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Violência contra a mulher

Denis Mukwege, o médico das mulheres estupradas que nunca se dá por vencido

Joel Saget/AFP
24.out.2016 - Denis Mukwege é médico ginecologista e ativista na luta pelo fim da violência contra a mulher Imagem: Joel Saget/AFP

07/12/2018 08h42

Trabalhar sem descanso e nunca se resignar diante do horror. Esta é a máxima de Denis Mukwege, o médico que atende a mulheres estupradas do leste da República Democrática do Congo (RDC) e que receberá na segunda-feira (10) o Prêmio Nobel da Paz ao lado da yazidi Nadia Murad.

No ano de 2018, crucial para a RDC, que se prepara para virar uma página de sua história, o júri do Nobel premiou uma das vozes mais críticas do regime do presidente Joseph Kabila, mais ouvida no exterior do que no próprio país.

"O homem deixa de ser homem quando não sabe dar amor nem esperança aos demais", afirmou em 2015 aos funcionários do hospital de Panzi que dirige em Bukavu, a capital da província de Kivu do Sul.

Mukwege, 63 anos, é casado e pai de cinco filhos. Estudou na França, onde poderia trabalhar, mas tomou outra decisão: escolheu retornar a seu país e permanecer nele nos momentos mais difíceis.

Seu pai, um pastor pentecostal, ensinou-lhe a fé. "É muito religioso e vive seus valores em tudo o que faz e, sobretudo, nunca se dá por vencido", conta uma fonte europeia que colaborou com o ginecologista por vários anos em Panzi.

Sua luta pela dignidade das mulheres que são vítimas dos conflitos que devastam o leste da República Democrática do Congo há mais de 20 anos e suas palavras como porta-voz de milhões de civis ameaçados pelos grupos armados em Kivu o deixam exposto a todo tipo de perigo.

Mas ele está acostumado às ameaças. Em outubro de 2012 escapou de uma tentativa de assassinato. Depois de um breve exílio na Europa, retornou para Bukavu em janeiro de 2013. Não conseguiu abandonar seus pacientes.

Viaja com frequência ao exterior para alertar sobre a tragédia no leste do Congo e denunciar o uso do estupro como "arma de destruição em massa" nas guerras.

Entre duas viagens ao exterior, como este ano ao Iraque para lutar contra a estigmatização das mulheres yazidis estupradas, vê-se obrigado a trabalhar em seu hospital sob a proteção permanente de soldados da Missão das Nações Unidas no Congo (Monusco).

"É um homem correto, justo e íntegro, mas que não suporta a mediocridade", descreve Levi Luhiriri, médico no mesmo hospital.

Sua fundação recebe grande apoio da União Europeia.

'Doutor Milagre'

Denis Mukwege nasceu em março de 1955 em Bukavu, no que antes era o Congo belga. É o terceiro de nove filhos. Depois de estudar Medicina no vizinho Burundi, voltou para seu país para trabalhar no hospital de Lemera, em Kivu do Sul.

Foi então que descobriu a dor das mulheres que, por falta de atendimento, sofrem graves lesões genitais no pós-parto que as condenam a problemas permanentes.

O médico fez sua especialização em Ginecologia e Obstetrícia na França. Retornou para Lemera em 1989, para o serviço de ginecologia do hospital, um centro médico que virou ruínas durante a primeira guerra do Congo em 1996.

Em 1999, o doutor Mukwege criou o hospital de Panzi. Ele o concebeu para permitir o parto das mulheres em excelentes condições. Em pouco tempo, o local se tornou uma clínica de tratamento dos estupros sofridos durante a segunda guerra do Congo (1998-2003), quando foram registrados muitos casos de violência contra as mulheres.

Esta "guerra contra o corpo das mulheres", como recorda o médico, continua com a presença de milícias em áreas do norte e do sul de Kivu.

O cirurgião tem mãos prodigiosas. Muitos o chamam de "Doutor Milagre", porque, graças ao seu trabalho, muitas mulheres conseguiram se recuperar. Em 2015, obteve o grau de professor da Universidade Livre de Bruxelas, onde defendeu uma tese sobre o tratamento das "fístulas traumáticas urogenitais".

Seu trabalho já foi premiado na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia.

Defensor da dignidade humana, Mukwege fundou em 2014 um movimento feminista masculino, V-Men Congo.

E é a imagem de uma campanha mundial que pede às grandes multinacionais um controle de suas cadeias de abastecimento para que não comprem os "minerais de sangue", que contribuem para alimentar a violência no leste do Congo.

Desde 2015, seu país enfrenta uma crise política salpicada de violência. Ele também condena a atual situação. "O homem que repara as mulheres", como descreve um documentário sobre seu trabalho, denuncia o "clima de opressão e a restrição do espaço das liberdades fundamentais".

Em junho, o vencedor do Nobel pediu aos compatriotas que "lutem pacificamente" contra o regime do presidente Joseph Kabila, ao invés de apostar tudo nas eleições previstas para 23 de dezembro, "que já sabemos que serão manipuladas".

"Somos governados por pessoas que não gostam de nós", disse ele em março, ao reagir ao boicote de Kinshasa a uma conferência humanitária sobre a RDC.

Aos que pensam que ele tem aspirações políticas, Mukwege afirma que sua única preocupação são as pacientes, mas que não imaginem que ele renunciará à liberdade de expressão.