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Mulheres protagonizam um mundo em evolução

'Há um atirador na escola do seu filho': dois massacres que marcaram a vida de uma mãe nos EUA

Arquivo pessoal/BBC
A advogada Celia Randolph, de 58 anos, vive com sua família em Parkland, na Flórida Imagem: Arquivo pessoal/BBC

Georgina Rannard

Da BBC News

05/03/2018 20h53

É uma história que soa improvável. Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar, diz o ditado. A não ser quando cai. "Eu quero que nossa história continue a chocar para sempre, mas temo que já não estejamos sozinhos", diz Celia Randolph.

De fora, eles são uma família normal - mãe, pai, quatro filhos. Tinham vivido em pequenas cidades dos Estados Unidos que sempre pareceram seguras.

As crianças falam de forma precisa e cuidadosa, assim como a mãe. "Eu não sou uma pessoa muito emocional", ela explica. "Mas estou com muita raiva e muito triste. Os Estados Unidos falharam com nossos filhos. O que aconteceu com minha filha em 2006 nos abalou completamente."

E então, no Dia dos Namorados deste ano (em 14 de fevereiro para os americanos), ela recebeu uma mensagem de texto. Celia viu as palavras: "Você não está próximo de Parkland, está? Houve um tiroteio."

"Fiquei repetindo para mim mesmo: 'De novo não, de novo não'." Ela parou tudo o que estava fazendo: "Quando acontece, você corre. Você corre". Seu filho Christian estuda na Marjory Stoneman Douglas High School, em Parkland, na Flórida.

A primeira vez que Celia recebeu um telefonema dizendo que havia um atirador na escola dos filhos foi 12 anos atrás.

Ela e o marido estavam a 80 km de casa. "Corremos para chegar onde ela estava."

Sua filha, Chelsea, tinha 14 anos e a família morava em Bailey, uma pequena cidade no Estado do Colorado. O massacre de Columbine, em que 13 pessoas haviam sido assassinadas, tinha acontecido em 1999, a apenas uma hora dali.

Quando Chelsea conta sua história - sobre a qual nunca havia falado publicamente até agora -, ela se mostra angustiada: "O que aconteceu com as outras famílias é pior. Não os ofusque."

Ela está se referindo à família de sua amiga Emily Keyes, uma jovem de 16 anos que foi morta no desfecho violento de um ataque à escola que frequentava em 2006.

O atirador entrou na Platte Canyon High School com uma arma e uma mochila que dizia estar cheia de explosivos. Ele fez seis meninas reféns em uma sala de aula. O cerco terminou quatro horas depois, quando oficiais da Swat, unidade de polícia especializada dos EUA, abriram um buraco na parede.

De início, Chelsea se escondeu embaixo de uma mesa. Quando a Swat entrou, ela e outros colegas escaparam da sala.

Arquivo pessoal/BBC
Chelsea Paz na festa de seu aniversário de 15 anos, meses depois de ter assistido a um tiroteio em sua escola Imagem: Arquivo pessoal/BBC

"Quando um homem paramentado dos pés a cabeça, com colete à prova de balas e uniforme, entra na sua sala de aula empunhando uma arma e gritando para você sair, você não faz a menor ideia do que pode acontecer com você", ela diz. "Enquanto nós corríamos para fora, víamos membros da Swat em todos os cantos. Vi um amigo em uma das salas, pálido e paralisado. Ele não conseguia falar."

Assim que Chelsea conseguiu voltar para casa, ela e os pais assistiram aos desdobramentos pela televisão, que mostrava helicópteros e uma multidão de policiais armados em volta da escola. "Nós não sabíamos quem eram os reféns, mas nós podíamos deduzir pelos horários de aula quem ainda estaria na escola (no momento do ataque)."

Era difícil conseguir informações precisas. A única opção era assistir à TV para descobrir o que aconteceria com os colegas. "Nós vimos as meninas serem liberadas uma a uma - tinha uma morro próximo da escola, e nós vimos quando elas corriam (para lá) para se salvar."

Após uma pausa, ela continua: "Lembro a imagem de uma maca saindo pela porta da escola e sendo colocada em um helicóptero".

