras vítimas.

O julgamento começou em 2009, três anos depois do término do nosso relacionamento e dois anos após eu receber o diagnóstico.

A promotora havia alertado que seríamos atacadas, que qualquer informação que Philippe tivesse a nosso respeito, poderia ser jogada no ventilador, em público. Embora eu estivesse preparada para isso, não imaginava que seria tão cruel - testemunhei por cerca de uma hora, mas sobrevivi.

Após a sentença, reunimos todos os amigos e familiares para comemorar, pois sabíamos que ele não seria capaz de ferir outras pessoas novamente.

Philippe nunca assumiu a responsabilidade. Ele disse que fui eu quem transmitiu HIV para todo mundo, o que obviamente era absurdo - encontramos uma mulher em Michigan que ele havia contaminado em 1997. E também fizemos um estudo de DNA comprovando cientificamente que mostrou que o vírus que estava em cada uma de nós tinha uma origem comum: Philippe.

Suspeito que ele tenha transmitido HIV conscientemente por anos antes de conhecê-lo, e que o diagnóstico de 2005 não tenha sido o primeiro.

Tenho lutado para perdoá-lo, mas estou em paz porque, honestamente, fiz de um limão uma limonada.

Mas um dos meus maiores ressentimentos é que ele destruiu minha capacidade de confiar nas pessoas e isso deixa os relacionamentos realmente complicados. Estou tentando superar, mas tem sido uma longa batalha.

Tenho muita sorte de estar agora com alguém que me entende, me ama e me aceita. Começamos a sair em 2008 e eu abri o jogo logo no segundo encontro. Comecei a chorar, ele me segurou e disse: "Tudo bem, meu irmão morreu de aids." E isso me reconfortou.

O tratamento avançou tanto que atualmente se limita a um comprimido por dia para a maioria dos pacientes - tomo um comprimido por dia há muito tempo.

Eu tenho carga viral indetectável, o que significa que o vírus não é identificado no meu sangue. Foi demonstrado que, se você está vivendo com HIV e tem uma carga viral indetectável de forma constante ao longo de seis meses, o risco de transmissão é zero - isso foi um divisor de águas para todos nós.

Ainda tenho contato com algumas das mulheres. Fui ao Grand Canyon de férias com uma delas no ano passado - a mulher do bar de jazz.

Se eu não tivesse entrado em contato, ela nunca teria pensado em fazer o teste de HIV. E se ela não tivesse dado meu nome ao departamento de saúde, eu nunca teria feito o exame. Nós realmente salvamos a vida uma da outra.