Mulheres inspiradoras

"Quase apanhei até das mulheres ao defender cotas em empresas", diz dona do Magazine Luiza

João Fellet/BBC Brasil
Hoje, Luiza Helena Trajano está à frente do conselho de administração do Magazine Luiza Imagem: João Fellet/BBC Brasil

João Fellet

da BBC Brasil, em São Paulo

20/03/2018 08h13

Na sede paulistana do Magazine Luiza, oitava maior empresa brasileira do setor varejista, não há paredes, nenhum homem vai trabalhar de gravata, e bermudas até o joelho são liberadas.

De uma sala de vidro no meio do escritório, a executiva Luiza Helena Trajano acompanha o vai e vem dos funcionários e os chama em voz alta pelo nome quando tem algo a resolver.

Engajada em campanhas contra a violência doméstica e o assédio sexual na empresa, Luiza conta em entrevista à BBC Brasil que "quase apanhou" de colegas executivas quando começou a defender publicamente cotas para mulheres nos conselhos de administração de companhias.

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"As próprias mulheres me falavam que o critério para a ascensão deveria ser a meritocracia. E eu dizia: 'Então espere 110 anos'", afirma.

Após liderar o Magazine Luiza por 25 anos, período em que a empresa familiar se tornou uma potência do setor, ela passou o bastão em 2016 ao filho Frederico Trajano, novo diretor-superintendente (CEO) da companhia.

Luiza permanece à frente do conselho de administração do grupo e hoje lidera o movimento Mulheres do Brasil, que busca ampliar a presença feminina em espaços de poder.

Mesmo após se expandir por todo o Brasil, a empresa nascida em 1957 em Franca (SP) mantém ares interioranos. Placas de ruas da cidade foram espalhadas pelo escritório em São Paulo, à beira do rio Tietê, e na parede uma citação do viajante francês Auguste de Saint Hilaire (1779-1853) menciona o "aprazível descampado, em meio a extensas pastagens salpicadas de tufos de árvores" onde Franca foi fundada, no nordeste paulista.

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - Como avalia o cenário no Brasil hoje?

Luiza Helena Trajano - Desde que assumi a superintendência do Magazine Luiza, em 1990, vivi várias crises. Antigamente, um país espirrava lá atrás e a gente ia para a UTI. O que aconteceu agora foi uma crise econômica e política muito duradoura.

Foi muito difícil. Mas somos um país que tem um consumo muito bom - as pessoas gostam de ter casa bonita, geladeira inox. Só 10% da população tem TV de tela grande, só 5% tem ar condicionado. Nosso potencial é muito grande.

E aconteceu uma coisa legal: os brasileiros procuraram pagar a dívida em vez de pegar mais. A inadimplência ficou sob controle. Antigamente a inadimplência crescia muito nas crises. Cresceu a maturidade do povo.

BBC Brasil - A crise está superada?

Luiza Trajano - Acho que agora o mercado brasileiro não está mais misturando tanto economia e política. Você vê notícias bombásticas de presidente, mas o dólar não sobe tanto, a bolsa não cai tanto. Começou a separar. Países maduros fazem isso.

Sinto que o crescimento do PIB, a estabilidade da moeda, o trabalho feito no Ministério da Fazenda, nos deram fôlego. Você sente a luz no fim do túnel.

BBC Brasil - Esse cenário está consolidado mesmo com a perspectiva de uma mudança no governo após as eleições?

Luiza Trajano - Está mais consolidado. De repente pode ter uma bomba que atrapalhe. Mas a eleição não está mexendo tanto com o povo, parece que o povo não está muito preocupado com isso.

BBC Brasil - Alguns jornais noticiaram que a senhora era uma das signatárias do movimento Brasil 200, capitaneado pelo empresário Flávio Rocha, da Riachuelo (o movimento prega bandeiras liberais na economia e conservadoras nos costumes). Mas seu nome não consta no site do movimento. A senhora apoia o movimento?

Luiza Trajano - Gosto muito do Flávio, participei do IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo) com ele por muito tempo. Sei que ele tem uma política de liberdade, de mercado, e acho essa política muito boa. Mas, como sou do movimento Mulheres do Brasil, tenho de ser muito apartidária.

BBC Brasil - A senhora tem alguma preferência entre os candidatos que anunciaram intenção de concorrer à Presidência?

Luiza Trajano - Primeiro precisa definir quem são os candidatos.

Reuters
"Acho que agora o mercado brasileiro não está mais misturando tanto economia e política", aponta Trajano Imagem: Reuters

BBC Brasil - A senhora teria uma simpatia especial por uma candidatura do Flávio Rocha?