O ataque destruiu Celia emocionalmente. "Foi muito, muito difícil. Você começa a pensar: 'Eu não consigo proteger meus filhos'. Foi horrível."

"Tirou a sensação de segurança que eu esperava que meus filhos tivessem. Um estranho invadiu nossas vidas e fez essa coisa terrível. A impressão era de que, se algo assim poderia acontecer ali, onde nossa família poderia estar em segurança?", afirma.

Ela se consolava com a ideia de que o ataque não tinha sido planejado especificamente para a escola da filha. "Todos nós consideramos o episódio um ato aleatório de violência, e não um 'ataque a uma escola'."

Mas ela continuava triste, e isso fez com que se sentisse culpada. "Eu me perguntava o que estava errado comigo, já que eu tinha oportunidade de abraçar minha filha." Ela diz que cuidar de uma criança traumatizada tem um preço, mas que ela e o marido conseguiram dar uma criação estável para os filhos. "Nós temos boas relações familiares e os amamos. Não acho que tenha mudado a nossa família de forma permanente."

Arquivo pessoal/BBC
O marido de Celia, Jason, e um dos filhos do casal, Christian, em 2006 Imagem: Arquivo pessoal/BBC

Chelsea concluiu o ano escolar e, em 2007, a família saiu do Colorado, voltando para a Flórida, onde estavam as raízes de Celia e do marido, Jason.

A vida da família continuou e, embora Celia nunca tenha sentido que a tragédia era de fato uma página virada, ela sempre se sentiu "abençoada". Passados 12 anos, a lei sobre porte de armas praticamente não mudou no país. As estatísticas indicam que, entre 2006 e 2018, houve 57 ataques a tiros em massa nos Estados Unidos. Ainda assim, Celia achava ser impossível que a mesma coisa acontecesse com outro de seus filhos.

Poucas semanas atrás, porém, Celia voltou a receber um telefonema dizendo que havia um atirador na escola de um de seus filhos.

Christian tem 16 anos e é um jovem quieto. Como é inteligente, Celia e Jason decidiram matriculá-lo na escola Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida, por causa de sua boa reputação acadêmica.

O jovem estava na aula de gastronomia quando ele e os amigos ouviram tiros. A professora, Ashley Kurth, os empurrou para dentro de um armário. "No começo, nós não levamos a sério, mas fomos ficando cada vez mais calados. Deitei no chão. Não conseguia expressar qualquer sentimento porque tínhamos que permanecer em silêncio. As pessoas estavam mandando mensagens para os pais, mas eu não, porque tinha esquecido de carregar meu telefone."

Após receber a notícia, Celia correu para pegar o carro. Ela chegou o mais próximo possível da escola. "Eu não conseguia obter qualquer informação. Escrevia para ele (Christian) e ele não me respondia", ela conta. "Aquilo me matou. Eu não parava de pensar: 'Meu filho está vivo? Ela está com medo? Está machucado?'"

Uma barricada bloqueava o acesso dos pais ao local, já que a polícia ainda estava buscando o atirador.

A professora de Christian colocou para dentro da sala outros alunos que havia ficado encurralados no corredor. Eles ouviam as atualizações da polícia através de um walkie-talkie. Ela tentava acalmar os adolescentes afirmando que, se o atirador os encontrasse, eles estariam em uma cozinha cercados por facas grandes e afiadas.

Assim como sua irmã, Christian lembra de ouvir agentes da Swat gritando: "Mãos para cima, deitem-se no chão". Segundo ele, os policiais não tinham como ter certeza sobre quem era o atirador.

Christian viu sangue nas escadas do lado de fora das salas de aula. "Nós corremos para a rua. Havia helicópteros, policiais, equipamento militar em todos os lugares. Deixaram a gente ver nossos pais. Fiquei muito feliz por estar fora da escola, mas depois comecei a ficar cada vez mais triste", conta o estudante.

Enquanto Chelsea se sentiu isolada depois de presenciar o ataque em sua escola, Christian teve a "sorte" de poder compartilhar seu sentimento com uma irmã que também sobrevivera a um evento traumático.

