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Busca pela felicidade está nos tornando infelizes, diz pianista que sobreviveu a abusos e tentativa de suicídio

Reprodução HARDtalk/BBC
Para pianista, a felicidade é, simplesmente, um estado de ser, que é fluido, passageiro e às vezes inatingível Imagem: Reprodução HARDtalk/BBC

14/01/2018 16h40

A busca pela felicidade está nos tornando infelizes e as redes sociais não estão ajudando.

A opinião é do pianista James Rhodes, que sobreviveu a anos de abuso sexual na infância seguidos de tentativas de suicídio.

"Não somos destinados a ser felizes o tempo inteiro", diz ele no quadro opinativo Viewsnight, do programa da BBC Newsnight, afirmando que a busca pela felicidade a todo custo está nos tornando infelizes.

Na visão do pianista, "a busca pela felicidade parece nobre, mas é fundamentalmente falha".

Ele considera que "a felicidade não é algo a se perseguir mais do que a tristeza, a raiva, a esperança ou o amor".

A felicidade "é, simplesmente, um estado de ser, que é fluido, passageiro e às vezes inatingível".

Negar a existência de outros sentimentos, nem sempre considerados positivos, afirma, não é o melhor caminho.

Redes sociais

Rhodes observa que estamos em uma era de ritmo sem precedentes no dia a dia e que "nossa mentalidade 'sempre ligada' criou um ambiente impraticável e insustentável".

"Estamos em apuros", diz ele. "E as selfies cuidadosamente escolhidas postadas no Instagram; a perfeição física espalhada por todas as mídias -inalcançável e extremamente 'photoshopada' - e o anonimato das redes sociais, onde descarregamos nossa ira, não estão ajudando".

Especialistas já alertam que o uso de redes sociais pode causar ou agravar doenças mentais, como depressão.

O pianista defende que esse tipo de doença - com o qual sofre há 20 anos - seja urgentemente repensado e também classificado, enquanto expressão, como simplesmente "condição humana" e não mais como doençal mental.

"Sentimentos desafiadores"

Rhodes chama a atenção para os diferentes tipos de sentimento que permeiam a vida e nem todos têm a ver com satisfação ou alegrias. Há também o outro lado.

"Todos nos sentimos alternadamente ansiosos, para baixo, tranquilos, aflitos, contentes. Ocasionalmente, alguns de nós podemos nos perder no continuum em direção a depressão, ao transtorno de estresse pós-traumático e a pensamentos suicidas", diz.

Mas pondera: "Só porque não estamos felizes não significa que estamos infelizes".

Para o pianista, assim é a complexidade da vida: "repleta de sentimentos e situações tumultuados, desafiadores e difíceis".

"Negá-los, resistir a eles, se desculpar por eles ou fingir que não existem é contra-intuitivo e contraproducente".

Foi justamente o caminho contrário, o do reconhecimento de que "coisas ruins também acontecem" e de que é preciso falar sobre elas que ele decidiu trilhar há alguns anos - quando resolveu contar em livro episódios de abusos sexuais e outros problemas que enfrentou ao longo da vida.

Reprodução HARDtalk/BBC
James Rhodes_ Para ele, negar sentimentos e situações tumultuados, desafiadores e difíceis é contraproducente Imagem: Reprodução HARDtalk/BBC
Abusos

Rhodes foi vítima de abusos sexuais cometidos por um professor quando tinha entre 6 e 10 anos de idade.

Ele detalhou a história 30 anos depois no livro "A Memoir of Madness, Medication and Music", publicado em 2015 e traduzido para o português como "Instrumental: memórias de música, medicação e loucura".

Antes, no entanto, enfrentou 14 meses de batalha judicial com a ex-mulher, que tentava impedir a publicação argumentando que o livro - que relata não apenas os abusos como também os problemas psiquiátricos que se seguiram - poderia traumatizar o filho do casal, na época com 12 anos de idade.

Entre os famosos que apoiaram o pianista na época estava o ator e amigo de infância Benedict Cumberbatch, intérprete do detetive Sherlock Holmes, na série Sherlock, da BBC, e indicado ao Oscar pelo filme "O Jogo da Imitação".

O livro de Rhodes detalha que o pianista foi estuprado repetidas vezes por seu professor de educação física e boxe em uma escola particular de elite em Londres.

A isso seguiram-se anos de uso de drogas e álcool, comportamentos autodestrutivos, tentativas de suicídio e uma temporada de internação em um hospital psiquiátrico.

Uma reviravolta em sua vida só ocorreu quando ele, que havia deixado de tocar havia dez anos, procurou um dos maiores agentes do mundo para propor uma parceria.

Salvo pela música

O agente ficou fascinado ao ouvi-lo tocar e decidiu que não se tornaria seu sócio, mas que faria com que voltasse para a música.

Rhodes voltou então a ter aulas, com um dos mais reconhecidos professores da Itália, e acabou mudando de vida. Foi salvo pelo piano.

Já conhecido no cenário musical, ele denunciou o homem que aponta como autor dos abusos, identificado como Peter Lee. À época da denúncia, o suspeito dava aulas de boxe para crianças de dez anos.

Ele tinha cerca de 70 anos quando foi preso e indiciado por abuso sexual. Morreu, no entanto, antes de ser julgado.

"Há períodos em que eu me desprezo, em que eu quero me machucar, em que eu quero morrer. E há períodos em que eu me sinto bem no mundo e todas essas coisas são naturais para mim", diz Rhodes no Viewsnight, da BBC, ao abordar a questão da busca pela felicidade. Ele sugere: "Talvez nós possamos focar em celebrar nossa bagunça individual e, ao fazer isso, nos unir de uma maneira mais honesta".

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