Luiza Trajano - Eu tenho uma amizade especial com o Flávio.

BBC Brasil - Como o governo Temer será lembrado?

Luiza Trajano - Foi positivo ele ter aprovado algumas medidas antipopulares, necessárias para o próprio povo, como a Reforma Trabalhista. Havia muita burocracia, muita amarração. Ele vai ser lembrado por ter feito isso. Por outro lado, não foi um governo eleito pelo povo, né? Por isso a rejeição dele.

BBC Brasil - Acha que a presidente Dilma Rousseff sofreu um impeachment ou um golpe?

Luiza Trajano - Prefiro não entrar nisso.

BBC Brasil - A senhora mantém a amizade, conversa com a ex-presidente Dilma?

Luiza Trajano - Não converso com ela, porque não a vejo. Ela me chamou para ser ministra, porque sou uma voluntária da causa da pequena e média empresa (o convite foi recusado). Sempre a achei uma pessoa bem honesta, bem direita, e sempre falei pra ela algumas coisas, porque ela me ouvia. Sou amiga da Dilma como sou do (Geraldo) Alckmin. Por ela ser mulher, talvez tivesse mais acesso.

BBC Brasil - Como a senhora se define politicamente? Está mais à direita ou à esquerda?

Luiza Trajano - Não sou nem esquerda nem direita. Transito muito no interior do Brasil. Sei o que não é ter água, sei como a Bolsa Família foi importante, assim como sei como o livre mercado é bom também.

Uma proposta pode ser boa vinda da esquerda ou da direita. A nova lei trabalhista, por exemplo, tenho certeza de que não prejudicou o trabalhador, de jeito nenhum. Há dez anos estudo essa lei trabalhista. Ela é a democracia da vontade.

O funcionário trabalhava domingo e era obrigado a tirar dois dias de folga na próxima semana. Fui totalmente a favor dessa medida - que nem chamo reforma, porque continua tudo igual, mas deu muito mais diálogo.

BBC Brasil - A reforma foi bem recebida entre os trabalhadores do Magazine Luiza?

Luiza Trajano - Sim, porque não mudou nada. Antes, se uma loja nossa no interior quisesse abrir no domingo porque era vantajoso para os funcionários, ela não poderia abrir se o sindicato não deixasse, mesmo com 100% de assinaturas dos funcionários.

Valorizo muito os sindicatos, mas acho que tem que ter negociação, um diálogo maduro entre empregado e patrão. Hoje ninguém é bobo, o empregado sabe muito bem seus direitos.

Todos os direitos continuaram - 13º, férias, jornada de 40 horas semanais. Trabalhou domingo, tem de ter dois dias de folga, só que podem negociar de uma maneira menos engessada.

(Presidente da União Geral dos Trabalhadores - principal central que representa funcionários de empresas varejistas - Ricardo Patah contesta a fala de Luiza. Ele diz que funcionários do Magazine Luiza e outras empresas do ramo têm expressado à central preocupação com a nova legislação. Para ele, a Reforma Trabalhista prejudicou trabalhadores e pôs em xeque conquistas negociadas entre sindicatos e companhias nos últimos anos.)

BBC Brasil - Sindicatos dizem que os funcionários estão mais vulneráveis, e há críticas à perspectiva de que as empresas passem cada vez mais a tratar funcionários como empreendedores associados - modelo do Uber, por exemplo.

Luiza Trajano - Isso não me preocupa. Na empresa, nós tratamos os funcionários como se fossem donos. Todos ganham conforme o lucro da empresa. No ano passado, como tivemos um ano bom, todos ganharam uma premiação pelo resultado. E como foi muito bom, meu filho deu um cartão de R$ 200 para todo mundo, que não era nem previsto.

Eles participam das decisões, têm um canal aberto comigo para denunciar o que não está legal. Devem cumprir os nossos princípios de transparência e honestidade. São muito cobrados, e, se não seguirem essas regras, vão embora por justa causa.

BBC Brasil - Como vocês têm lidado na empresa com o assédio e a violência contra a mulher?

Luiza Trajano - Já tínhamos trabalhado bastante com deficiência física e igualdade racial na empresa. Tínhamos cotas. Hoje nem precisamos mais. Temos muitos líderes e trainees negros.

Mas nunca tinha tratado da violência contra a mulher, porque achei que isso estivesse muito longe de nós, que é o que todo mundo acha. De repente fui pega por uma funcionária de 37 anos que foi morta à noite pelo marido a canivetadas. Ele também se matou, deixou um filho de nove anos.

