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Será que a cobrança por "boas maneiras" está indo longe demais?

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Usar o celular durante as refeições é de bom tom? Imagem: Getty Images

Kirsty Sedgman - Universidade de Bristol

18/09/2018 08h19

É comum ouvir reclamações sobre o comportamento dos outros, mas quem decide o que são boas maneiras?

Do ônibus ao teatro e ao restaurante, as regras que orientam nossas atitudes em público costumam ser descritas como "senso comum".

Mas o limiar entre o comportamento "aceitável" e "inaceitável" varia de acordo com a pessoa e o lugar.

Pense nos debates que surgem frequentemente sobre questões aparentemente mundanas, como se é falta de educação se maquiar no trem ou usar o celular durante as refeições.

Em vez de dizer que o bom comportamento é "simplesmente uma questão de boas maneiras", será que não deveríamos nos perguntar se é razoável esperar que os outros se adaptem aos nossos ideais?

Comportamentos desagradáveis

De maneira bem básica, as boas maneiras são um conjunto de regras compartilhadas que nos ajudam a mostrar consideração por outras pessoas, em vez de agir apenas por interesse próprio.

Esse significado remete ao estudioso holandês Erasmo de Rotterdam e a seu texto sobre "boas maneiras para crianças", do livro A Civilidade Pueril (1530), que incentivava o fim de práticas anti-higiênicas, como cuspir e tocar em alimentos.

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Será que não deveríamos nos perguntar se é razoável esperar que os outros se adaptem aos nossos ideais? Imagem: Getty Images

Por um lado, então, a patrulha comportamental é uma maneira de reforçar as regras sociais que genuinamente visam tornar o espaço público mais limpo, seguro e melhor para todos.

Mas os bons modos também podem ser baseados na opinião da maioria e usados para exercer poder.

Por exemplo, enquanto cortar a unha em público é claramente desagradável, argumentar que a pessoas devem se maquiar em casa ou no banheiro tem uma base menos racional.

E pode ser visto como parte de uma vontade mais ampla de controlar o modo como outras pessoas usam o espaço público.

Plateia treinada

Um lugar em que as boas maneiras são observadas é o teatro, onde se espera geralmente que o público fique sentado em silêncio, bem próximo ao palco.

Historicamente, nem sempre foi assim. No século 19, as plateias foram apresentadas a novas regras de comportamento que favoreciam as elites.

Antes livres para participar das performances de forma barulhenta e espontânea, o público começou de repente a receber orientações de como se comportar - por meio de recomendações no programa, cartazes e até mesmo aulas ministradas por quem estava no palco.

Agora, algo semelhante está acontecendo novamente. A plateia está cada vez mais envergonhada de levar comida, conversar e até mesmo usar celulares e iPads.

Mas, no meu estudo sobre guias online de etiqueta teatral, descobri que a maneira como as pessoas veem essas regras varia muito.

Por exemplo, embora muitas pessoas defendam que os telefones devam ser desligados completamente, outras afirmam que deixar no modo silencioso é suficiente.

O "mau" comportamento no teatro é frequentemente interpretado como egoísmo e falta de consideração com os outros.

No entanto, é evidente que as pessoas têm expectativas diferentes - algumas preferem um evento "distinto", enquanto outras almejam uma experiência mais "sociável".

Um dos principais pontos de discórdia é onde traçar a fronteira entre os níveis apropriados e inapropriados de entusiasmo.

O público tem sido criticado por cantar em musicais, aplaudir e dar risada em momentos inoportunos ou bater muitas palmas em pé.

Quem assistiu ao espetáculo Motown: the Musical em Londres no ano passado foi convidado a não cantar, a menos que fosse orientado pelo elenco, e a "moderar seu entusiasmo", enquanto estivesse no teatro.

Outra questão é que alguns frequentadores assíduos de teatro são especialmente rápidos em julgar aqueles que não agem como eles.

Esse aspecto é ilustrado pela dramaturga americana Dominique Morisseau, que escreveu sobre a experiência de ir ao teatro como uma mulher negra e ser convidada a "diminuir o volume".

Incapaz de se adaptar

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É falta de educação se maquiar no trem ou no metrô? Imagem: Getty Images

Embora cada um tenha uma visão diferente do que é um comportamento aceitável, as pessoas tendem a acreditar que seu ponto de vista é o "senso comum".

A palavra "óbvio" surgiu repetidas vezes enquanto eu pesquisava sobre como as pessoas decidem o que é certo e errado.

Na discussão sobre a proibição de comida no teatro, uma pessoa pode dizer que obviamente é "totalmente inaceitável" entrar com qualquer tipo de comida ou bebida, enquanto outra pode sugerir que é obviamente "ridículo" não permitir.

Há também o risco de que as regras destinadas a promover a consideração pelos outros não atinjam seu objetivo de fato.

Por exemplo, esperar que a plateia "vá ao banheiro antes do espetáculo, nunca durante" ignora aqueles com doença de Crohn, que podem precisar ir ao banheiro com frequência.

E, como a comediante Jess Thom explica, ficar totalmente calado também é impossível para pessoas com condições como a síndrome de Tourette, que provoca tiques verbais e físicos.

Uma das respostas a isso é o surgimento de uma nova tendência de performances teatrais mais relaxadas, que permitem ao público falar, comer, beber e se movimentar quando necessário.

Mas devemos esperar que as pessoas se adaptem às normas sociais, mesmo que isso signifique que elas sejam excluídas no final?

É uma questão que vai além do teatro e vale para todos os aspectos da vida pública.

Por exemplo, em cerimônias de formatura nos Estados Unidos, muitas famílias são criticadas por aplaudir muito alto e "arruinar" a solenidade do evento.

Envergonhar as pessoas por seu comportamento tem muitas consequências inesperadas no mundo real.

Uma pesquisa com novas mães na Escócia mostrou que um quarto se sentia desconfortável em amamentar em público. É uma reação que pode ajudar a explicar a taxa relativamente baixa de amamentação no Reino Unido.

Um problema fugaz

Há uma clara necessidade de se ter consideração com os outros e de cumprir as regras sociais, particularmente quando seu comportamento apresenta um risco para os outros.

Mas decidir o que é "aceitável" também pode significar fazer um julgamento sobre o que devemos priorizar quando se trata de coexistir em harmonia.

Devem ser as preferências daqueles que querem que suas experiências de viagem, jantar e arte sejam livres de perturbações irritantes?

Ou o direito daqueles com crianças barulhentas, deficiências ou simplesmente um conjunto diferente de valores?

Para a maioria de nós, esbarrar em momentos de "mau comportamento" é um problema passageiro.

Talvez a coisa mais atenciosa que podemos fazer seja tentar não julgar tão rápido.

Sobre este artigo

Esta análise foi encomendada pela BBC a uma especialista que trabalha para uma organização externa.

Kirsty Sedgman é professora de teatro na Universidade de Bristol, no Reino Unido, e pesquisadora de pós-doutorado da Academia Britânica.

Ela é autora do livro The Reasonable Audience: Theatre Etiquette, Behaviour Policing, and the Live Performance Experience (Uma Plateia Sensata: Etiqueta no Teatro, Patrulha do Comportamento e Experiência de Performances ao Vivo, em tradução livre).

Editado por Duncan Walker.

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