"Ela me falou que também quis ficar dentro da escola enquanto ocorria (o ataque), que no início, ela se sentia anestesiada. Ela disse que se sentiu muito triste, depois ficou melhor, mas quatro anos depois aquele sentimento ruim voltou. Por todas essas terríveis razões, foi muito bom ter ela por perto. Ela já sabia o que iria acontecer comigo", diz ele.

Para Celia, duas semanas depois do ataque em Parkland - em que o fuzil disparado pelo atirador Nikolas Cruz fez 17 vítimas fatais -, a gratidão por dois de seus filhos terem sobrevivido a massacres em escolas já começa a se dissipar, pois ele é momentâneo. Segundo ela, sua experiência mostra o que a comunidade de Parkland deve enfrentar nos próximos anos.

"Pais e crianças machucadas vão ter de lidar com seus traumas por um longo tempo. Fico triste de saber o que vai acontecer agora", diz ela.

"Estou lutando com a ideia de que tenho duas crianças que tiveram de escapar de tiros. É tão triste ter uma filha que passou por isso e que agora precisa confortar seu irmão que sofreu com a mesma situação."

Celia integra um grupo online de pessoas da cidade - recentemente, os membros se perguntaram como milhões de dólares arrecados em uma campanha poderiam ajudar na recuperação da comunidade. Afinal, o funeral e as despesas médicas das vítimas serão custeadas pelo município.

"Há custos que eles não podem prever agora. Os pais que não poderão trabalhar por causa das idas ao hospital ou por ter que cuidar das crianças traumatizadas ainda terão de pagar suas hipotecas. O dinheiro também pode ser usado para o tratamento das crianças, que pode levar anos", ela explica.

Ela já viu uma comunidade lidar com o rescaldo de um massacre. Embora diga que Bailey, sua antiga cidade, "se uniu de um jeito maravilhoso", ela afirma que "processar o que aconteceu levou tempo".

"Nem todas as crianças em Parkland vão ficar bem. Não são todos que vão sair bem deste episódio. Não há uma previsão de quanto tempo essa estrada vai durar, e não apenas para as vítimas e famílias", adverte.

Ela conta que muita gente ficou em choque depois do primeiro ataque do qual sua filha foi testemunha. A família, que achou a cobertura da mídia em ambos os casos invasiva e traumática, agora quer falar publicamente para pedir o fim dos massacres em escolas. "Não não somos antiarmas, mas nós somos contra armas de guerra estarem disponíveis para todos. Nós não podemos falhar com nossas crianças. As pessoas podem não acreditar que nossa família passou por dois ataques, mas não tenho certeza de que as chances de haver outras famílias como a nossa sejam pequenas", diz Celia.

Os adolescentes da escola Stoneman Douglas voltaram às aulas na semana passada, e alguns deles fizeram discursos contra a violência armada. Depois do massacre, o presidente Donald Trump chocou legisladores ao pedir mudanças na lei de armas, inclusive um maior controle sobre a venda de armamentos - restrição normalmente criticada por seu partido, o Republicano.

Celia já viveu o ciclo de violência, a indignação pública e o posteiror retorno à normalidade. Ela quer que o debate não inclua saúde mental nem expansão do acesso a armas por professores, como Trump defendeu inicialmente. "Nada vai mudar até que haja financiamento (de campanhas políticas) que não venha da NRA (Associação Nacional de Rifles, principal grupo de lobby pró-armas dos EUA e importante doadora a campanhas eleitorais)", diz.

Ela acredita que algo está diferente desta vez. "Essas crianças (sobreviventes em Parkland) têm acesso às redes sociais e são muito articuladas, mas também privilegiadas. As crianças envergonharam os adultos, forçando-os a agir. Eu as amo por isso. Agora elas precisam ir para escola e ser apenas crianças. É nosso dever como adultos, ainda não é tarde", diz.

Na quarta-feira, Chistian voltou para a escola pela primeira vez depois do massacre. "Sei que ele ainda não foi atingido pelo soco de realidade a que ele e sua escola foram submetidos. É aí que minha experiência com outro tiroteio me deixa triste. Mas isso fará com que eu entenda melhor meu filho quando esse momento chegar", explica Celia.

No dia seguinte, "caiu a ficha" de Christian e ele não conseguiu ir à escola.

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