Criei com o RH um disque-denúncia, chamamos promotoras, juízas, as ONGs que trabalham com isso. Montamos um comitê para fazer com que pessoas conversassem sobre isso, para criar um boletim para meus colegas presidentes de empresas e sugerir políticas públicas.

A violência começa com o assédio. Nossa empresa é carinhosa, a gente abraça, beija. Mas assédio sexual é inegociável. Fiz uma pesquisa interna com os 18 mil funcionários para saber o que era assédio, o que a pessoa não queria na sua unidade. É muito difícil definir, porque o que é assédio para mim talvez não seja para você. Ainda estamos num processo educativo. O homem foi acostumado a dar cantada e agora vai ter de mudar.

BBC Brasil - Já houve algum impacto?

Luiza Trajano - Na questão da violência, notamos muito. Graças a Deus não tivemos mais nenhum caso. E houve quase 80 denúncias. Evitamos muita morte.

Temos trabalhado com homens depressivos também, preventivamente. Falamos que, se não estiverem bem, temos psicólogo para dar cobertura. Geralmente, eles separam, começam a ficar depressivos e de repente podem fazer qualquer bobagem com a mulher.

É gozado que muitos que estão denunciando são homens que veem uma mulher machucada. Eles nos procuram e dizem: "nessa loja tem uma pessoa que não está legal". Os homens estão nos ajudando.

BBC Brasil - E o programa contra o assédio? Tem dado resultados?

Luiza Trajano - Começamos há um mês. Os líderes foram obrigados a conversar com a equipe sobre o que era assédio sexual e moral. Tem gente que não quer que chamem sua atenção na frente dos outros, outros não querem ser tocados. A primeira fase é de mobilização.

Brincadeira é uma coisa que ficou muito séria. Já falamos para parar qualquer tipo de brincadeira. É legal que até pessoas maduras, que brincavam com derrota de time de futebol, estão decidindo não brincar mais.

Reuters
Luiza Trajano lidera o movimento Mulheres do Brasil, que tem o objetivo de aumentar a presença feminina em espaços de poder Imagem: Reuters

BBC Brasil - Como responde a quem diz que há exagero em limitar as brincadeiras e que existe uma "ditadura do politicamente correto"?

Luiza Trajano - É isso o que eu não quis. Não quis nem exagero, nem fechar os olhos. Por isso fizemos uma consulta de baixo para cima para saber o que o grupo não queria.

BBC Brasil - Os chefes estão se sentindo acuados?

Luiza Trajano - Não. Trabalhei muito para dizer que a primeira coisa que temos de fazer é um perdão, entender que isso (assédio) se fazia porque era costume. Fui para a TV Luiza (canal interno da empresa) dizer que ninguém vai ser mandado embora, a não ser que tenha feito algo muito grave.

Ninguém vai ser mandado embora por trazer isso à tona. A partir do momento que trouxer, tem que se respeitar. Faremos um processo educativo até dizer: é proibido, acabou. Se não parar, vai ser mandado embora.

BBC Brasil - Sua defesa de cotas para mulheres e minorias em empresas enfrenta resistência entre colegas executivos?

Luiza Trajano - Acho que já houve mais resistência. Hoje a diversidade e o propósito de uma empresa são cobrados pelo próprio cliente. Acho que eles entendem mais isso hoje.

Quando comecei a falar em cotas, quase apanhei, até das próprias mulheres. O movimento Mulheres do Brasil levou ao Congresso um projeto de lei que institui cotas para mulheres em conselhos de administração de empresas públicas. Foi aprovado no Senado e agora vai passar pela Câmara.

Temos 7% de mulheres nos conselhos de empresas com ações na bolsa. Se eu e as filhas de donos de empresas não formos contadas, o índice cai para 2%. Vamos levar 110 anos para igualar a presença masculina. As próprias mulheres (executivas) me falavam que o critério para a ascensão deveria ser meritocracia. E eu dizia: "Então espere 110 anos".

É uma luta que não é por mim, é para minhas colegas executivas que, quando chegam num ponto da carreira, não são chamadas para os conselhos, enquanto os homens são.

BBC Brasil - Muitos apontam sua trajetória como um exemplo de meritocracia.

Luiza Trajano - Não sou contra a meritocracia, pelo contrário. Só que existem limitantes que fazem com que mulheres não cheguem ao conselho. Conheço mais de cem mulheres que poderiam ir para conselhos.

Você não ser lembrada não é meritocracia. Agora, estar lá só porque é mulher, também não. A cota faz lembrar. Ninguém fica num lugar se não tiver competência.

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